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    Conhece a origem do Kame Senin (Tartaruga Genial e Mestre Kame) e do Kamehameha

    O falecido Akira Toriyama, criador da lendária série Dragon Ball, deixou um legado absolutamente inconfundível. Mesmo quem nunca viu a obra reconhece imediatamente as suas personagens e, claro, aquele ataque icónico que praticamente todos já tentámos imitar pelo menos uma vez na vida, e que se tornou, desde então, quase um requisito mínimo para qualquer shonen.

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    Mas sabiam que esse ataque nasceu, na verdade, de um bloqueio criativo… e que foi a própria esposa de Toriyama quem o resolveu?

    Para compreender melhor a importância da Sra. Yoshimi Kato, ex-artista de mangá de Nagoya sob o pseudónimo de Nachi Mikami, a esposa do falecido criador de Dragon Ball, é essencial perceber que o seu papel ia muito além de simples sugestões ocasionais. Era, de facto, uma das pessoas que mais influenciava o processo criativo do seu marido, especialmente durante a serialiação de Dr. Slump e dos primeiros anos de Dragon Ball.

    Toriyama, apesar de ser um artista excecional, tinha frequentemente momentos de indecisão, sobretudo em questões que exigiam impacto cultural ou sonoridade marcante, e foi precisamente aí que Nachi se tornou indispensável. Tinha um talento natural para escolher nomes quando um conceito precisava de mais profundidade e para encontrar referências fora do universo habitual de Toriyama. Frequentemente dava-lhe ângulos inesperados que enriqueciam a obra. Foi também quem sugeriu o seu marido e editor relaxarem a ver TV quando estavam num bloqueio criativo e decidir qual seria o sucessor de Dr. Slump. Caso não saibam esse sucessor foi Dragon Boy, e um ano mais tarde Dragon Ball, por isso é seguro afirmar que sem Nachi, Dragon Ball poderia nem ter existido.

     

    Uma curiosidade bastante pouco conhecida é que Nachi Mikami tinha um grande interesse por culturas asiáticas e do Pacífico, o que influenciou diretamente várias escolhas dentro da série. A sugestão do nome “Kamehameha”, por exemplo, não foi um acaso feliz, mas sim fruto do seu conhecimento histórico sobre o Havai e a figura de Kamehameha I. Esta combinação entre conhecimento cultural e sensibilidade artística era precisamente o que Toriyama precisava quando terminou o primeiro arco e decidiu inspierar-se nos filmes de artes marciais dos anos 70.

    Kamehameha I foi o primeiro monarca das ilhas havaianas, responsável por unificar o arquipélago e fundar o Reino do Havai em 1795. Tornou-se o único governante em 1810, após a vassalagem de Kauai, a maior ilha do conjunto, curiosamente o local onde mais tarde seriam filmados os filmes Jurassic Park.

    O nome “Kamehameha” é, por excelência, recheado de significados que raramente são falados. Em havaiano, pode ser interpretado como “o solitário” ou “o exilado”, títulos que descrevem não só o rei histórico, mas que também encaixavam de forma surpreendente na personalidade de um célebre mestre de artes marciais com o título Mutenroshi (Mestre Invencível), cá mais conhecido como Tartaruga Genial e no Brasil Mestre Kame. Todos estes elementos permitiram a Toriyama aprofundar subtilmente a sua própria personagem. Um mestre poderoso que vive isolado numa ilha, rodeado de tranquilidade e excentricidade. O facto de o vermos frequentemente com camisas de padrões havaianos é mais uma peça do puzzle cultural que Nachi ajudou a montar.

    Outra curiosidade é que, no Japão, a sonoridade das palavras é algo muito valorizado. O “Ha” final do Kamehameha proporcionava uma sensação de libertação, impacto e explosão, quase fosse como um grito energético. Para uma série de ação, com forte ênfase visual e sonora, era simplesmente perfeito. Toriyama, que adorava criar ataques com onomatopeias ricas em ritmo e musicalidade verbal, apaixonou-se imediatamente pelo nome assim que Nachi, meio a brincar, o sugeriu. Na sua vida o próprio autor admitiu que sem esta intervenção, o movimento poderia ter recebido um nome muito mais simples e menos memorável, e consequentemente, o risco de nunca ganhar o estatuto icónico que conquistou.

    Além disso, a cultura havaiana tem uma ligação interessante com o imaginário japonês. Tanto o Japão como o Havai partilham uma longa história de imigração, trocas culturais e ligações linguísticas. Muitas palavras havaianas soam naturais aos ouvidos japoneses, e a estética havaiana, praias tropicais, camisas floridas, vida descontraída, sempre foram muito populares no Japão. Assim, quando o nome Kamehameha foi sugerido, Toriyama reconheceu de imediato uma oportunidade para integrar na série uma dimensão cultural que o público japonês reconheceria como exótica e familiar. Isto ajudou a fortalecer o conceito de “Kame Senin” enquanto mestre excêntrico, isolado, cheio de sabedoria peculiar e prazeres mundanos.

    Outra curiosidade relevante é o processo criativo de Toriyama quando escolhia nomes. Era famoso por utilizar trocadilhos, associações cómicas e jogos de palavras para batizar personagens e técnicas. Por isso, o facto de o nome “Kamehameha” ter simultaneamente peso histórico, significado semântico e impacto humorístico tornou-o perfeito para a obra. Toriyama adorava nomes que eram ao mesmo tempo grandiosos e absurdos, e o Kamehameha encaixava exatamente nessa filosofia. Penso que o mote da escola da Tartaruga “Treinar bem, comer bem e descansar bem” tenha também partido desta filosofia, e deixo a recomendação que é um segredo para viver um vida plena e bela.

    O nome também abriu portas para que Dragon Ball ficasse marcado por ataques que soam épicos quando gritados em voz alta, um elemento que se tornou inseparável das batalhas da série. Basta lembrar que, décadas depois, milhões de fãs pelo mundo continuam a gritar “KAMEHAMEHAAAA!” como se fosse um ritual global. O que começou como uma sugestão doméstica acabou por se tornar num símbolo cultural reconhecido em praticamente qualquer país.

    Assim, a influência de Nachi Mikami na obra do marido é inegável. Ajudou a moldar não só uma das técnicas mais icónicas da história da animação, mas também vários elementos subtis da personalidade e estética de Kame Senin, bem como aspetos da própria identidade de Dragon Ball. O contributo de Nachi é um lembrete de que grandes obras não nascem apenas de um génio isolado, mas também das pessoas que o rodeiam, inspiram e completam. E no caso de Dragon Ball, essa influência foi determinante para que se tornasse o fenómeno mundial que conhecemos hoje.

    Bruno Reis
    Bruno Reis
    Vindo de vários mundos e projetos, juntou-se à redação do Otakupt em 2020, pronto para informar todos os leitores com a sua experiência nas várias áreas da cultura alternativa. Assistiu de perto ao nascimento dos videojogos em Portugal até à sua atualidade, devora tudo o que seja japonês (menos a gastronomia), mas é também adepto de grandes histórias e personagens sejam essas produzidas em qualquer parte do globo terrestre.

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