Foi há mais de um ano que S.T.A.L.K.E.R. 2: Heart of Chornobyl chegava ao mercado com grande ambição mas igualmente com uma considerável quantidade de problemas. O lançamento atribulado para a Xbox Series e PC deixou grande parte dos jogadores descontentes. No entanto, a produtora Ucraniana GSC Game World persistiu, lançando diversas atualizações que foram moldando o jogo gradualmente. Agora, com a chegada à PlayStation 5, S.T.A.L.K.E.R. 2 mostra-se na sua melhor forma, revelando finalmente toda a força desta sequela.
Em S.T.A.L.K.E.R. 2, somos colocados na pele de um novo Stalker chamado Skif que entra na Zona de Exclusão em missão mas rapidamente se vê em busca de algo mais, redenção, respostas, ou simplesmente, sobrevivência. A narrativa começa relativamente direta mas logo se transforma numa jornada marcada pelo mistério, por conflitos e por descobertas perturbadoras. A Zona não é só considerada um cenário, é também um organismo vivo, imprevisível e extremamente hostil.
A sensação de opressão durante o jogo é constante. Este mundo não está feito para nos “acolher”; pelo contrário, repele-nos, desafia-nos e castiga-nos. As patrulhas inimigas movem-se com objetivos próprios, os grupos rivais de Stalkers surgem onde menos esperamos e até animais afetados pela radiação, aparentemente inofensivos, podem tornar-se uma ameaça mortal em segundos. A atmosfera é densa e brilhantemente construída, uma fusão de pós-apocalipse, terror psicológico e realismo.

As anomalias continuam a ser um dos elementos primordiais da série, assumindo aqui um protagonismo ainda maior. Não são somente obstáculos, são sistemas ambientais que nos obrigam a pensar constantemente no terreno que pisamos. É preciso aprender a “ler” o mundo, o ar que ondula, o som metálico ao longe, a vibração do detetor.
Para apreciarmos por completo o que a narrativa tem para oferecer precisamos analisar os textos que encontramos, ouvir as gravações de áudios e etc.
As criaturas são outro elemento à parte. A variedade é notável e a imprevisibilidade é ainda maior. Algumas investem quase de forma suicida; outras, como os mutantes invisíveis, transformam os encontros em autênticas experiências de terror. Embora por vezes a inteligência artificial exagere na agressividade, estes momentos reforçam o sentimento constante de vulnerabilidade, o que define Stalker: a luta pela sobrevivência.
Quanto ao combate, é deliberadamente pesado. As armas têm recuo significativo, munições são de certa forma limitadas e acertar em campo aberto é tão desafiante quanto recompensador. Cada modificação de arma altera realmente a forma como lidamos com os inimigos. Sentir que um simples silenciador, uma mira melhor ou um carregador mais leve podem salvar-nos a vida dá uma importância real ao sistema de melhorias, que vai muito além do aspeto visual.

No entanto, o inventário continua a ser um elemento de discórdia, mas com um toque de realismo. A gestão de peso leva-nos continuamente a tomar decisões complicadas como ponderar se precisamos mais de munições ou de comida para sobreviver, de um artefato em vez de um par de granadas. Este sistema pode causar bastante frustração mas reforça a filosofia central do jogo, tudo tem um custo.
Embora a narrativa principal tenha um rumo claro, o jogo floresce quando escolhemos explorar as tramas que rodeiam a Zona. As missões secundárias podem nos levar a pequenas tarefas, enquanto outras nos levam a conhecer personagens carismáticas, segredos da Zona ou ao encontro de situações inesperadas. Há também eventos aleatórios que tornam cada sessão diferente. Um grupo de Stalkers feridos por uma criatura a pedir ajuda, uma anomalia recém-formada no nosso caminho ou um ataque a um acampamento.
O mundo consegue ser vasto o suficiente para nos proporcionar uma sensação constante de descoberta, reforçada pela presença de artefactos raros que exigem perícia e coragem para serem recolhidos. A curiosidade é sempre recompensada, mas como é habitual, quase sempre à custa do risco.

Depois de não ter brilhado tanto como devia na Xbox Series e PC, S.T.A.L.K.E.R. 2: Heart of Chornobyl chega à PlayStation 5 com a estabilidade que lhe faltava. A experiência apresenta-se mais fluida, com boa resolução e tempos de carregamento mais rápidos. Não estamos perante um jogo hiper-realista a nível gráfico mas ambos os modos funcionam bem. As texturas detalhadas, a iluminação bem trabalhada e efeitos atmosféricos elevam o ambiente natural e sombrio do jogo. Todavia, pequenos problemas persistem, tais como animações que por vezes são rígidas e alguns pop-ins, mas nada que nos atrapalhe.
O primeiro jogo da série, S.T.A.L.K.E.R.: Shadow of Chernobyl, foi lançado no dia 20 de Março de 2007.
Uma das novidades técnicas é a integração do DualSense, que aumenta ainda mais a imersão. Por exemplo, os gatilhos adaptativos conferem a cada arma uma sensação própria, variando a resistência e recuo para criar disparos mais credíveis, enquanto o feedback háptico complementa esta ideia, reagindo tanto ao combate como ao ambiente, transmitindo vibrações distintas para anomalias, passos de criaturas ou impactos próximos.
Por fim, o voice acting é muito bom, especialmente quando jogamos no idioma da produtora, o ucraniano, transportando-nos eficazmente para o universo de Chornobyl.

S.T.A.L.K.E.R. 2: Heart of Chornobyl apresenta a experiência que muitos esperavam no lançamento original, atmosférico, polido e exigente. Continua a ser um jogo difícil que pode afastar parte dos jogadores casuais de shooters mas com paciência e persistência vai se revelando cada vez mais interessante. Para quem aprecia mundos abertos naturalmente perigosos, mecânicas de sobrevivência e narrativas marcadas pelo estranho e grotesco, esta versão é sem dúvida a experiência ideal.













