
A Comic Con Portugal acaba de confirmar a presença de Bastien Vivès, um dos nomes mais influentes da banda desenhada europeia contemporânea, na edição de 2026. Aos 41 anos, o autor parisiense traz consigo um currículo que atravessa múltiplos géneros e formatos, desde narrativas intimistas até séries de ação com estética próxima do mangá.
Vivès não é propriamente um desconhecido do público português. Várias das suas obras foram publicadas em português e o seu trabalho tem sido reconhecido tanto pela crítica especializada como pelos leitores que procuram histórias onde o traço e a narrativa visual assumem protagonismo absoluto.
Nascido em Paris a 11 de fevereiro de 1984, Vivès construiu a sua formação artística em algumas das instituições mais conceituadas de França. Passou pela Escola Técnica de Design, frequentou três anos a Escola Superior de Artes Gráficas de Paris e terminou o percurso académico na Gobelins, onde se especializou em cinema de animação. Esta base em animação é visível em cada página que desenha, há um sentido de movimento, ritmo e expressão corporal que poucos autores conseguem transmitir com tanta fluidez.
O reconhecimento internacional chegou cedo. Em 2009, aos 25 anos, recebeu o Prémio Revelação do Festival Internacional de Banda Desenhada de Angoulême pela obra O gosto do cloro (Le goût du chlore), uma história silenciosa sobre um jovem que frequenta uma piscina por recomendação médica e ali conhece uma rapariga. É uma narrativa quase sem palavras, construída através de olhares, gestos e a cadência das braçadas na água. A obra tornou-se um dos seus trabalhos mais emblemáticos e continua a ser uma referência quando se fala de banda desenhada intimista.
O gosto do cloro vai ser publicado em janeiro de 2026 em Portugal pela editora Devir.

Três anos depois, em 2012, com Polina conquistou o Grande Prémio da Crítica em França. O álbum acompanha a vida de uma jovem bailarina russa desde a infância até à maturidade artística, explorando a relação entre mestre e aluna, exigência e liberdade criativa. Desenhado a preto, branco e tons de cinza, Polina foi mais tarde adaptado ao cinema pelos realizadores Angelin Preljocaj e Valérie Müller.
Lastman: quando a BD francesa abraça o mangá
Em 2013, Vivès iniciou um projeto que viria a marcar uma viragem na sua carreira e na própria BD francófona. Juntamente com Balak e Michaël Sanlaville, criou Lastman, uma série frequentemente descrita como mangá francês. A história segue Adrian Velba, um rapaz de 12 anos que participa num torneio de combate ao lado de Richard Aldana, um lutador misterioso que recusa usar magia num mundo onde todos a utilizam.
O projeto foi concebido desde o início como algo mais do que banda desenhada, havia planos para jogos e outras adaptações transmedia. Lastman ganhou o Prémio de Melhor Série em Angoulême em 2015 e foi adaptada a série animada, consolidando o seu estatuto de fenómeno cultural em França.
Ao contrário da maior parte da BD franco-belga, Lastman adopta códigos visuais e narrativos próximos do shonen japonês: combates dinâmicos, progressão por arcos narrativos, ritmo acelerado.
Para além de Polina e O gosto do cloro, Vivès assinou obras como Uma irmã, Le Chemisier e Dernier Week-End De Janvier. Trabalhou ainda em projetos coletivos como Les Autres Gens, uma série digital escrita por Thomas Cadène. Mais recentemente, foi convidado a criar uma série paralela dedicada a Corto Maltese, a icónica personagem de Hugo Pratt, da qual já foram publicados dois volumes.

Temas recorrentes: juventude, identidade e emoção
Há fios condutores que atravessam toda a obra de Vivès. As suas histórias centram-se frequentemente em personagens jovens, adolescentes ou jovens adultos, em momentos de aprendizagem e transformação. Não são narrativas sobre grandes acontecimentos, mas sobre pequenos gestos, silêncios carregados de significado, relações que se constroem sem palavras.
O autor interessa-se pela forma como as pessoas se relacionam entre si e consigo próprias. Pelas dúvidas, hesitações e momentos de clareza. Pelo corpo em movimento, seja a nadar, a dançar ou a lutar, como expressão de estados interiores. Há sempre uma componente visual muito forte, com sequências inteiras resolvidas apenas através do desenho.
Ainda não foram divulgados detalhes sobre as sessões previstas com o autor na Comic Con Portugal 2026, se haverá conversas, sessões de autógrafos ou masterclasses. A organização do evento prometeu revelar mais informações sobre a programação e datas em breve.









