
Demon Slayer: Kimetsu no Yaiba – Infinity Castle tornou-se um fenómeno global desde a estreia em julho de 2025 no Japão, arrecadando 779,5 milhões de dólares nas bilheteiras mundiais e estabelecendo-se como o filme internacional de maior receita de sempre nos Estados Unidos. Mas por detrás deste sucesso estrondoso está uma história fascinante sobre como o estúdio Ufotable enfrentou um dos maiores desafios narrativos da história do anime.
Hikaru Kondo, cofundador do estúdio Ufotable e argumentista principal de Demon Slayer: Kimetsu no Yaiba – Infinity Castle, enfrentou um problema aparentemente intransponível, como transformar múltiplas batalhas simultâneas num filme coerente e emocionante? A resposta veio de um lugar inesperado, dos bastidores de um dos filmes mais reverenciados do cinema japonês.
Em entrevista ao Polygon, Kondo explicou o dilema: “Temos a Shinobu, temos o Zenitsu, e depois temos o Giyu e o Tanjiro, todos a ter as suas próprias batalhas em três lugares separados, três localizações, três batalhas diferentes. Consegues nomear algum filme que tenha assumido esse nível de complexidade e conseguido, e que ainda assim fosse interessante?”.
O arco Infinity Castle do mangá de Koyoharu Gotouge, publicado entre 2016 e 2020, apresenta precisamente essa estrutura, o protagonista Tanjiro Kamado e vários membros do Corpo de Exterminadores de Demónios são atraídos para o labiríntico castelo do Rei Demónio Muzan Kibutsuji, onde se veem separados e forçados a enfrentar confrontos individuais contra os demónios de Rank Superior.
A própria estrutura do material original criava um risco narrativo significativo. Como evitar que o filme se transformasse numa série desarticulada de sequências de luta, sem uma narrativa verdadeiramente coesa?

A lição de Akira Kurosawa
A resposta surgiu quando Kondo se recordou da história por detrás de Os Sete Samurais (1954), o clássico épico de Akira Kurosawa. “Eles fizeram Rashomon juntamente com Ikiru e Os Sete Samurais”, explicou Kondo. “Antes de Os Sete Samurais ser um filme, Hashimoto e Kurosawa estavam a tentar fazer um filme sobre oito guerreiros samurais diferentes nas suas próprias jornadas, e fizeram tudo até escrever o guião inteiro”.
O argumentista Shinobu Hashimoto mencionou na sua biografia que, ao olharem para o guião completo, ele e Kurosawa concluíram: “Sabem, isto não é um filme. Não temos um filme aqui, são apenas sequências de ação”. O projeto foi arquivado. O que surgiu desse abandono foi Os Sete Samurais.
A ideia original de Kurosawa era fazer um filme sobre um dia na vida de um samurai, desde os rituais matinais até um erro fatal que o forçaria a cometer seppuku para preservar a honra. Após extensa pesquisa, abandonou a ideia por sentir que não tinha detalhe histórico concreto suficiente. Kurosawa propôs então uma abordagem diferente, um filme construído em torno de cinco batalhas de samurais inspiradas em espadachins da vida real. Hashimoto começou a escrever essa versão, mas Kurosawa acabou por descartá-la também, preocupado que um filme composto por pouco mais do que “uma série de clímax” pareceria vazio.
A revelação veio quando o produtor Sōjirō Motoki descobriu relatos históricos mostrando que, durante o período dos Estados Combatentes do Japão, os samurais às vezes guardavam aldeias camponesas durante a noite em troca de comida e abrigo. Aproximadamente na mesma altura, Kurosawa encontrou uma história sobre uma aldeia a contratar samurais para proteção. Essa ideia tornou-se a fundação do filme.

A aplicação prática em Infinity Castle
“E quando estava a desenvolver Infinity Castle, a passar pelo guião, a tentar desenhar os storyboards, lembrei-me dessa pequena história, e vi exatamente do que eles estavam a falar”, revelou Kondo. “Por isso estou extremamente, extremamente aliviado ao olhar para a receção mundial e como os fãs reagiram ao filme”.
Em declarações à Reuters, Kondo admitiu ter estado “fechado em casa durante três semanas a tentar descobrir como entrelaçar o fluxo geral da ação e drama do filme” para “surpreender” o público. Tal como Kurosawa antes dele, deparou-se com um problema de ritmo: o filme ficou demasiado longo.
“Quando perdes o ritmo, o público desliga-se da tua jornada, e imediatamente acho que vão simplesmente desinteressar-se e desligar”, afirmou sobre a importância de reduzir o filme para um tempo de execução de 2 horas e 35 minutos.
O resultado foi um filme que Kondo acredita ser único na sua estrutura. “Estava a tentar encontrar exemplos ou outros filmes que fossem semelhantes, que tivessem um tipo de composição ou formato semelhante ao nosso, e não consegui. Portanto, este poderá ser talvez um dos primeiros filmes que existe com este tipo de estrutura e narrativa. É combate após combate após combate”.
A produção do primeiro filme da trilogia levou três anos e meio, tendo começado no início de 2022 enquanto o arco Entertainment District ainda estava a ser transmitido. O staff do estúdio Ufotable, que trabalham juntos há mais de 20 anos, conseguiu criar aquilo que muitos consideram um novo padrão para o cinema de anime.









