
Um inquérito recente no Japão revelou que 70% das mulheres casadas afirmam arrepender-se de ter casado com os seus maridos. Os números, divulgados pela empresa Presia, surgem num momento em que o país enfrenta uma queda histórica nas taxas de casamento, com menos de 500.000 casamentos registados em 2023 pela primeira vez em 90 anos.
O estudo inquiriu 287 mulheres japonesas casadas, com idades entre os 20 e os 59 anos, sobre os seus sentimentos em relação aos cônjuges. Mais de metade das participantes, 54%, foram ainda mais longe: disseram que se pudessem voltar atrás no tempo, não voltariam a casar com os seus atuais maridos.
Quando questionadas sobre os motivos específicos do arrependimento, questões económicas dominaram as respostas. Cerca de 22,6% das mulheres afirmaram arrepender-se de terem feito compromissos relativamente ao rendimento desejado para o marido, enquanto 14,6% lamentaram não ter tido padrões mais rigorosos quanto à sensibilidade financeira do companheiro. A falta de vontade em fazer tarefas domésticas, ou simplesmente não as fazer bem, ocupou o terceiro lugar na lista de arrependimentos, escolhida por 11,1% das inquiridas.
Por outro lado, quando perguntadas sobre o que não lamentavam ter deixado passar, a aparência física do marido foi a resposta mais comum, selecionada por 36,6% das mulheres. A mensagem parece clara: o aspeto visual é menos importante do que a estabilidade financeira.
No entanto, há um pormenor crítico que pode alterar completamente a interpretação destes dados. A Presia, empresa responsável pelo inquérito, não é um instituto de pesquisa neutro. Trata-se de um serviço de matchmaking online, um portal destinado a pessoas que procuram casar num futuro próximo, com artigos de aconselhamento e introduções a agências matrimoniais.
A empresa não divulgou como foram selecionadas as participantes no estudo. Se o grupo de inquiridas foi recolhido entre visitantes do website da Presia ou seguidoras das suas redes sociais, isso distorceria significativamente os números na direção de “arrependo-me de ter casado com o meu marido”. Mulheres satisfeitas com os seus cônjuges têm menos probabilidade de frequentar espaços online focados em encontrar novos parceiros românticos.
Este viés de seleção é crucial para contextualizar os resultados. Estudos académicos sobre o casamento no Japão apresentam uma imagem mais matizada. Pesquisas publicadas no PMC mostram que embora a maioria dos homens e mulheres solteiros japoneses queiram casar, menos de metade acaba efetivamente por fazê-lo. Entre aqueles que permanecem solteiros, cerca de dois terços podem ser classificados como “à deriva” para a vida de solteiro, cerca de 30% como falhando em realizar os desejos de casamento, e não mais de 5% como rejeitando ativamente o matrimónio.
O contexto mais amplo do declínio do casamento no Japão é complexo. A taxa de natalidade do país caiu para 1,15 em 2024, o nível mais baixo desde o final da década de 1940. Como quase todas as crianças no Japão nascem de casais formalmente casados, a diminuição das taxas de casamento está intrinsecamente ligada às preocupações com a taxa de natalidade.
Vários fatores contribuem para esta tendência. A instabilidade no emprego masculino tem sido identificada como um contribuinte significativo para as taxas decrescentes de casamento. Fatores relacionados com o emprego explicaram 31% do aumento na proporção de homens japoneses que nunca casaram até aos 30 anos na coorte mais jovem, em comparação com a coorte mais velha.
Para as mulheres, o dilema é diferente mas igualmente desafiante. Com o aumento da educação feminina e das oportunidades de carreira, os padrões para os maridos também subiram. Estudos mostram que 80% das mulheres universitárias japonesas casam com homens igualmente licenciados. Com a taxa de matrícula universitária feminina a atingir 52% em 2021, comparada com 58% para homens, há uma escassez significativa de homens licenciados como potenciais parceiros de casamento para mulheres licenciadas.
Múltiplos estudos também revelam que as mulheres casadas no Japão fazem a maioria das tarefas domésticas, com os parceiros masculinos a fazer cerca de um quinto do que elas fazem. Este desequilíbrio persiste mesmo quando ambos os cônjuges trabalham a tempo inteiro, criando aquilo que muitos especialistas descrevem como uma “dupla jornada” para as mulheres.
A percepção de que o Japão perdeu interesse pelo romance tornou-se quase um estereótipo. Menos pessoas estão a casar, aquelas que o fazem estão a casar mais tarde, e os jovens adultos namoram menos. Um inquérito da Nippon Foundation revelou que 46% dos solteiros têm intenção de casar, mas apenas 27% acreditam que realmente o farão. Entre os inquiridos com idades entre 36 e 45 anos, mais de 50% responderam que não pensam casar.
O primeiro-ministro Ishiba Shigeru abordou recentemente esta questão numa reunião do comité orçamental, atribuindo o problema a uma “queda impressionante” nas oportunidades que homens e mulheres têm para se conhecer e casar. Ele mencionou especificamente o declínio da tradição omiai, na qual os casais são formalmente apresentados uns aos outros por casamenteiros profissionais. Em 2023, mais empresas de matchmaking faliram do que nunca, à medida que as aplicações de namoro ganham terreno.
Voltando ao inquérito da Presia, talvez a parte mais reveladora dos resultados não seja necessariamente quantas participantes se arrependem de casar com o marido, mas sim que entre aquelas que de facto lamentam a escolha do cônjuge, as questões monetárias são o que realmente as faz sentir que tomaram a decisão errada. Mesmo isso, porém, não significa necessariamente que as esposas japonesas só se preocupam com as contas bancárias dos maridos, e não com os seus corações.
Pode simplesmente significar que para aquelas que acabaram num casamento infeliz por uma variedade de razões, nem sequer ter a graça salvadora de finanças confortáveis é uma queixa concreta que fica na memória. Para mulheres que enfrentam parceiros desonestos, violentos ou simplesmente mal-humorados, a tendência seria apontar primeiro esses problemas antes de mencionar o salário.
A questão económica pode ser menos sobre materialismo e mais sobre segurança e autonomia. Num país onde as oportunidades de carreira para mulheres casadas ainda enfrentam obstáculos significativos, e onde o equilíbrio trabalho-família continua a ser um desafio estrutural não resolvido, a estabilidade financeira do marido pode representar não luxo, mas necessidade básica.
Os meios de comunicação japoneses frequentemente perguntam às jovens mulheres quanto deveria ganhar um potencial marido, como se isto fosse completamente normal e como se as jovens mulheres devessem estabelecer um preço para si próprias. Esta normalização da discussão sobre rendimentos como critério matrimonial pode refletir não tanto o materialismo feminino, mas sim as realidades económicas rígidas que as mulheres enfrentam ao considerar o casamento num sistema que ainda não resolveu adequadamente a questão da igualdade de género no local de trabalho e em casa.
O relatório Global Gender Gap de 2025 do Fórum Económico Mundial classificou o Japão como o país com pior desempenho entre os G7 e na 118.ª posição entre 148 países inquiridos. Esta disparidade de género persistente pode explicar porque é que tantas mulheres veem a estabilidade financeira do parceiro como um fator crítico, não por ganância, mas por necessidade prática numa sociedade que ainda não oferece às mulheres as mesmas oportunidades económicas que aos homens.









