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    Japão usa drones com spray de pimenta para afastar ursos

    Depois de um ano recorde de ataques fatais, o país recorre à tecnologia para afastar os animais das zonas habitadas

    drone ursos japão screenshot

    O Japão está a recorrer a tecnologia não tripulada na sua crescente batalha contra ursos, após um ano que registou números históricos de ataques fatais. A cidade de Ishinomaki, na prefeitura de Miyagi, tornou-se a primeira a encomendar drones equipados com repelente de ursos, numa tentativa de lidar com uma crise que já provocou 13 mortos e mais de 217 feridos entre abril e novembro de 2025, segundo dados do Ministério do Ambiente japonês.

    A empresa Terra Drone anunciou esta semana que vai fornecer à cidade aquilo a que chama “drones equipados com spray repelente de ursos”, capazes de afastar os animais remotamente e sem intervenção humana. Os aparelhos podem ser controlados a distâncias até um quilómetro e conseguem pulverizar os ursos com uma precisão de 10 centímetros, a uma distância entre cinco e 10 metros do animal.

    A demonstração oficial do sistema tornou-se viral nas redes sociais: no vídeo, um homem vestido com um fato completo de urso, de quatro, foi alvo do spray libertado pelo drone. O sistema usa capsaicina, o componente químico das malaguetas que provoca ardor intenso. Segundo a Terra Drone, este método é particularmente eficaz porque “o olfato dos ursos é milhares de vezes mais forte que o dos humanos”, dando-lhes tempo para evacuar temporariamente a área.

    O projeto-piloto começará com um drone na primavera de 2026, com um custo total estimado de alguns milhões de ienes. A operação ficará a cargo de uma empresa privada selecionada pelo governo municipal para prevenir danos causados por ursos.

    Esta solução surge depois de 2025 ter batido todos os recordes de encontros violentos entre humanos e ursos no Japão. Os números do Ministério do Ambiente revelam que os avistamentos de ursos aumentaram 163% entre 2021 e 2025, com mais de 20.792 casos registados em todo o país apenas no último ano. Mesmo Tóquio registou 142 avistamentos entre abril e outubro.

    A região de Tohoku, no norte do país, concentra cerca de dois terços das vítimas. Em outubro, mês mais mortífero do ano, foram registados 88 ataques que resultaram em sete mortes. A prefeitura de Akita foi particularmente afetada, com mais de 50 pessoas atacadas desde maio, incluindo quatro mortes.

    As autoridades japonesas já tinham recorrido a medidas pouco convencionais antes dos drones. Em dezembro de 2024, as Forças de Autodefesa do Japão foram mobilizadas para ajudar a instalar armadilhas e transportar carcaças de ursos abatidos por caçadores. Outras iniciativas incluíram drones que reproduzem latidos de cães e fogos de artifício, sistemas de vigilância equipados com inteligência artificial para prever encontros com ursos, e até a distribuição de garrafas de plástico para as crianças fazerem barulho no caminho para a escola.

    O problema é resultado de uma combinação de fatores. A população de ursos no Japão cresceu de 15.000 indivíduos em 2012 para cerca de 54.000 em 2025, graças a medidas de proteção ambiental introduzidas nos anos 90. Ao mesmo tempo, a colheita de bolotas e nozes de faia, alimentos essenciais para os ursos, foi particularmente fraca este ano, forçando os animais a procurar comida em zonas habitadas.

    A crise demográfica do Japão agrava a situação. O número de caçadores licenciados caiu de mais de 517.800 em 1975 para apenas 218.500 em 2020, sendo que cerca de 60% têm mais de 60 anos. Nas áreas rurais, onde a população jovem migrou para as cidades, terrenos agrícolas abandonados e árvores de fruto deixadas ao abandono tornaram-se iscas para ursos famintos.

    “Os governos locais e as associações de caçadores, que trabalham juntos em equipas de controlo de vida selvagem, estão agora severamente exaustos”, admitiu o Ministro da Defesa Shinjiro Koizumi numa conferência de imprensa em outubro.

    O Ministério do Ambiente destinou 3,4 mil milhões de ienes (cerca de 22 milhões de dólares) para “contramedidas contra ursos” no orçamento suplementar deste ano, incluindo subsídios para armadilhas, drones de monitorização e mobilização de polícias e militares reformados como caçadores armados.

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    Enquanto aguardam pelos drones, os residentes de Akita desenvolveram os seus próprios métodos de defesa. Alguns abanam ruidosamente as maçanetas das portas antes de sair de casa, com medo de encontrar um urso. “Esse é o nível de ansiedade em que os residentes vivem todos os dias”, descreveu o ministro da defesa.

    A embaixada dos Estados Unidos no Japão chegou mesmo a emitir um alerta raro sobre vida selvagem para americanos que vivem ou viajam no país. Fabricantes japoneses de armas de caça e produtos repelentes de ursos viram as suas ações disparar nos últimos meses, a Tiemco, produtora de spray anti-urso, subiu 33% desde agosto, enquanto a fabricante de armas Miroku registou um aumento de 16%.

    Embora o uso de drones ainda esteja em fase experimental, as autoridades veem a tecnologia como uma solução de longo prazo para um país que enfrenta uma população envelhecida, uma escassez de caçadores licenciados e padrões de comportamento animal cada vez mais imprevisíveis.

    Helder Archer
    Helder Archer
    Fundou o OtakuPT em 2007 e desde então já escreveu mais de 60 mil artigos sobre anime, mangá e videojogos.

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