
Jim Lee, presidente, diretor criativo e editor da DC Comics, abordou uma questão delicada mas inevitável numa entrevista à revista Nikkei XTrend: porque é que o mangá e o anime continuam a conquistar terreno face às bandas desenhadas ocidentais? A resposta, segundo o próprio Lee, está tanto na natureza das histórias contadas como no desejo das gerações mais jovens de descobrir algo genuinamente próprio, em vez de simplesmente herdar tendências estabelecidas.
Lee começou por reconhecer o óbvio, as histórias contadas no mangá e no anime têm um poder narrativo que as bandas desenhadas americanas parecem incapazes de replicar. A questão que o atormenta é direta: “O que está a faltar nas bandas desenhadas ocidentais, e porque é que não conseguem atingir o mesmo sabor?”. Para o presidente da DC, a resposta passa por uma vantagem estrutural do mangá sobre o mercado americano, demasiado concentrado em super-heróis.
“Na América, [as bandas desenhadas] são maioritariamente sobre super-heróis, e é aí que está concentrada a maior parte das vendas e dos leitores”, explicou Jim Lee. “No Japão, está mais próximo da literatura, e qualquer pessoa pode ler. Não são apenas histórias de heróis. Há uma gama de géneros muito mais ampla, como histórias sobre culinária e futebol. Podes desenhar histórias a partir disso. Por isso, estou muito feliz por o mangá ter tido tanto sucesso, porque me dá um objetivo a alcançar. O mercado do mangá é maior do que a nossa indústria, então a pergunta torna-se: ‘O que podemos aprender com isto?'”.
Esta observação não é apenas uma questão de estilo artístico. Lee foi claro ao afirmar que a vantagem do mangá reside na sensibilidade das histórias japonesas, não nos traços de desenho. E acrescentou uma dimensão cultural crucial: “No Ocidente, as bandas desenhadas e a animação têm sido consideradas meios de comunicação infantis. À medida que as pessoas crescem, passam para live-action. Mas no Japão, isso não acontece. Não só há uma ampla gama de géneros, como os adultos também leem mangá e veem anime. Como cultura, é uma arte que não está limitada a uma faixa etária específica”.
A análise de Lee sobre o que atrai os jovens ao mangá passa também por ciclos de popularidade. Ele referiu o enorme boom do mangá na década de 1990 na América do Norte, seguido de um declínio acentuado entre meados e finais dos anos 2000. Esse período de queda foi provocado por uma tempestade perfeita: saturação do mercado, declínio na qualidade, pirataria online desenfreada e a crise financeira de 2008. O fecho massivo de livrarias Borders, que tinha sido um pilar fundamental da distribuição de mangá, deu o golpe final.
Esta visão de Lee não surge isolada. Hideaki Anno, o lendário realizador de Neon Genesis Evangelion, declarou recentemente à Forbes Japan que os criadores japoneses não devem adaptar-se aos gostos ocidentais. Pelo contrário, Anno defende que é o público estrangeiro que deve ajustar-se à sensibilidade japonesa: “O filme tem elementos visuais e musicais, por isso acho que há menos barreiras linguísticas em comparação com outros campos, mas o diálogo ainda está em japonês, e é um drama sobre pessoas que são impulsionadas por emoções baseadas em pensamentos japoneses, por isso, se houver pessoas que possam compreender isso, acho que seria bem recebido no estrangeiro, mas não podemos adaptar-nos do nosso lado. Peço desculpa, mas é ao público que peço que se adapte”.
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Esta posição cria um contraste fascinante com a abordagem de Hollywood, onde o apelo global é frequentemente construído desde o início do processo criativo. Anno argumenta que a autenticidade cultural é justamente o que torna o conteúdo japonês atraente, não algo a ser diluído para agradar mercados internacionais.
Para a DC Comics e a indústria ocidental de bandas desenhadas, a questão continua a ser o que fazer com este reconhecimento. Lee admite abertamente que o mercado japonês é maior e mais diversificado. No entanto, as bandas desenhadas americanas continuam profundamente enraizadas no género de super-heróis, que domina as vendas e a atenção criativa. Títulos como Batman, Superman e Wonder Woman são gigantes culturais, mas representam também uma limitação: a concentração extrema num único tipo de narrativa.
Jim Lee terminou a entrevista num tom de humildade, vê o sucesso global do mangá não como uma ameaça, mas como uma oportunidade de aprendizagem. A questão agora é se a indústria ocidental está disposta a fazer as mudanças estruturais necessárias para competir num mercado onde os leitores exigem mais do que homens musculados em collants a dar murros uns nos outros.









