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    Anime vale milhares de milhões mas o que os criadores ganham vai chocar-te

    Relatório da Comissão de Comércio Justo do Japão expõe sistema de produção que deixa criadores de fora dos lucros enquanto investidores acumulam milhões

    Rin Kurusu screenshot Believer draw manga (3)

    O paradoxo é cruel. Enquanto a indústria anime vale mais de 21 mil milhões de dólares e bate recordes de receita ano após ano, os estúdios que produzem as séries enfrentam bancarrotas consecutivas e os animadores lutam para sobreviver com salários que mal ultrapassam os 650 euros mensais.

    A Comissão de Comércio Justo do Japão publicou em dezembro de 2025 um relatório devastador sobre práticas laborais na indústria do anime e cinema. O estudo, que decorreu ao longo de 2025, inquiriu 130 estúdios, 165 freelancers e conduziu entrevistas a 75 entidades, incluindo comités de produção e criadores individuais. As conclusões apontam para violações sistemáticas da lei de subcontratação japonesa.

    O vilão tem nome: comité de produção

    No centro da crise está um sistema criado nos anos 90 para mitigar riscos financeiros. Os comités de produção funcionam como consórcios onde várias empresas, editoras, canais de televisão, fabricantes de brinquedos, juntam dinheiro para financiar um projeto de anime. Em teoria, diversificam o risco. Na prática, criaram um monstro.

    O problema é simples: os estúdios recebem um orçamento fixo para cobrir custos de produção, mas ficam completamente de fora dos lucros gerados por merchandising, bilheteiras de cinema e plataformas de streaming. Mesmo quando uma série se torna num fenómeno global que gera milhões, o estúdio que a animou não vê um cêntimo extra.

    Segundo o relatório da comissão, 60% dos estúdios principais operam com prejuízo quando dependem apenas das taxas de produção. Os motivos são três: exigências de qualidade cada vez maiores (77,4% dos estúdios queixam-se de que as séries de televisão agora exigem “qualidade de cinema”), prazos que se estendem sem compensação adicional (74,2%) e aumento de custos de materiais e equipamento.

    Os números da miséria

    A realidade dos animadores é desoladora. De acordo com um inquérito da Japan Animation Creators Association de 2019, os trabalhadores da indústria com idades entre os 20 e os 24 anos ganhavam em média 1,55 milhões de ienes por ano, cerca de 11.500 euros anuais, ou menos de 1.000 euros por mês.

    Para os animadores principiantes, os valores são ainda mais dramáticos. Um estudo de 2015 revelou que o salário mensal médio de um animador na casa dos 20 anos ronda os 90.000 ienes, aproximadamente 650 euros. Não é raro que animadores do primeiro ano ganhem menos de 30.000 ienes mensais, cerca de 215 euros.

    A explicação está no sistema de pagamento. A maioria dos animadores trabalha por peça, recebendo entre 200 a 5.000 ienes (1,40 a 35 euros) por corte de animação desenhado. Um principiante que consiga produzir 300 frames num mês, uma meta extremamente difícil, ganhará apenas 60.000 ienes (430 euros).

    As jornadas de trabalho ultrapassam regularmente as 60 horas semanais. Muitos animadores jovens são forçados a viver em Tóquio, onde se concentram os estúdios, mas com rendas caríssimas e salários miseráveis, alguns acabam por abandonar a profissão nos primeiros anos.

    Quando o sucesso não chega aos criadores

    O sistema de comités não permite que os estúdios participem nos lucros de propriedade intelectual. Enquanto autores de livros recebem royalties pelas vendas, no anime essa lógica não existe. Os investidores do comité ficam com a maior parte das receitas de bilheteiras, streaming e merchandising.

    Um exemplo prático, se um fabricante de vídeo doméstico investe 10 milhões de ienes num anime, pode receber apenas 8 milhões de volta do comité de produção. Mas se os DVDs venderem bem, esse mesmo investidor pode lucrar 15 milhões de ienes. O estúdio de animação, por outro lado, não vê um único iene extra dessas vendas.

    Toshio Okada, cofundador da Gainax, explicou num vídeo que os comités limitam propositadamente os orçamentos de produção através de uma cultura de conluio corporativo. A empresa que lidera o investimento, normalmente com 40% do financiamento, tem o poder de determinar quanto todas as outras podem gastar, criando um teto artificial para os custos de produção.

    O relatório da Comissão de Comércio Justo identificou várias violações da Lei de Subcontratação. Em 45,3% dos casos, os estúdios principais não receberam contratos escritos até depois de terem iniciado a produção. Alguns casos só viram o contrato aparecer depois do trabalho estar completamente terminado. Apenas 15,1% receberam contratos por escrito com valores e detalhes no momento de aceitar o projeto.

    Para os subcontratados e freelancers, a situação é ainda pior. Mais de 57% reportaram atrasos nos pagamentos, muitas vezes porque os estúdios principais estavam à espera de receber dinheiro do comité de produção. Cerca de 3,1% sofreram reduções unilaterais de honorários depois do trabalho já estar concluído.

    A comissão alertou que 67,2% dos subcontratados manifestaram insatisfação com os níveis salariais atuais e 34,4% operavam com prejuízo apenas nas taxas de produção. A capacidade de negociar melhores termos é praticamente nula: 57,8% dos estúdios subcontratados sentem que os seus honorários são determinados inteiramente pelo limite orçamental do cliente.

    Há uma saída?

    Alguns defendem que a salvação pode vir das parcerias diretas com gigantes do streaming internacional como Netflix e Amazon Prime Video, que oferecem orçamentos maiores e permitem aos estúdios negociar melhores termos, saltando os comités locais. Estúdios como MAPPA tentaram financiar produções por conta própria, como no caso de Chainsaw Man, mas mesmo assim enfrentaram controvérsias relacionadas com condições de trabalho brutais durante a produção de Jujutsu Kaisen.

    O governo japonês anunciou medidas em fevereiro de 2025 após um relatório da ONU em 2024 que criticou a exploração na indústria. A Comissão de Comércio Justo indicou estar preparada para criar diretrizes formais que regulem como os comités, estúdios e plataformas de streaming negoceiam e partilham informação.

    Entretanto, as bancarrotas de estúdios aumentaram pelo terceiro ano consecutivo. Um estudo de outubro de 2025 alertou que a qualidade do anime pode cair se estes problemas não forem resolvidos. O êxodo de talentos ameaça a sustentabilidade do meio a longo prazo.

    Segundo dados da Association of Japanese Animations, em 2023 a indústria atingiu um valor de mercado recorde de 3,3465 biliões de ienes (cerca de 24 mil milhões de dólares). No entanto, os estúdios de produção, responsáveis pela criação do anime, receberam apenas 427,2 mil milhões de ienes, ou seja, 13% do valor total do mercado. Os restantes 87% foram para comités de produção, distribuidores e outras empresas.

    É o “boom sem benefícios” de que falam os criadores: a indústria prospera, mas quem faz o trabalho continua na miséria.

    Helder Archer
    Helder Archer
    Fundou o OtakuPT em 2007 e desde então já escreveu mais de 60 mil artigos sobre anime, mangá e videojogos.

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