
Dois streamers franceses foram detidos pelas autoridades e vão a julgamento como parte de uma investigação em curso sobre o tratamento de Raphaël Graven, conhecido como Jean Pormanove, que morreu em agosto de 2025 aos 46 anos durante uma transmissão em direto na plataforma Kick.
Segundo o Le Monde, Owen Cenazendotti, conhecido online como Naruto, e Safine Hamadi foram colocados sob custódia policial na terça-feira, 27 de janeiro. O procurador da República de Nice, Damien Martinelli, confirmou que os dois serão julgados pelo tribunal criminal de Nice a partir de 6 de julho de 2026.
As acusações incluem violência, incitamento ao ódio, abuso de pessoa vulnerável, e registo e difusão de imagens violentas. Os dois não estão a ser acusados pela morte de Jean Pormanove em si, mas sim pelo seu tratamento nos meses que antecederam o falecimento.
O canal jeanpormanove na plataforma Kick era seguido por cerca de 200 mil pessoas. Durante meses, as transmissões mostravam Raphaël Graven a ser insultado, agredido, com o cabelo puxado, ameaçado e atingido sem proteção com projéteis de paintball. Os procuradores abriram pela primeira vez uma investigação ao grupo em dezembro de 2024, meses antes da morte de Pormanove, após descobrirem filmagens que alegadamente o mostravam a ser maltratado durante transmissões em direto.
Pouco antes da sua morte, Pormanove escreveu uma mensagem à sua mãe que foi posteriormente revelada: “Olá mãe, como estás? Preso por um bocado no jogo da morte dele. Está a ir longe demais. Sinto-me como se estivesse sequestrado com o conceito de merda deles. Estou farto, quero sair daqui, o outro tipo não me deixa, está a manter-me preso”.
Num dos vídeos, Cenazendotti profere uma frase contundente: “Deixa-o dizer na câmara, agora mesmo, que se ele morrer amanhã a meio de um direto, é devido ao seu estado de saúde de merda e não por nossa causa”. Pormanove inicialmente recusou, mas Naruto insistiu: “Estamos a meio de um direto, ficas zangado, começas a gritar e tens uma paragem cardíaca? As pessoas vão culpar-nos quando é devido aos teus 46 anos de vida miserável”.
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Pormanove morreu a 18 de agosto de 2025, aos 46 anos, durante uma transmissão em direto de mais de 280 horas na Kick. Pouco antes da sua morte, alegadamente teve dificuldades respiratórias. Um doador alertou Cenazendotti, notando que Pormanove parecia estar numa situação crítica. Cenazendotti verificou a condição de Pormanove atirando-lhe uma garrafa de água e depois dando-lhe uma bofetada na cara.
Uma autópsia concluiu que a morte de Pormanove não foi diretamente causada pela intervenção de outra pessoa. Na altura, a mãe de Pormanove também defendeu publicamente os streamers durante o funeral do filho, chamando-lhes grandes pessoas que nunca o maltrataram. Cenazendotti e Hamadi negaram qualquer responsabilidade, mantendo que o conteúdo era consensual.
Na análise dos fluxos financeiros, os investigadores puderam determinar que Raphaël Graven recebeu cerca de 140 mil euros em quatro anos, provenientes de diferentes plataformas de streaming. O caso também reavivou o escrutínio de outros grupos ligados a Pormanove. Em dezembro, as autoridades começaram a investigar o seu antigo coletivo de streaming, Lokal, depois de este alegadamente ter ressurgido na Twitch sob o nome OGK Decoy.
As autoridades francesas tentaram anteriormente bloquear a Kick a nível nacional após a morte de Pormanove, citando preocupações de segurança pública. No entanto, um tribunal rejeitou o pedido a 19 de dezembro de 2025, considerando que tal proibição seria desproporcionada. Paralelamente, a procuradoria de Paris anunciou a abertura de uma informação judiciária visando a plataforma Kick, cinco meses após a morte. Este procedimento judicial está aberto nomeadamente por não assistência a pessoa em perigo, não impedimento de crime ou delito contra a integridade corporal e branqueamento de crime ou delito em bando organizado.
Clara Chappaz, ministra francesa dos Assuntos Digitais e IA, condenou as transmissões como humilhação e maus-tratos. A Kick e os seus executivos enfrentam investigações criminais separadas em Paris e Nice, podendo potencialmente levar a até sete anos de prisão.








