O terror em anime tem algo que o cinema convencional não consegue replicar. Não há limitações de orçamento para próteses ou efeitos práticos, se consegues imaginar, podes animar e estes são 7 animes de horror que vão deixar-te acordado!
7Higurashi: When They Cry
À primeira vista, Hinamizawa é daquelas vilas japonesas de sonho: tranquila, isolada, cheia de campos verdes e gente simpática. O grupo principal de amigos passa os dias a brincar, a conversar e a participar em festivais locais. Tudo parece inocente. Mas essa inocência é uma mentira, e Higurashi: When They Cry não demora muito a mostrar o que está mesmo por baixo.
O design das personagens é propositadamente enganador. São todas fofas, com olhos grandes e expressões infantis, o tipo de estética que associarias a uma comédia ligeira ou a um slice-of-life relaxante. Mas quando a violência começa, o contraste torna tudo ainda mais perturbador. Ver essas mesmas personagens a serem mutiladas, torturadas ou a cometerem actos brutais cria um efeito psicológico que não aconteceria se o anime tivesse um visual mais sombrio desde o início.
Higurashi usa uma estrutura narrativa pouco comum, cada arco conta uma versão diferente dos mesmos eventos, com a timeline a reiniciar após cada ciclo violento. Isto permite ao anime explorar cenários extremos sem medo de consequências permanentes, pelo menos nas primeiras voltas. O espectador nunca sabe o que esperar de um episódio para o outro, porque as personagens que sobrevivem num arco podem ser as primeiras a morrer no seguinte.
Mas o verdadeiro terror não vem da violência gráfica, embora ela seja abundante. Vem da forma como as personagens descem à loucura. A paranoia instala-se, as amizades desintegram-se, e comportamentos aparentemente normais revelam-se sinais de algo muito mais sinistro. O mistério da maldição de Hinamizawa mantém tudo envolvente até ao fim, e quando as respostas finalmente chegam, fazem sentido de uma forma que é simultaneamente satisfatória e aterradora.
6Perfect Blue
Perfect Blue estreou em 1997, mas continua a ser uma das obras mais perturbadoras do género. Satoshi Kon dirigiu um filme sobre uma idol de J-Pop chamada Mima que abandona o grupo para seguir carreira como atriz. Parece uma decisão profissional normal, mas desencadeia uma espiral de eventos que a levam ao limite da sanidade.
Mima começa a ser perseguida por um stalker obcecado. Ao mesmo tempo, começa a ter dificuldades em distinguir o que é real do que está apenas na sua cabeça. A narrativa é propositadamente confusa, Kon mistura alucinações, sonhos e realidade de forma que o espectador sente a mesma desorientação que a protagonista. Há cenas que parecem acontecer de facto, mas depois revelam-se memórias ou delírios. Outras que parecem sonhos acabam por ser reais. É impossível ter a certeza, e essa incerteza é onde mora o terror.
O filme foi incrivelmente profético. Em 1997, muito antes das redes sociais se tornarem omnipresentes, Kon já explorava o voyeurismo digital, a cultura de celebridade tóxica e os perigos do fandom obsessivo. Há uma cena em que Mima encontra um website dedicado a ela, escrito na primeira pessoa, onde alguém documenta os seus dias como se fosse ela própria. É uma violação da identidade que hoje reconhecemos imediatamente, mas que na altura era ficção científica.
O horror de Perfect Blue não vem de monstros ou fantasmas. Vem da desintegração completa do eu. Mima deixa de saber quem é, o que fez, o que é real. E quando o filme termina, mesmo que entendas o que aconteceu, a sensação de desconforto não desaparece.
5Hellsing Ultimate
Se preferes horror com muita ação e zero subtileza, Hellsing Ultimate é exatamente isso. A Organização Hellsing existe para combater ameaças sobrenaturais, e fá-lo com a ajuda de Alucard, um vampiro antigo que é praticamente um deus da guerra. Integra Hellsing lidera a organização com pulso de ferro, e o anime não tem qualquer problema em mostrar cada gota de sangue que é derramado.
Os combates são operáticos. Não há outra forma de os descrever. Alucard enfrenta inimigos sobrenaturais cada vez mais poderosos, vampiros nazis, ghouls, criaturas grotescas, e destrói-os de formas criativas e brutais. A animação é de topo, a banda sonora é épica, e o gore é completamente descarado. Membros voam, sangue jorra em torrentes, e tudo é filmado com um gosto quase teatral pela violência.
Mas por baixo de toda a carnificina há algo mais sombrio. Hellsing Ultimate não se limita a mostrar monstros a serem mortos, questiona o que torna alguém um monstro. Os vampiros são predadores, sim, mas os humanos que os combatem também cometem atrocidades. Quando o anime introduz uma brigada de vampiros nazis liderada por um fanático chamado Major, as linhas entre bem e mal começam a esbater-se completamente.
A série não tem medo de explorar o lado mais sádico das suas personagens. Alucard gosta de matar. Não é um herói relutante, é um predador que encontrou um propósito sancionado. Ver isso representado de forma tão explícita e sem desculpas é simultaneamente fascinante e perturbador. Hellsing Ultimate é espetacular, sim, mas também é profundamente desconfortável quando paramos para pensar no que está realmente a mostrar.
4Shiki
Shiki passa-se numa aldeia remota e isolada onde as coisas correm devagar. É o tipo de lugar onde toda a gente se conhece, onde não acontece nada de interessante. Até começarem as mortes. No início, parecem apenas coincidências trágicas, pessoas idosas, doenças súbitas. Mas à medida que os números aumentam, os habitantes da aldeia percebem que estão a ser caçados por vampiros.
O que torna Shiki diferente da maioria dos títulos de vampiros é que não trata os monstros como vilões unidimensionais. Os vampiros também eram humanos. Têm famílias, memórias, medos. Precisam de sangue para sobreviver, mas isso não significa que gostam de matar. Alguns até tentam resistir aos seus instintos, embora saibam que eventualmente vão sucumbir.
O anime constrói a tensão lentamente, investindo tempo a desenvolver as personagens antes de começar a eliminá-las. Conheces as suas vidas, os seus problemas, as suas relações. Quando a violência finalmente explode, é devastadora porque importas-te com quem morre e com quem mata. Há cenas em que os humanos tomam decisões horríveis em nome da sobrevivência, e o anime não os absolve por isso.
O clímax de Shiki é brutal. Não vou dar spoilers, mas é dos finais mais chocantes e inesquecíveis do género. O anime força-te a questionar quem são os verdadeiros monstros, e a resposta não é tão clara quanto gostaríamos que fosse. É horror de sobrevivência elevado a dilema moral, e funciona incrivelmente bem.
3Another
Another pega no conceito da turma amaldiçoada e leva-o completamente a sério. Kouichi Sakakibara é um aluno transferido que chega a uma nova escola e rapidamente percebe que algo está muito errado. A turma onde foi colocado tem uma história sombria ligada a mortes inexplicáveis, e parece que a maldição ainda está ativa.
O anime não perde tempo. Desde o primeiro episódio que a atmosfera é pesada, com presságios sinistros e uma sensação constante de que algo terrível está prestes a acontecer. E acontece. As mortes começam cedo e são grotescas, acidentes bizarros que parecem impossíveis mas que acontecem na mesma, muitas vezes em frente às câmaras.
O que torna Another tão eficaz é a forma como mantém a tensão ao longo dos 12 episódios. Nunca sabes quem vai morrer a seguir, nem como. As mortes variam entre o ridículo e o aterrorizante, há uma envolvendo um guarda-chuva que é simultaneamente absurda e horrível, mas todas partilham uma criatividade mórbida que as torna memoráveis.
O mistério da maldição mantém-te colado ao ecrã. Há pistas espalhadas ao longo da série, reviravoltas que mudam a forma como interpretas eventos anteriores, e um clímax que, embora às vezes caia no melodrama, entrega respostas satisfatórias. Another não reinventa o género, mas executa o conceito com competência suficiente para se tornar num dos títulos de referência do horror escolar em anime.
2Paranoia Agent
Paranoia Agent é outra obra de Satoshi Kon, desta vez uma série em vez de um filme. A premissa é simples: um agressor misterioso anda de patins por Tóquio e ataca pessoas aparentemente ao acaso. Chamam-lhe Lil’ Slugger por causa do taco de basebol dourado que usa. As vítimas não têm nada em comum à primeira vista, e a polícia não consegue encontrar um padrão.
Mas à medida que a série avança, fica claro que o verdadeiro horror não são os ataques físicos. É o colapso psicológico das vítimas antes de serem atacadas. Todas elas estão sob pressão extrema, pressão social, profissional, emocional. O ataque de Lil’ Slugger acaba por funcionar quase como um alívio, uma desculpa para parar de tentar manter as aparências.
Kon usa o surrealismo de forma brilhante. Há episódios que abandonam completamente a realidade, mergulhando nas mentes fragmentadas das personagens. Outros seguem a investigação policial de forma mais convencional, mas sempre com uma camada de estranheza que te mantém desconfortável. A atmosfera sombria e a banda sonora assustadora amplificam essa sensação.
O anime é também uma crítica social brutal. Kon usa Lil’ Slugger como metáfora para a forma como a sociedade japonesa lida com o stress e a pressão de conformidade. As vítimas representam diferentes estratos sociais, diferentes formas de fracasso, diferentes tipos de desespero. É cerebral, perturbador, e funciona tanto como thriller psicológico quanto como comentário sobre o estado da sociedade moderna.
1Devilman Crybaby
Devilman Crybaby, dirigido por Masaaki Yuasa para a Netflix, é um pesadelo febril do início ao fim. A história é simples: Akira Fudo é um rapaz tímido que se funde com um demónio para ganhar poder suficiente para proteger a humanidade. Parece uma premissa de shounen típica, mas não é. Nada aqui é típico.
O anime é brutal desde o primeiro episódio. A violência é gráfica e constante, mas não é gratuita, serve para mostrar o quão frágil é a linha entre humanidade e monstruosidade. Akira ganha poderes demoníacos, mas tenta manter a sua compaixão humana. Isso torna-o num alvo, porque num mundo que está a desmoronar-se, a bondade é vista como fraqueza.
A descida à loucura é progressiva e implacável. Akira tenta salvar pessoas, mas cada tentativa só piora as coisas. A sociedade entra em colapso. As pessoas começam a virar-se umas contra as outras. O anime não poupa ninguém, personagens que parecem importantes morrem de formas horríveis, e não há redenção no final. Não há vitória. Não há esperança.
Devilman Crybaby é existencialismo puro vestido de anime de ação. A mensagem é clara: não importa o quanto te esforces, o mundo está condenado, e tu com ele. É niilista, é deprimente, e é absolutamente implacável. Não é para todos, há cenas de sexo explícito, violência extrema, e um tom geral de desespero que pode ser difícil de digerir. Mas quem aguentar vai encontrar uma obra-prima de terror existencial que não deixa nada de pé no final.








