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    Cosplayer chinês de Death Note gera polémica após escrever nome da primeira-ministra do Japão

    Performance numa convenção em Chengdu mostra tensões sino-japonesas a invadir a cultura pop, num momento em que relações diplomáticas atingem mínimo histórico

    Um vídeo de um skit de cosplay numa convenção chinesa está a gerar controvérsia nas redes sociais depois de mostrar um cosplayer a escrever o nome da primeira-ministra do Japão, Sanae Takaichi, num Death Note, enquanto a audiência aplaudia.

    As imagens, partilhadas no Twitter, mostram três cosplayers caracterizados como Light, L e Misa do anime Death Note na Worldline Convention em Chengdu. No vídeo, um dos cosplayers escreve “Sanae Takaichi” no caderno, numa clara referência à mecânica central da série onde escrever o nome de alguém no Death Note resulta na sua morte.

    O tweet acumulou 1,1 milhões de visualizações em cerca de 24 horas, provocando reações mistas sobre se este tipo de performance cruza a linha entre apreciação cultural e hostilidade política.

    Death Note e o seu historial conturbado na China

    A escolha de Death Note para esta performance é particularmente irónica, dado o historial contencioso da série na China. Em 2005, autoridades escolares em Shenyang proibiram o mangá depois de estudantes terem começado a alterar cadernos escolares para se parecerem com Death Notes, escrevendo nomes de professores e colegas de quem não gostavam.

    A controvérsia escalou rapidamente. Em 2007, mais de 187 cadernos inspirados em Death Note foram confiscados em lojas de Shenzhen, e a proibição alastrou para Pequim, Xangai e outras cidades chinesas. Em 2015, o Ministério da Cultura da China listou oficialmente Death Note entre 38 títulos de anime e mangá banidos no país.

    As autoridades chinesas descreveram o caderno como “um veneno que cria corações perversos” e argumentaram que a proibição visava proteger a “saúde física e mental” dos estudantes de material de horror que “engana crianças inocentes e distorce a sua mente e espírito”.

    Contexto político amplifica a controvérsia

    A performance surge num momento particularmente tenso nas relações sino-japonesas. Takaichi, que se tornou a primeira mulher primeira-ministra do Japão em outubro de 2025, provocou uma crise diplomática com a China em novembro de 2025 ao afirmar no parlamento japonês que um ataque chinês a Taiwan poderia constituir uma “situação de ameaça à sobrevivência” do Japão.

    As suas declarações foram interpretadas como uma quebra com a tradicional ambiguidade japonesa sobre Taiwan, sugerindo que Tóquio poderia intervir militarmente se Pequim usasse força contra a ilha. A China respondeu com medidas económicas, incluindo suspensão de voos, restrições à importação de produtos do mar japoneses e aumento de patrulhas militares.

    O ministro dos Negócios Estrangeiros chinês Wang Yi declarou que Takaichi tinha “cruzado uma linha vermelha” com os seus comentários. Um diplomata chinês em Osaka chegou a publicar (e posteriormente apagou) uma mensagem nas redes sociais que sugeria violência contra Takaichi.

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    A questão da apropriação cultural

    O incidente levanta questões sobre os limites da apreciação cultural. Críticos da performance argumentam que, embora seja legítimo apreciar cultura pop japonesa, usá-la para simbolicamente “executar” uma líder democraticamente eleita demonstra falta de respeito pela cultura que está a ser celebrada.

    A sugestão, partilhada em várias reações online, é que a apreciação pelo entretenimento de um país e a hostilidade política em relação a esse mesmo país deveriam manter-se separadas, em vez de serem misturadas para criar momentos que agradam à audiência.

    Ironicamente, a China é um dos maiores mercados para anime e mangá, apesar das tensões políticas persistentes entre os dois países. Esta dicotomia, consumir avidamente cultura popular japonesa enquanto se mantém uma postura política antagónica em relação ao Japão, não é nova, mas raramente é tão explicitamente exibida como nesta performance de cosplay.

    Para Takaichi, o incidente é apenas mais um capítulo numa relação cada vez mais tensa com Pequim. A primeira-ministra japonesa acabou de garantir uma vitória eleitoral histórica no início de fevereiro de 2026, obtendo uma supermaioria de dois terços para o seu Partido Liberal Democrata, a maior vitória de qualquer partido japonês na era pós-guerra.

    Com este mandato renovado, é improvável que Takaichi recue na sua posição firme em relação à China, o que significa que episódios como este podem tornar-se mais comuns à medida que as tensões geopolíticas continuam a infiltrar-se em espaços culturais aparentemente apolíticos.

    Helder Archer
    Helder Archer
    Fundou o OtakuPT em 2007 e desde então já escreveu mais de 60 mil artigos sobre anime, mangá e videojogos.

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