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    A guerra cultural chegou às reviews do Steam e que a Valve se recusa a arbitrar

    Developers acusam a plataforma de ignorar comentários de ódio, antissemitismo e campanhas organizadas de avaliações negativas. A Valve não respondeu

    O Steam é a maior loja de jogos para PC do mundo e, segundo vários programadores, tornou-se também num dos ambientes online mais hostis do mercado. Num longo artigo publicado a 16 de fevereiro pelo The Guardian, vários criadores de jogos descrevem uma plataforma onde campanhas coordenadas de reviews negativas, listas de curadores com viés ideológico e comentários que violam as próprias regras da Valve convivem com uma moderação que, na prática, pouco ou nada faz.

    O problema não é novo, mas ganhou uma dimensão difícil de ignorar. A criadora independente Nathalie Lawhead, responsável pelos jogos Tetrageddon e Blue Suburbia, deparou-se com reviews que não só eram ofensivas como faziam referência a alegações de abuso sexual que ela própria tinha tornado públicas em 2019, comentários com linguagem antissemítica incluídos. Segundo o The Guardian, Lawhead só conseguiu que esses comentários fossem removidos depois de contactar diretamente alguém que conhecia dentro da Valve, contornando por completo o processo oficial de moderação. Cinco anos depois, a situação não mudou: outro programador que tentou denunciar reviews transfóbicas recebeu exatamente a mesma resposta automática, a dizer que devia “continuar a trabalhar no produto” e deixar a comunidade usar as ferramentas de utilidade para filtrar as avaliações por conta própria.

    A curadora e criadora de conteúdo Bri “BlondePizza” Moore resume o ambiente da plataforma de forma direta: “Toda a gente está sempre uns contra os outros nas reviews, nas discussões, nos fóruns, em qualquer sítio onde seja possível encontrá-los no Steam. Isso garante que ninguém está seguro na plataforma: nem programadores nem consumidores”.

    Uma parte significativa das queixas aponta para listas de curadores criadas especificamente para classificar jogos como “woke” ou “não woke”, com destaque para a lista “NO WOKE”, que já incluiu títulos que nem sequer foram lançados, o caso mais citado é o do Fable, da Playground Games, que entrou na lista antes de ter uma data de estreia confirmada. Existe ainda um curador chamado “CharlieTweetsDetected” que monitoriza se os programadores reagiram ou não à morte do comentador político de direita Charlie Kirk, utilizando essa informação para organizar campanhas de reviews negativas contra os jogos desses criadores.

    O caso do Caravan SandWitch, desenvolvido pelo Plane Toast, é um dos mais citados no artigo do The Guardian. O jogo acumulou várias avaliações negativas com comentários como “demasiado LGBTQ… não há futuro nem continuação para estes gays e lésbicas tristes”. Émi Lefèvre, responsável por Caravan SandWitch, afirmou “a recusa da Valve em moderar qualquer uma destas situações está a transformar as reviews e os fóruns do Steam no campo de batalha de uma espécie de guerra cultural, tornando-os inseguros para pessoas marginalizadas e para jogadores comuns que simplesmente querem aproveitar o jogo que compraram”.

    A Valve não respondeu aos pedidos de comentário do The Guardian. A dimensão da empresa ajuda a explicar, pelo menos em parte, a inércia: de acordo com o mesmo artigo, a empresa tem menos de 400 funcionários a gerir uma plataforma com dezenas de milhões de utilizadores ativos, lidando com centenas de milhar de tickets de suporte por semana. O programa voluntário de moderação que existia foi encerrado em 2022, e desde então não foi apresentada nenhuma alternativa pública.

    A posição oficial da Valve, quando responde, não deixa muito espaço para interpretação: a plataforma afirmou a pelo menos um programador que não modera reviews com base na sua veracidade, porque fazê-lo poderia ser considerado censura. O argumento tem uma certa coerência interna, o Steam construiu parte da sua reputação exatamente numa política de mãos-livres que beneficiou criadores independentes, mas cria um paradoxo evidente: as próprias diretrizes comunitárias da plataforma proíbem “linguagem abusiva e insultos”, “discriminação” e “acusações públicas”. Segundo os programadores que falaram com o The Guardian, reviews com esse tipo de conteúdo são regularmente reportadas e igualmente regularmente aprovadas pela moderação.

    Para alguns criadores, a solução passou por virar o problema ao contrário. Christina Pollock, da Ambrosia Sky, transformou uma review depreciativa em material de marketing, usando a própria linguagem do comentário como argumento de venda. Mike Rose, da No More Robots, fez publicidade a reviews racistas do seu jogo Little Rocket Lab, entre elas, “Jogo woke. Também tem muçulmanos”, para chamar a atenção para o padrão de comportamento. São respostas que funcionam individualmente, mas que não resolvem nada a nível sistémico.

    O debate em torno desta questão está longe de ser simples. Uma parte da comunidade de jogadores considera que as reviews negativas baseadas em conteúdo político são uma forma legítima de os consumidores manifestarem as suas preferências, e que o Steam é precisamente o tipo de plataforma que deve preservar essa liberdade. Outros apontam que existe uma diferença clara entre criticar escolhas criativas e coordenar campanhas que não têm qualquer relação com a qualidade do jogo em si, ou que incluem linguagem de ódio que a própria plataforma diz não tolerar.

    O que o artigo do The Guardian torna evidente é que a Valve, independentemente de qual seja a sua posição real neste debate, optou até agora por não ter nenhuma posição pública. E essa ausência tem custos concretos, medidos em vendas, em visibilidade algorítmica e, para alguns programadores, em algo mais difícil de quantificar.

    Helder Archer
    Helder Archer
    Fundou o OtakuPT em 2007 e desde então já escreveu mais de 60 mil artigos sobre anime, mangá e videojogos.

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