
Podia ter começado com números, com uma visão grandiosa, com o historial de aquisições que herdou. Asha Sharma começou com uma confissão: “Sinto duas coisas em simultâneo: humildade e urgência”. Foi com estas palavras que a nova CEO da Microsoft Gaming se apresentou às equipas no memo interno que enviou na sexta-feira.
Sharma não tem historial nos videojogos. Antes de entrar na Microsoft em 2024 para liderar a divisão CoreAI, foi COO da Instacart e vice-presidente na Meta. É uma outsider, e o memo deixa claro que ela sabe isso. “Estou a entrar num trabalho moldado por gerações de artistas, engenheiros, designers, escritores, músicos, operadores e mais, que criam mundos que trouxeram alegria e um profundo significado pessoal a centenas de milhões de jogadores”. A frase não é apenas protocolar, é uma declaração de intenções sobre onde quer colocar o centro de gravidade da organização.
O memo está estruturado em três compromissos. O primeiro é o mais simples e ao mesmo tempo o mais exigente: grandes jogos. “Temos de ter grandes jogos adorados pelos jogadores antes de fazer qualquer outra coisa. Personagens inesquecíveis, histórias que nos fazem sentir, jogabilidade inovadora e excelência criativa”. Sharma foi direta ao explicar porque promoveu Matt Booty a chief content officer: “Ele compreende o ofício e os desafios de construir grandes jogos, liderou equipas que entregam trabalho premiado, e ganhou a confiança dos criadores de jogos em toda a indústria”.
O segundo compromisso é o que mais vai surpreender quem acompanhou a estratégia da Xbox nos últimos anos: o regresso à consola. A Microsoft vai recomprometer-se com os utilizadores de consola depois de anos a desenvolver produtos orientados para PC e mobile. No memo, Sharma escreveu: “Vamos celebrar as nossas raízes com um renovado compromisso com a Xbox, começando pela consola, que moldou quem somos”. Não abandona o cloud nem o PC, “o gaming vive agora em múltiplos dispositivos”, mas é explícita: a Xbox tem de “parecer contínua, instantânea e digna das comunidades que servimos”.
O terceiro compromisso é o que mais alimentou a conversa online, o futuro do jogo e, dentro dele, a questão da inteligência artificial. Sharma foi mais longe do que qualquer outro executivo de gaming tem sido publicamente: “À medida que a monetização e a IA evoluem e influenciam este futuro, não vamos perseguir eficiência de curto prazo nem inundar o nosso ecossistema com lixo de IA sem alma. Os jogos são e serão sempre arte, criados por humanos, e desenvolvidos com a tecnologia mais inovadora disponível”. O contexto pesa pois ela vem precisamente da divisão de IA da Microsoft, o que torna a frase simultaneamente mais inesperada e, para alguns, mais difícil de ignorar.
O memo termina com uma passagem que vai diretamente ao encontro do que a comunidade Xbox mais reclama nos últimos anos, a sensação de que a plataforma perdeu o fio que a tornava distinta: “Quero regressar ao espírito renegado que construiu a Xbox. Isso vai exigir que questionemos tudo sem tréguas, que revisitemos processos, protejamos o que funciona, e tenhamos coragem de mudar o que não funciona”.
Sharma foi ainda mais específica sobre o que procura nos jogos que quer ver sair da Microsoft, obras com “ressonância emocional profunda” e “um ponto de vista distinto”. Reconheceu o estado difícil da indústria e que a transformação em curso exige “proteger o que acreditamos enquanto nos mantemos abertos ao futuro”.









