Não são os animes mais sangrentos nem os mais dramáticos, mas quando acabam, o silêncio que se segue pesa mais do que qualquer explosão.
10Devilman Crybaby
A série adapta o mangá clássico de Go Nagai com uma energia visual frenética e uma violência que vai escalando de episódio para episódio até chegar a um ponto de não retorno. Mas o que distingue Devilman Crybaby de outros animes igualmente intensos é a forma como ancora tudo numa relação: a de Akira e Ryo. É essa ligação que dá sentido emocional a uma narrativa que, de outra forma, seria apenas caos e destruição.
O problema, ou melhor, o ponto, é que essa relação é também o que o final usa para acabar com tudo. Quando a verdade sobre Ryo se revela, não há volta a dar. O mundo já estava perdido, mas perceber que estava perdido desde o início, e que a única coisa que parecia real afinal não era, transforma o final de Devilman Crybaby numa experiência de um nível completamente diferente. O planeta em ruínas é quase secundário. O que fica é a sensação de que nada do que aconteceu importou, e ao mesmo tempo, que importou tudo.
9Texhnolyze
Texhnolyze não é um anime fácil de recomendar. É lento, denso, deliberadamente árido, e passa os seus primeiros episódios a testar a paciência de quem vê antes de revelar o que está realmente a fazer. Quem ficou sabe do que se fala. A cidade subterrânea de Lux é um dos ambientes mais opressivos de todo o anime, e as personagens que a habitam têm uma qualidade quase sonâmbula, existem, mas sem nenhuma convicção de que vale a pena existir.
É por isso que o final funciona tão bem, e é tão insuportável ao mesmo tempo. Não há clímax. Não há última batalha, nem discurso, nem momento de clareza. Há silêncio, há neve, há o fim de tudo a acontecer de forma tão quieta que apanha desprevenido mesmo quem achava que já estava preparado. Texhnolyze conclui que a humanidade pode simplesmente… acabar. Sem drama. Sem testemunhas. E essa ideia é mais perturbadora do que qualquer apocalipse com efeitos especiais.
8Neon Genesis Evangelion
Há uma razão pela qual o final da série anime de Evangelion continua a ser debatido décadas depois da estreia. Na altura, em 1996, foi recebido com confusão genuína por grande parte do público, a Gainax ficou sem orçamento durante a produção, e o que resultou daí foram dois episódios que abandonam completamente o mundo exterior e entram na cabeça de Shinji. Literalmente.
O que se vê não é um final convencional. É uma sessão de terapia não solicitada, desconfortável e sem respostas claras, onde as outras personagens se dissolvem em conceitos e a realidade deixa de ter contornos fixos. Shinji chega a algum sítio no final? Talvez. Depende de quem responde. O que não está em discussão é que rever estes dois episódios é exigente de uma forma que vai além do entretenimento, é confrontar, de novo, um personagem completamente partido a tentar perceber se quer ou não continuar. E isso não fica bem em nenhuma das vezes.
7Akame ga Kill
Akame ga Kill tem uma reputação bem estabelecida de matar personagens sem aviso e sem cerimónia. Desde cedo que o espectador aprende a não se apegar demasiado a ninguém, porque a série não tem qualquer problema em eliminar personagens queridas a meio de um arco sem lhes dar sequer uma morte digna. É uma escolha narrativa deliberada e prepara o terreno para um final que leva essa lógica até às últimas consequências.
A revolução vence. Isso é importante sublinhar, porque Akame ga Kill não termina em derrota. Termina em vitória, e essa vitória é vazia de uma forma que incomoda muito mais do que uma derrota clara. Quase toda a gente morreu. Os que ficaram estão marcados de formas que sugerem que a normalidade nunca vai voltar completamente. E o mundo que sobra depois de tudo isto é um mundo que custou demasiado para ser celebrado. É esse o verdadeiro golpe do final: ganhar e mesmo assim não ter nada.
6Grave of the Fireflies
Isao Takahata fez uma coisa estranha com Grave of the Fireflies: revelou o fim logo no início. Seita aparece já morto nos primeiros minutos, e a voz que narra a história é a de um fantasma a olhar para o passado. Sabe-se desde o início que não há saída. E mesmo assim, durante hora e meia, o filme consegue criar a ilusão de que talvez desta vez corra melhor…
Não vai. A deterioração de Setsuko, a incapacidade de Seita de pedir ajuda a tempo, a indiferença de um mundo em guerra a duas crianças que se tornaram invisíveis, tudo isto acontece com uma crueldade tranquila que não levanta a voz em momento algum. A imagem final, com os espíritos dos dois irmãos a olhar para uma cidade moderna e iluminada que existe precisamente porque eles e milhares como eles não existem, é uma das mais perturbadoras de toda a história do cinema de animação. Não por ser violenta. Por ser verdadeira.
5Berserk
A reputação do Eclipse de Berserk fala por si. Qualquer pessoa que conheça minimamente anime já ouviu falar naquele momento, mesmo antes de ver a série. O problema, e também o mérito, é que mesmo sabendo que algo de terrível está para acontecer, não há forma de estar verdadeiramente preparado para a escala do que se passa.
A série de 1997 passa os seus episódios a construir uma das dinâmicas de grupo mais convincentes do anime: Guts, Griffith, Casca e o Bando do Falcão funcionam como uma família improvável, e a lealdade entre eles parece inabalável. É exactamente essa solidez que torna a traição de Griffith tão catastrófica. Não é apenas uma traição entre personagens, é a destruição de tudo o que o espectador passou meses a investir. E a série termina ali, sem resolução, sem o mínimo de catarse, com o espectador completamente abandonado dentro do desastre. Mais de vinte anos depois, continua a ser um dos finais mais brutalmente eficazes de toda a história do anime.
4School-Live!
School-Live! joga com o espectador desde o primeiro minuto. A premissa parece ser a de um slice-of-life descontraído sobre um clube escolar, cores vibrantes, personagens fofas, humor ligeiro. É uma ilusão construída com muito cuidado, e mantida durante tempo suficiente para criar uma falsa sensação de segurança que o final vai usar contra quem estiver a ver.
Quando a série decide mostrar as coisas como realmente são, fá-lo de forma gradual e depois de uma vez só, e o contraste entre o que o espectador julgava estar a ver e o que estava realmente a acontecer é genuinamente perturbador. O final não é redentor nem esperançoso de forma limpa, as personagens sobrevivem, mas o que sobrevive com elas é um peso que o anime não tenta minimizar. É um dos melhores exemplos de como uma série pode usar género e estética para criar expectativas e depois destruí-las completamente.
3Cyberpunk: Edgerunners
Cyberpunk: Edgerunners foi uma surpresa para muita gente quando estreou em 2022. A adaptação do universo do jogo produzida pelo Studio Trigger trouxe uma energia visual característica do estúdio e uma história original que funcionou de forma completamente independente do jogo. E funcionou tão bem que o final deixou uma parte significativa do público em silêncio durante uns bons minutos depois dos créditos.
David Martinez não é um herói típico. É um miúdo que tenta sobreviver num mundo que não foi feito para pessoas como ele, e que vai trocando partes de si mesmo na esperança de que isso seja suficiente. A série deixa claro desde cedo que não vai ser. Cada upgrade é uma perda, e a trajetória de David é uma contagem decrescente disfarçada de ascensão. O que torna o final inesquecível não é a morte em si, é Lucy a chegar à Lua sem ele, o sonho cumprido e completamente envenenado ao mesmo tempo. Night City ganhou. Como sempre.
2Now and Then, Here and There
Now and Then, Here and There é provavelmente o anime menos conhecido desta lista, e também um dos mais difíceis de recomendar a alguém sem um aviso prévio sério. A série tem 13 episódios, estreou em 1999, e aborda temas como guerra, abuso sistemático de crianças e trauma com uma frontalidade que continua a ser rara no meio, mais de vinte anos depois.
O protagonista, Shu, é o tipo de personagem que noutra série seria o herói clássico, optimista, teimoso, recusa-se a desistir independentemente do que acontece. Aqui, esse optimismo é posto à prova de formas que chegam a ser difíceis de acompanhar. O final traz algum alívio, mas não o tipo de alívio que apaga o que veio antes. As marcas ficam. E é exactamente essa honestidade, a recusa em oferecer uma resolução mais limpa do que a história merece, que torna Now and Then, Here and There tão difícil de esquecer e tão difícil de rever.
1Puella Magi Madoka Magica
Poucos animes conseguiram subverter as expectativas do seu próprio género de forma tão completa como Puella Magi Madoka Magica. A série de Gen Urobuchi apresenta-se como um anime de magical girls e vai desconstruindo essa premissa de forma cuidadosa e implacável ao longo dos seus doze episódios, até chegar a um final que reconstrói o significado de tudo o que veio antes.
A decisão de Madoka no último episódio é, em termos narrativos, um dos actos mais heroicos de todo o anime. Reescrever as leis do universo para acabar com o sofrimento das magical girls significa aceitar não existir, não morrer de forma dramática, não ser lembrada, não deixar rasto. O mundo que ela salva não sabe que ela existiu. As pessoas que ela amava esquecem-na. Homura lembra, mas isso quase torna tudo pior, porque é a única testemunha de um sacrifício que a história apagou. É um final que exige que o espectador carregue essa memória em vez das personagens, e isso é simultaneamente belo e absolutamente devastador.







