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Valve enfrenta processo por alegado sistema de jogo ilegal

Uma ação coletiva foi apresentada a 9 de março num tribunal federal de Washington, acusando a Valve de ter construído deliberadamente um sistema de jogo de azar disfarçado de entretenimento. É a segunda frente legal aberta contra a empresa em menos de duas semanas.

steam deck valve

A Valve, empresa por detrás do Steam e de títulos como Counter-Strike 2, Dota 2 e Team Fortress 2, enfrenta agora uma ação coletiva movida em nome de consumidores norte-americanos. O processo foi apresentado a 9 de março de 2026 no Tribunal Distrital dos Estados Unidos para o Distrito Oeste de Washington, o estado onde a empresa tem sede, e é conduzido pelo escritório de advogados Hagens Berman, especializado em litígios de grande escala contra empresas tecnológicas.

A base do processo é direta, as loot boxes da Valve, presentes nos três jogos mencionados, constituem jogo ilegal ao abrigo da lei do estado de Washington. De acordo com a queixa, o sistema cumpre todos os elementos da definição legal de jogo de azar, o utilizador paga dinheiro real por uma chave (tipicamente 2,49 dólares), abre uma caixa e recebe um item virtual selecionado de forma aleatória. A maioria recebe itens que valem apenas alguns cêntimos; uma minoria recebe artigos raros que podem valer centenas ou até milhares de dólares. Os itens podem depois ser vendidos no marketplace do próprio Steam ou em plataformas de terceiros que a Valve terá facilitado ativamente.

Mecânicas de casino com público infantil

A acusação vai além da classificação legal. A queixa descreve ao pormenor os mecanismos psicológicos que a Valve terá usado intencionalmente, recompensas entregues em intervalos imprevisíveis para manter os jogadores a gastar dinheiro, efeitos visuais e sonoros semelhantes a uma máquina caça-níqueis, e animações de “quase ganho” que criam a ilusão de que a próxima tentativa será bem-sucedida. Tudo mecanismos bem documentados na literatura sobre comportamento aditivo.

O que torna este caso particularmente grave, segundo os autores da ação, é o perfil do público afetado. Steve Berman, fundador e sócio-gerente da Hagens Berman, afirmou: “O que torna este caso particularmente grave é que a Valve sabia que eram crianças do outro lado dessas transações. Em vez de proteger os jogadores mais jovens através de verificação de idade ou de um mecanismo de consentimento parental, acreditamos que manipularam o jogo para extrair ainda mais dinheiro delas”.

A investigação citada no processo indica que os adolescentes são especialmente vulneráveis a estes sistemas e que as crianças expostas ao jogo de azar têm quatro vezes mais probabilidade de desenvolver problemas de jogo compulsivo na vida adulta.

Berman disse ainda: “Acreditamos que a Valve criou deliberadamente a sua plataforma de jogo de azar e lucrou enormemente com ela. Os consumidores jogaram estes jogos por entretenimento, sem saber que a Valve já tinha, alegadamente, colocado as probabilidades contra eles. Pretendemos responsabilizar a Valve e devolver o dinheiro aos consumidores”.

Processo contra a Valve por loot boxes pode afetar todos os jogos

A segunda frente: Nova Iorque também avançou

Esta ação coletiva não surgiu no vazio. Menos de duas semanas antes, o estado de Nova Iorque apresentou a sua própria queixa contra a Valve, visando as mesmas práticas nos mesmos títulos. O argumento central do caso nova-iorquino é que os itens virtuais ganhos nas loot boxes têm valor económico real e mensurável, não apenas valor subjetivo para os jogadores, o que os coloca dentro do âmbito legal do jogo de azar.

A queixa federal agora apresentada menciona diretamente o caso de Nova Iorque e usa-o como referência para argumentar que a lei de Washington se aplica ainda mais diretamente, uma vez que é o estado de origem da Valve.

O processo pretende incluir todos os consumidores norte-americanos que compraram uma chave de loot box ou pagaram para abrir uma caixa em Counter-Strike (incluindo CS:GO e CS2), Dota 2 ou Team Fortress 2, e receberam um item com valor inferior ao preço pago. O potencial universo de afetados é, por isso, muito vasto.

A Hagens Berman abriu ainda uma página onde consumidores podem reportar as suas experiências. O escritório é o mesmo que atualmente conduz uma ação antitruste separada contra a Valve relacionada com as práticas de preços na plataforma Steam.

Em caso de sucesso, os autores pedem que a Valve seja obrigada a pagar indemnizações triplicadas, a cessar o funcionamento do sistema de loot boxes e a implementar verificação de idade e mecanismos de consentimento parental. O juiz ainda terá de decidir se aceita o estatuto de ação coletiva ao processo.

A Valve não prestou declarações públicas sobre nenhuma das duas ações até ao momento da publicação desta notícia.

Helder Archer
Helder Archer
Fundou o OtakuPT em 2007 e desde então já escreveu mais de 60 mil artigos sobre anime, mangá e videojogos.

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