Existem jogos que ficam inevitavelmente associados a uma consola ou a uma determinada época e Dynasty Warriors 3 é, sem dúvida, um desses exemplos. Conhecido no Japão como Shin Sangoku Musou 2, o jogo foi lançado originalmente para a PlayStation 2, em 2001, e ajudou a estabelecer muitos dos elementos que viriam a definir o género “Musou”.

Mais de duas décadas depois, com a série já totalmente estabelecida, encontramos Dynasty Warriors 3: Complete Edition Remastered, uma versão que procura recriar essa mesma experiência através de uma reconstrução gráfica em Unreal Engine 5, melhorias na gameplay e a inclusão de todo o conteúdo da expansão Xtreme Legends. Apesar do requinte moderno, a essência mantém-se praticamente inalterada com enormes campos de batalha, centenas de soldados, generais poderosos e a possibilidade de enfrentar exércitos inteiros praticamente sozinho.

No entanto, ao contrário de alguns episódios mais recentes da série, o jogador não se sente imediatamente invencível. As forças inimigas continuam capazes de criar situações perigosas, sobretudo através das rajadas de flechas e de determinados generais, tais como Lu Bu que neste jogo é uma força imparável, que obrigam a prestar maior atenção ao que acontece no campo de batalha. Esta dificuldade faz parte da identidade do jogo e a equipa teve particular atenção ao impacto dos ataques à distância. Para acomodar quer os jogadores veteranos como os recém-chegados, foram criados dois modos de controlo diferentes.

Dynasty Warriors 3 está de volta acompanhado pelos seus bugs também

O modo Classic procura preservar a experiência original ao manter os movimentos e sistemas do jogo de 2001, enquanto o modo Normal adota mecânicas mais próximas dos episódios modernos da série. Este último inclui diversas funcionalidades, tais como como o lock-on, um controlo mais refinado dos combos, Perfect Power Guard e Just Evasion para tornar os combates mais acessíveis e sem abandonar completamente a estrutura original.

A diferença entre os dois modos permite aos veteranos reencontrar a experiência que conhecem, até mesmo os seus infames bugs de soldados a correr contra paredes, enquanto os novos jogadores têm uma alternativa mais próxima dos padrões atualidade para não sentirem demasiado retrocesso. Realmente esta é uma solução particularmente adequada para um jogo que pretende funcionar simultaneamente como uma viagem nostálgica e como uma porta de entrada para uma época importante da série.

Enquanto a estrutura de jogo se mantém igualmente fiel ao original, os jogadores também podem contar com os modos Musou, que basicamente atua como modo de história, Free, para batalhas individuais, e VS, destinado ao combate local. Existem ainda quatro desafios de perícia, o Survival, Speed Run, Sudden Death e a Bridge Melee, este último centrado em empurrar os inimigos borda fora de uma ponte. Por último o “Camp” permite faz a gestão dos guarda-costas e efetuar a fusão de armas, que essencialmente atua da mesma forma que muitos RPGs, através da junção de duas armas com diversas habilidades passivas que se podem combinar numa só.  Esta edição faz jus ao nome “Complete” e também inclui a expansão Xtreme Legends, com mais de 40 generais e novas histórias para sete personagens, entre as quais se encontram o temível Lu Bu, Meng Huo e Yuan Shao. A remasterização inclui também novas armas, personalização dos guarda-costas e os quatro desafios adicionais. A componente cooperativa local para dois jogadores também regressa e preserva uma das características que marcaram o jogo original e suporta igualmente cooperação local em ecrã dividido, com diferentes métodos de controlo à disposição dos jogadores.

Este conjunto transforma a remasterização numa experiência bastante mais completa do que uma simples atualização gráfica, como parece ser a norma neste casos. Existe uma quantidade considerável de conteúdo para descobrir, com diferentes personagens a apresentarem estilos de combate próprios e campanhas que permitem revisitar os acontecimentos dos Três Reinos a partir de várias perspetivas.

A estrutura também preserva uma das características que ajudaram a definir Dynasty Warriors, a sensação de que cada batalha representa uma enorme operação militar, na qual o jogador pode alterar o rumo dos acontecimentos através das suas próprias ações. Podemos eliminar dezenas de soldados, derrotar generais importantes ou avançar diretamente para determinados objetivos. Também algumas missões escondem itens raros que são obtidos se forem recriadas certas situações, tais como invadir campos de uma certa posição, evitar que um general poderoso chegue a um determinado ponto ou se alie a um dos nossos inimigos.

Visualmente, a utilização do Unreal Engine 5 permite reconstruir personagens, cenários, efeitos e campos de batalha numa escala muito superior à da versão PlayStation 2. Não se trata simplesmente de aumentar a resolução dos modelos originais. A apresentação foi reconstruida para tirar partido de hardware moderno sem abandonar a identidade visual do clássico. O resultado é particularmente evidente quando comparamos esta edição com o jogo original. Os campos de batalha apresentam muito mais detalhe, os efeitos de combate ganharam impacto e os generais deixaram de estar limitados pelas possibilidades técnicas da PlayStation 2. Mesmo com esta transformação, a Omega Force procurou evitar que o jogo perdesse a sua personalidade, e o objetivo não foi simplesmente transformar Dynasty Warriors 3 num episódio moderno da série, mas sim imaginar como seria o jogo original se tivesse sido desenvolvido com a tecnologia disponível dos dias de hoje. É precisamente esta abordagem que faz com que a reconstrução visual funcione. Apesar das enormes diferenças tecnológicas, continua a ser imediatamente reconhecível como Dynasty Warriors 3.

No PC (Steam) a remasterização beneficia de várias opções gráficas que permitem adaptar a experiência a diferentes configurações. A versão Steam suporta resolução 4K, monitores ultrawide, HDR e todas as principais, opções de SuperSampling da atualidade da NVIDIA, AMD, e Intel, além de permitir configurar os controlos de teclado e rato e utilizar diferentes tipos de comandos que incluem o DualSense e o comando XBOX Series. Os requisitos oficiais mostram que o jogo foi pensado para uma grande variedade de computadores e, felizmente, não estamos perante um título particularmente exigente para os padrões atuais no PC. Por um lado, esta limitação pode ser vista como uma desvantagem para quem possui hardware capaz de ultrapassar facilmente esta barreira. Por outro, significa também que mesmo máquinas mais modestas deverão conseguir lidar com o jogo sem grandes dificuldades. Ao mesmo tempo, a presença de 4K, ultrawide, HDR e diferentes métodos de reconstrução de imagem deixa espaço para configurações bastante mais ambiciosas do que aquelas utilizadas nas especificações recomendadas, por estar limitado a 60 FPS, ou ilimitado, o que prova que a Omega Force reconstruiu o jogo de raiz, porque mais de 60 FPS, iria destruir as animações das personagens se fosse simplesmente utilizado o código do jogo original. Para uma experiência Musou, esta característica assume especial importância. O género depende de grandes quantidades de inimigos no ecrã e de combates com dezenas de personagens em simultâneo, pelo que uma apresentação fluida contribui diretamente para a resposta dos controlos e para a leitura da ação.

Algo que também merece ser mencionado é o tratamento do áudio e o respeito que a produção teve pelo jogo original. As vozes japonesas e inglesas foram preservadas na totalidade e permitem recuperar uma das características mais marcantes da versão da PlayStation 2. Este é um detalhe importante para quem jogou o original, sobretudo porque o tom das vozes e das personagens fazia parte da personalidade muito própria de Dynasty Warriors 3. Em vez de substituir completamente esse legado, a remasterização decidiu recuperá-lo e integrá-lo numa apresentação moderna. Acreditem que o áudio original é um daqueles exemplos em que o resultado é tão peculiar que acaba por se tornar memorável. Para quem conhece a versão original, voltar a ouvir estas vozes, com uma qualidade de áudio ligeiramente superior, é quase como abrir uma cápsula do tempo diretamente para 2001, e aos infames áudios da altura. “Feel the Power of my Mhhhaaaaaaagic!!!!” ou “The Forces of Cow Cow” são mais que citações, que aliados com a banda sonora de rock, são espelhos da época, e à emulação de filmes B de artes marciais da década de 70.

No final, Dynasty Warriors 3: Complete Edition Remastered demonstra que uma remasterização não precisa de reinventar completamente o jogo original para o tornar relevante. A Koei Tecmo e a Omega Force preservaram tudo o que tornou Dynasty Warriors 3 num jogo de culto enquanto que modernizaram os aspetos que mais beneficiavam de uma atualização. O resultado é uma viagem de regresso à era da PlayStation 2 que mantém o caos, a dificuldade e a sensação de poder do original, mas com uma reconstrução em Unreal Engine 5, controlos adaptados aos tempos modernos e opções técnicas particularmente interessantes no PC.

Mais do que recuperar um jogo antigo, esta edição permite perceber porque razão Dynasty Warriors 3 continua a ser uma referência para muitos fãs da série. A quantidade de conteúdo de Xtreme Legends, os diferentes modos de jogo, o regresso das deliciosas vozes originais e a reconstrução visual fazem desta uma experiência pensada para todos os públicos.

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