Toda a gente conhece alguém que torce o nariz ao anime. O que se segue não é uma lista de “os melhores anime de sempre”. É uma seleção pensada especificamente para quem ainda não deu uma oportunidade honesta ao anime, ou para quem quer convencer alguém a fazê-lo.
10Vinland Saga
Poucos animes conseguem fazer o que Vinland Saga faz, contar uma história de guerra medieval com a seriedade de um romance histórico de qualidade. A série baseia-se no mangá de Makoto Yukimura e passa-se durante as invasões vikings na Europa do século XI, seguindo Thorfinn, um rapaz que viu o pai ser assassinado e passou anos a perseguir o homem responsável. A primeira temporada, animada pelo Wit Studio em 2019, é brutal e rítmica, tem batalhas, tem política, tem traição, mas o que a distingue é a forma como trata os seus personagens como seres humanos em vez de figuras de ação.
A segunda temporada, produzida pelo MAPPA em 2023, muda completamente de registo. Thorfinn já não é o mesmo, e a série tem coragem suficiente para seguir essa transformação mesmo quando isso significa abrandar o ritmo e deixar os personagens simplesmente existir. É um anime sobre o que acontece depois da vingança, quando o objetivo que definia uma vida desaparece e é preciso construir algo de novo. Quem gostou de Vikings ou The Last Kingdom vai sentir o terreno familiar, mas Vinland Saga vai mais fundo do que qualquer uma dessas séries.
9Death Note
Death Note é, provavelmente, o anime mais fácil de recomendar a alguém que nunca viu nenhum e há uma razão para isso. A premissa é simples, um estudante do secundário chamado Light Yagami encontra um caderno capaz de matar qualquer pessoa cujo nome seja escrito nele. A partir daí, decide que vai usar esse poder para limpar o mundo de criminosos e tornar-se numa espécie de deus da nova era.
O que torna Death Note irresistível não é a premissa sobrenatural, mas o duelo intelectual que se desenvolve entre Light e L, o detetive sem nome encarregado de o apanhar. Nenhum dos dois comete erros óbvios. Ambos raciocinam a vários níveis de antecipação, e o espectador passa grande parte do tempo a tentar perceber quem leva vantagem. É o tipo de série que se vê num fim de semana, não porque seja fácil, mas porque é impossível parar. Produzida pelo Madhouse, estreou em 2006 e mantém-se completamente atual.
8Monster
Se Death Note é o thriller de ação, Monster é o thriller lento, e é ainda melhor. Baseada no mangá de Naoki Urasawa, a série segue o Dr. Kenzo Tenma, um neurocirurgião japonês a trabalhar na Alemanha Ocidental que, por princípio, decide salvar a vida de um rapaz em vez de um político de alto nível. Anos depois, esse rapaz, Johan Liebert, revelou-se um assassino em série de inteligência fora do comum, e Tenma carrega o peso dessa decisão.
A série passa-se inteiramente na Europa Central, Alemanha, República Checa, Áustria, e tem uma atmosfera densa que lembra os melhores thrillers escandinavos. Não há poderes especiais, não há magia, não há nada que a distinga de uma série policial de produção ocidental exceto o facto de ser animada. Com 74 episódios, Monster tem espaço para desenvolver uma galeria de personagens secundários que seriam protagonistas em qualquer outra série. É uma obra que exige paciência no início e recompensa essa paciência com uma das histórias mais perturbadoras e bem construídas do género.
7Attack on Titan
Attack on Titan começa como uma série de ação e sobrevivência, a humanidade vive dentro de muralhas gigantescas para se proteger de criaturas humanoides chamadas Titãs, que devoram pessoas sem propósito aparente. Os soldados combatem-nas com equipamento de manobra tridimensional, saltando entre edifícios e árvores com espadas. É espetacular visualmente e funciona perfeitamente como série de aventura.
O problema, ou melhor, a razão pela qual a série é extraordinária, é que isso é apenas o ponto de partida. À medida que as temporadas avançam, Attack on Titan transforma-se numa coisa completamente diferente, uma história sobre guerra, culpa coletiva, ciclos de violência e o que acontece quando se descobre que os monstros têm história. É raro um anime que beneficia tanto de uma segunda visualização, os detalhes das primeiras cenas ganham um significado completamente diferente depois de se saber como a história termina. Para quem gosta de ficção científica, horror ou fantasia política, dificilmente existe melhor introdução ao género.
6Berserk
Para os fãs de BD de fantasia sombria, Berserk é uma referência que existe bem antes de Game of Thrones ter popularizado o conceito de fantasia adulta. O mangá de Kentaro Miura, iniciado em 1989, é considerado por muitos como um dos mais importantes do género, e a adaptação anime de 1997 cobre o Arco da Idade de Ouro com uma solidez narrativa que envelheceu muito bem.
Guts é um mercenário que combate com uma espada maior do que o seu próprio corpo, num mundo de guerra medieval com criaturas sobrenaturais à espreita. Mas o que define Berserk não é a violência, que existe e é intensa, mas a relação entre Guts e Griffith, o líder carismático do grupo de mercenários em que Guts entra. É uma história sobre ambição, lealdade e o que as pessoas são capazes de fazer para alcançar o que querem. A adaptação de 1997 termina de uma forma que deixa o espectador em silêncio. Quem quiser continuar a história terá de ir para o mangá, que vale completamente a pena.
5Black Lagoon
Há uma razão pela qual Black Lagoon é frequentemente comparado a Quentin Tarantino, partilha o mesmo gosto por diálogos cortantes, violência esteticamente construída e personagens moralmente duvidosos que são, apesar disso, completamente cativantes. A série passa-se nos mares do Sudeste Asiático, num porto fictício chamado Roanapur onde operam traficantes, mercenários e criminosos de toda a espécie.
O protagonista, Rock, é um empresário japonês que acaba sequestrado e, eventualmente, integrado na tripulação do barco Black Lagoon. A personagem que rouba o espetáculo é Revy, uma mercenária americana de ascendência chinesa que combate com duas pistolas e tem um temperamento que oscila entre o sarcasmo e a violência genuína. O que torna a série interessante é a tensão entre a perspetiva de Rock, alguém que vem do mundo normal e tenta perceber as regras deste, e a brutalidade pragmática de quem já cá vive. Produzida pelo Madhouse em 2006, continua a ser uma das séries de ação mais bem escritas do anime.
4Solo Leveling
Solo Leveling funciona numa lógica diferente das outras séries desta lista, é explicitamente uma power fantasy, e não tenta ser outra coisa. Num mundo onde portais para dungeons cheias de monstros abrem regularmente, existe uma classe de pessoas chamadas caçadores com poderes para as enfrentar. Jinwoo Sung é o mais fraco de todos eles, até que um evento quase fatal lhe concede a capacidade única de evoluir: ganhar níveis, melhorar estatísticas, desenvolver habilidades.
Para quem cresceu a jogar RPGs, de Final Fantasy a World of Warcraft ou Baldur’s Gate, a linguagem é imediatamente familiar e funciona como uma espécie de fantasia realizada. Ver Jinwoo progredir de caçador sem expressão para uma das forças mais poderosas do mundo tem uma satisfação quase viciante. A primeira temporada estreou em 2024 e a segunda em 2025, ambas disponíveis na Crunchyroll. Não é a série mais complexa desta lista, mas é provavelmente a mais difícil de parar a meio.
3Terminator Zero
A franquia Terminator tem tido dificuldades evidentes em reconquistar a relevância dos dois primeiros filmes. Terminator Salvation falhou. Genisys falhou. Dark Fate teve momentos mas não chegou lá. E então a Netflix lançou uma série anime em 2024 que conseguiu, de forma surpreendente, fazer aquilo que todas essas produções falharam, contar uma história nova dentro do universo sem depender de John Connor ou de Arnold Schwarzenegger.
Terminator Zero passa-se no Japão, em torno do Dia do Julgamento, com um elenco de personagens completamente inédito. A série tem o ritmo e a tensão dos melhores episódios da franquia, mas não se prende com a obrigação de servir a continuidade, o que a liberta para ir a sítios inesperados. Para quem é fã da franquia, é uma lufada de ar fresco. Para quem não é, é uma série de ficção científica de ação que funciona completamente por si própria.
2Bartender: Glass of God
BARTENDER Glass of God é provavelmente a série mais diferente desta lista, e é exatamente por isso que merece estar aqui. Não há vilões, não há conflito central, não há nenhuma ameaça existencial. A série segue Ryu Sasakura, um barman considerado o melhor do Japão, que trabalha num bar discreto onde cada cliente traz consigo um problema que não consegue resolver sozinho.
A estrutura é quase sempre a mesma, uma pessoa entra no bar com um peso que não sabe nomear, e Ryu, através de uma conversa e do cocktail certo, ajuda-a a ver o problema de outro ângulo. É uma série sobre escuta, sobre a arte de estar presente, e sobre o que significa criar um espaço onde as pessoas se sentem seguras o suficiente para ser honestas. Produzida pelo Studio Liber em 2024, tem uma cadência que hoje em dia é rara, nunca tem pressa, nunca grita. É o tipo de série que se vê ao fim do dia quando se quer algo que acalme em vez de estimular.
1After the Rain
After the Rain (no original, Koi wa Ameagari no You ni) é uma série pequena e discreta que seria fácil deixar passar, o que seria uma pena. A história centra-se em Akira Tachibana, uma jovem de dezassete anos que era das melhores atletas da escola até uma lesão no tornozelo a afastar do atletismo. Sem o desporto que definia a sua identidade, Akira começa a trabalhar num restaurante e desenvolve sentimentos pelo gerente, um homem de quarenta e poucos anos com a sua própria relação complicada com os sonhos abandonados.
A série trata este assunto com muito mais inteligência do que a premissa pode sugerir. Não é uma história de romance, é uma história sobre o que se perde quando se perde aquilo que mais se ama fazer, e sobre o que é preciso para encontrar motivação novamente. Akira e o gerente funcionam como espelhos um do outro, e a série usa essa relação para explorar algo que raramente aparece no anime, a melancolia específica de ser jovem e sentir que o melhor já passou, ou de ser adulto e perceber que nunca se fez o que realmente se queria. Produzida pelo Wit Studio, estreou em 2018 e tem apenas doze episódios.








