Há séries que só mostram o que realmente são depois de as terminar, e estas são as que mais recompensam quem decide recomeçar do início.
10Steins;Gate
Poucos anime conseguem equilibrar tão bem a leveza e o peso emocional como Steins;Gate. A série começa de forma quase despropositada, um estudante universitário excêntrico, Rintaro Okabe, que se auto-proclama cientista louco, descobre por acidente que um micro-ondas modificado pode enviar mensagens para o passado. Durante os primeiros episódios, tudo parece uma comédia de personagens, estranha, cheia de referências e com um ritmo que muita gente acha lento de mais. É precisamente aí que a série está a construir algo que só se percebe depois.
A partir do episódio doze, o tom muda completamente. O que era ligeiro torna-se sufocante, e Okabe passa a carregar um peso que o espectador sente episódio a episódio. O mecanismo das viagens no tempo é usado com uma coerência rara no género, sem buracos de guião e com consequências emocionais reais para as personagens. O final é daqueles que ficam na memória durante dias.
Rever Steins;Gate é uma experiência quase masoquista. Sabendo o que acontece, cada momento despreocupado dos primeiros episódios passa a ter um sabor diferente, e certas falas, que pareciam simples, revelam-se despedidas disfarçadas. É o tipo de série que se conta a alguém e que se vê pela segunda vez em simultâneo, só para observar a reação de quem ainda não sabe.
9Attack on Titan
Quando Attack on Titan estreou em 2013, era difícil prever o que ia tornar-se. A premissa era brutal e eficaz, a humanidade encurralada atrás de muros gigantes, à mercê de criaturas humanoides que a devoram, mas a série parecia destinada a ser, acima de tudo, um anime de ação muito bem feito. O que aconteceu a seguir foi uma das evoluções narrativas mais ambiciosas do mundo dos animes.
Com o avançar das temporadas, Attack on Titan revelou uma trama política e filosófica de uma densidade que poucos esperavam. A pergunta que estrutura toda a série, o que é a liberdade, e a que custo se conquista, vai sendo respondida de formas cada vez mais incómodas, e o protagonista que se seguia como herói torna-se uma figura que força o espectador a questionar os seus próprios julgamentos.
Revisitar a série desde o início, com esse conhecimento todo, é uma experiência completamente diferente. Há imagens dos primeiros episódios que assumem um significado perturbador quando se sabe o que representam. Personagens que pareciam secundárias revelam-se centrais. E certas cenas que pareciam simples momentos de ação tornam-se muito mais difíceis de ver em retrospetiva.
8Erased
Erased é uma série que assenta quase inteiramente na sua capacidade de dissimular pistas à vista de todos. Satoru Fujinuma é um jovem adulto que, involuntariamente, tem a capacidade de recuar no tempo alguns minutos para evitar desgraças próximas. Quando a sua mãe é assassinada, esse mecanismo leva-o dezoito anos para o passado, dentro do corpo do seu eu de dez anos, com a oportunidade de impedir os crimes que estiveram na origem de tudo.
A narrativa de mistério é construída com um cuidado que só se aprecia a fundo numa segunda visualização. Os sinais estão todos lá, distribuídos com uma precisão quase irritante, irritante porque, na primeira vez, passam completamente ao lado. A série usa muito bem o facto de o espectador estar sempre a olhar para o sítio errado, concentrado nos mesmos suspeitos que o protagonista, sem reparar no que está mesmo à frente.
Rever Erased é, de certa forma, assistir a uma série diferente. O suspense desaparece, mas é substituído por uma admiração genuína pela construção narrativa e por uma ansiedade nova, a de ver personagens a caminhar para situações que já se sabe como vão acabar.
7Baccano!
Baccano! é provavelmente o anime desta lista com menos reconhecimento fora dos círculos mais dedicados ao género, o que é uma injustiça considerável. Produzido pelo Brain’s Base em 2007, a série passa-se numa América dos anos trinta repleta de gangsters, alquimistas imortais e um comboio transcontinental onde convergem todos os fios da história.
O que torna Baccano! imediatamente desconcertante, e ao mesmo tempo fascinante, é a sua estrutura narrativa completamente não-linear. A série salta entre anos, perspetivas e eventos sem qualquer aviso, confiando na inteligência do espectador para ir montando o puzzle. Na primeira visualização, é normal ficar perdido durante os primeiros episódios. Mas há uma generosidade por trás desse aparente caos, tudo encaixa, e o momento em que isso se percebe é genuinamente satisfatório.
O elenco é outro dos grandes trunfos da série. São dezenas de personagens, cada uma com uma voz própria e uma história que merece ser acompanhada, e a forma como todas se cruzam é construída com uma elegância que só se aprecia verdadeiramente numa segunda visualização, quando já se sabe quem é quem e o que cada um está a fazer enquanto os outros avançam com as suas tramas paralelas.
6Puella Magi Madoka Magica
Há uma razão pela qual Puella Magi Madoka Magica é referida tão frequentemente como uma viragem no género das garotas mágicas, a série usa todas as convenções visuais e narrativas do género, as cores pastel, as transformações, o animal fofo que recruta as protagonistas, para construir algo que é, no fundo, uma tragédia. E fá-lo de uma forma que, na primeira visualização, apanha praticamente toda a gente desprevenida.
O terceiro episódio é o momento em que a série mostra o que realmente é, e o impacto é tanto maior quanto mais o espectador tiver acreditado na aparente leveza dos dois primeiros. Mas o que é verdadeiramente notável é que, mesmo antes desse momento, os sinais estavam todos lá, na forma como o animal-mascote comunica, nas perguntas que a protagonista não faz quando devia, nos detalhes visuais que o estúdio Shaft escondeu nos ângulos de câmara e nas sombras.
Rever a série com esse contexto é descobrir uma obra completamente diferente, carregada de presságios e com uma coerência interna que só se aprecia quando já se conhece o destino de cada personagem. É daquelas séries que, na segunda visualização, dói mais do que na primeira.
5Code Geass: Lelouch of the Rebellion
Code Geass não é uma série fácil de defender a quem não a conhece. É um anime de mechas com política, dramas familiares, uma escola de elite e um protagonista que usa um poder de controlo mental para liderar uma revolução contra um império. Na descrição, parece demasiado. Na prática, funciona extraordinariamente bem, e parte do motivo é que Lelouch é uma das personagens mais bem construídas do anime, alguém cujas motivações e contradições se revelam ao longo de dois anos de série de uma forma que exige atenção.
O final de Code Geass foi, na altura, muito discutido. Há quem o considere uma das conclusões mais corajosas, há quem discorde, e o debate ainda existe. O que é consensual é que o final ressoa de uma forma muito diferente quando se está a rever a série, certos diálogos da primeira temporada adquirem uma dimensão que na primeira visualização simplesmente não estava lá, e a trajetória de Lelouch ganha uma coerência trágica que só é possível apreciar com a perspetiva completa.
Há uma leitura de Code Geass que é só possível fazer em revisão, e que transforma completamente a forma como se lê cada sacrifício e cada decisão da série. Não convém estragar a quem ainda não viu.
4The Apothecary Diaries
The Apothecary Diaries é uma das séries que melhor soube equilibrar acessibilidade e profundidade nos últimos anos. Maomao é uma protagonista invulgar, uma jovem farmacêutica criada num bairro de prostituição, com um talento natural para a medicina e uma curiosidade insaciável que a transforma numa investigadora informal dos mistérios que acontecem no harém imperial onde foi enviada como serva.
O que a série faz com destreza é apresentar casos aparentemente isolados que vão revelando, episódio a episódio, uma trama muito maior. Maomao vai resolvendo situações que envolvem venenos, doenças e intrigas políticas, mas por baixo de cada caso está um fio que liga tudo à história da sua própria vida e às pessoas que a rodeiam. É o tipo de construção narrativa que só se aprecia verdadeiramente quando se tem o quadro completo.
Rever os primeiros episódios depois de terminar a série é uma experiência que os fãs mais atentos relatam como quase obrigatória, há pormenores sobre Jinshi, sobre o passado de Maomao e sobre certas personagens secundárias que estavam sempre ali, discretamente colocados, à espera de que alguém soubesse o suficiente para os reconhecer.
3Mob Psycho 100
Mob Psycho 100 tem a particularidade de ser, à superfície, uma série de ação e comédia sobre um adolescente com poderes psíquicos absurdamente poderosos, e de ser, por baixo disso, um dos estudos de crescimento pessoal mais honestos que o anime produziu na última década. A premissa é do autor de One Punch-Man, o estúdio BONES adaptou-a a partir de 2016, e o resultado é uma obra que sabe perfeitamente o que quer ser e nunca perde isso de vista.
Shigeo Kageyama, conhecido como Mob, é um rapaz que reprime as suas emoções com uma consistência quase assustadora, porque aprendeu que as suas emoções têm consequências físicas devastadoras para o mundo à sua volta. A série constrói lentamente a pressão dessa contenção, e os momentos em que ela cede são alguns dos mais espetaculares do anime em termos de animação.
Numa segunda visualização, o que sobressai é a subtileza com que a série vai colocando Mob numa direção de crescimento que, na primeira vez, pode passar mais despercebida atrás do espetáculo visual. O arco de personagem é cirúrgico, e percebe-se muito melhor quando se sabe para onde vai. As últimas cenas da terceira temporada adquirem um significado completamente diferente quando se revisita o Mob dos primeiros episódios.
2Delicious in Dungeon
A premissa de Delicious in Dungeon, aventureiros que cozinham e comem os monstros que encontram nas masmorras, soa a piada, mas a série do estúdio Trigger revelou-se uma das obras mais completas e bem construídas dos últimos anos. O humor existe e é genuíno, mas por baixo há um universo de fantasia com uma lógica interna rigorosa, personagens com histórias complexas e uma narrativa que vai acumulando camadas ao longo dos episódios.
O que torna Delicious in Dungeon particularmente rica em revisão é a quantidade de informação sobre o mundo e as personagens que está presente desde o início, mas que só faz sentido depois de se conhecerem os arcos posteriores. Há decisões de personagens nos primeiros episódios que parecem simples escolhas de momento e que, sabendo o que se sabe mais tarde, revelam traumas e motivações que estavam a ser comunicados de forma completamente silenciosa.
A relação entre os membros do grupo, a história da masmorra e certos detalhes sobre o antagonista principal são todos exemplos de fios que a série foi tecendo desde cedo, e que uma segunda visualização permite apreciar com uma atenção que a primeira não tinha condições de dar.
1Black Butler
Black Butler é um caso particular nesta lista porque falar de “rever” a série implica falar de duas fases distintas da sua adaptação. A primeira temporada de 2008 afastou-se do mangá de Yana Toboso de uma forma que desagradou a muitos leitores, criando uma história original que chegou a um final próprio. As temporadas mais recentes decidiram recomeçar com fidelidade ao material de origem e o contraste é notável.
O que torna Black Butler merecedora de revisão é precisamente essa nova perspetiva que as temporadas mais recentes oferecem. A relação entre Ciel Phantomhive, o jovem conde que serve como cão de guarda da rainha vitoriana, e Sebastian, o seu mordomo demoníaco, tem uma densidade que a primeira adaptação não soube explorar de forma consistente. Com as novas temporadas como referência, rever os primeiros arcos é encontrar uma série que tinha muito mais para dar do que aquilo que foi aproveitado na altura.
Para quem abandonou Black Butler após a primeira temporada, vale mesmo a pena regressar. A série é outra.









