Há obras de anime que se instalam na cabeça e não saem mais. Não é pelo enredo em si, nem sequer pela animação, é por aquela sensação estranha que fica depois de terminar, qualquer coisa entre desconforto, fascínio e um leve arrepio que não se consegue explicar bem.
10The Empire of Corpses
O Wit Studio, conhecido por títulos como Attack on Titan, produziu em 2015 este filme de pouco mais de duas horas baseado na obra póstuma de Keikaku Itoh. A história situa-se numa era steampunk do século XIX, onde a tecnologia permitiu reanimar os mortos e a humanidade não hesitou em aproveitá-los como força de trabalho. Exércitos de cadáveres obedecem a ordens, constroem cidades, lutam em guerras. São funcionais, mas vazios. Corpos sem alma, sem identidade, sem nada que os distinga de máquinas.
O que torna este filme genuinamente perturbador não é a violência, que existe mas não domina. É a normalização. Os humanos vivos tratam os mortos reanimados com a mesma indiferença com que tratariam uma ferramenta desgastada, e essa frieza diz muito mais sobre os vivos do que sobre os mortos. A ideia de que a morte pode não trazer descanso, mas sim uma servidão sem fim, é o tipo de pensamento que fica a circular na cabeça muito depois de o filme acabar.
Para quem aprecia ficção científica com peso filosófico e não precisa de sustos fáceis para sentir desconforto, Shisha no Teikoku (The Empire of Corpses) é uma entrada obrigatória.
9Rin: Daughters of Mnemosyne
À primeira vista, Rin: Daughters of Mnemosyne pode parecer mais um anime de acção com elementos sobrenaturais. Mas o estúdio Xebec construiu aqui algo consideravelmente mais sombrio, um retrato da imortalidade como condenação. Rin Asogi existe há séculos. Viu gerações inteiras nascer, crescer e morrer. Adaptou-se, reinventou-se, continuou. E não tem escolha.
O que a série faz com essa premissa é impiedoso. Rin não é apenas imortal, é repetidamente capturada, torturada e morta, para acordar no dia seguinte e recomeçar. A imortalidade aqui não é um superpoder. É uma prisão sem paredes, sem fechadura, sem chave. E o que incomoda de verdade não são as cenas de violência explícita, que são muitas, mas a sensação acumulada de uma existência que nunca pode parar, mesmo quando já não há razão para continuar.
É um anime difícil de recomendar a qualquer pessoa, precisamente porque não facilita nada. Mas para quem aguentar, fica.
8Heavenly Delusion
Heavenly Delusion começa com dois fios narrativos paralelos que demoram algum tempo a cruzar-se, e essa estrutura é parte do seu poder. De um lado, Kiruko e Maru atravessam um Japão destruído, cheio de criaturas que caçam humanos. Do outro, um grupo de crianças vive num complexo isolado, aparentemente protegido, sem saber muito sobre o mundo lá fora. A pergunta que se instala cedo é, qual dos dois mundos é o mais perigoso?
A resposta que o anime vai dando ao longo dos episódios é incómoda. As criaturas são ameaçadoras, sim, mas os humanos que Kiruko e Maru encontram pelo caminho são frequentemente piores. Violentos, manipuladores, territoriais. O exterior pós-apocalíptico devia ser o pesadelo, mas acaba por revelar que o verdadeiro horror nunca esteve nas criaturas. Heavenly Delusion desconfia sistematicamente da bondade humana, e faz isso de forma tão consistente que o espectador acaba por desconfiar também.
7Shadows House
Shadows House, produzido pela CloverWorks em 2021, é o tipo de anime que engana. Os primeiros episódios têm uma estética quase de conto de fadas, uma mansão grande, figuras sombrias com aparência elegante, bonecas que as servem com dedicação e boa disposição. Tudo parece contido, quase aconchegante, e é exactamente isso que o torna eficaz.
À medida que a série avança, a fachada vai-se rachando. Emilico não é uma criada humana, é uma boneca. As Sombras que habitam a mansão não são simplesmente excêntricas, fazem parte de uma estrutura de controlo que nenhum dos residentes compreende completamente. E há sempre alguém a observar, embora nunca fique claro quem, nem com que propósito.
É esse não-saber que perturba mais do que qualquer revelação directa. Shadows House constrói o seu horror com paciência e precisão, e o resultado é uma série que fica a ressoar muito depois do último episódio.
6Death Parade
A pergunta que Death Parade coloca é simples, mas a resposta que encontra é perturbadora, o que acontece quando morres e nem o Céu nem o Inferno estão disponíveis? O estúdio Madhouse imaginou o Quindecim, um bar elegante onde duas pessoas que morreram em simultâneo são recebidas por Decim, um barman sereno que é, na verdade, o árbitro do seu destino eterno.
O formato de cada episódio é o mesmo, um jogo, dois jogadores, um veredicto. O vencedor tem uma segunda hipótese. O perdedor vai para o vazio, não a morte, mas uma câmara escura onde a consciência persiste, imóvel, para sempre. É essa distinção que assombra. Não o fim da consciência, mas a sua continuação num espaço sem saída, sem movimento, sem nada.
Cada episódio apresenta histórias e personagens diferentes, mas o peso vai-se acumulando de forma quase imperceptível, até o espectador perceber que já está completamente dentro do universo desta série.
5The Promised Neverland — primeira temporada
Há muito que dizer sobre o colapso narrativo da segunda temporada, mas não é disso que se trata aqui. A primeira temporada de The Promised Neverland é, por direito próprio, uma das experiências de terror mais bem construídas da última década de anime. Tudo começa com uma ilusão de segurança, um orfanato bonito, crianças felizes, figuras maternas carinhosas.
Emma, Ray e Norman descobrem a verdade de forma gradual, e o anime gere essa revelação com uma habilidade rara. A tensão não é construída com sustos ou violência directa, mas com detalhes pequenos que se acumulam até se tornarem insuportáveis. Quando a verdade se revela, que as crianças são criadas literalmente como gado para alimentar criaturas do exterior, com a cumplicidade das próprias figuras que as tratam, o impacto é físico.
É o tipo de momento que faz o espectador parar, recuar, e perceber que estava a ser preparado para aquilo desde o primeiro minuto.
4Serial Experiments Lain
Há animes que envelhecem bem. Serial Experiments Lain, produzido pelo estúdio Triangle Staff em 1998, envelheceu de uma forma que quase assusta, o que então parecia especulação sobre tecnologia e identidade digital parece hoje uma análise perturbadoramente lúcida de onde acabámos.
Lain Iwakura é uma adolescente tímida que começa a receber mensagens de uma colega que se suicidou. Esse ponto de partida lança-a dentro de The Wired, uma espécie de internet em forma física, onde as regras da realidade começam a dissolver-se. Homens de fato negro aparecem sem explicação. A identidade de Lain fragmenta-se. O que é real e o que é digital torna-se impossível de distinguir.
A série não oferece respostas claras, e essa recusa deliberada em explicar é precisamente o que a torna tão difícil de largar. Serial Experiments Lain é um anime que muda consoante quem o vê, e quase sempre deixa a pessoa a questionar coisas que preferia não questionar.
3Paprika
Antes de Inception chegar aos cinemas em 2010 e ser aclamado como uma obra revolucionária sobre sonhos e realidade, Satoshi Kon já tinha feito o mesmo, com mais coragem, mais caos e sem nenhuma das salvaguardas narrativas que tornam o filme de Christopher Nolan confortável para audiências amplas.
Paprika, produzido pelo estúdio Madhouse, centra-se no DC Mini, um dispositivo capaz de entrar no subconsciente de qualquer pessoa e participar nos seus sonhos. Na teoria, é uma ferramenta terapêutica. Na prática, quando cai nas mãos erradas, transforma-se numa arma de controlo mental sem precedentes. As pessoas são invadidas, os sonhos fundem-se com a realidade, e o próprio filme começa a comportar-se como um sonho, com aquela lógica fluida e inquietante que reconhecemos mas não conseguimos articular.
É simultaneamente deslumbrante e profundamente desconfortável, e é exactamente essa tensão que faz de Paprika uma obra que não se vê apenas uma vez.
2Berserk
Guts, Casca e Griffith têm origens marcadas pelo trauma, mas reagiram a esse trauma de formas radicalmente diferentes, e é essa divergência, construída ao longo de horas de história, que torna o que se segue tão devastador.
O Eclipse é uma das sequências mais difíceis de ver em toda a animação japonesa. Griffith sacrifica os seus companheiros, pessoas que o seguiram, que confiaram nele, que morreram por ele, para se transformar em Femto, um dos cinco membros dos Apóstolos do Deus das Mãos. O grupo é destruído um a um, e Guts é obrigado a assistir sem poder fazer nada.
Não é gratuitidade. É a consequência lógica de tudo o que foi construído antes, e é isso que torna o impacto impossível de sacudir. Berserk não é um anime sobre monstros. É um anime sobre o que acontece quando as pessoas com poder decidem que mais ninguém importa.
1Neon Genesis Evangelion
Emitido entre outubro de 1995 e março de 1996, produzido pela Gainax e dirigido por Hideaki Anno, Neon Genesis Evangelion começou como uma série de mechas, robôs gigantes a combater criaturas chamadas Anjos. Essa é a superfície. Por baixo, é uma das análises mais honestas e perturbadoras da depressão, do trauma de abandono e da incapacidade de se conectar com os outros alguma vez feita em forma de anime.
Shinji Ikari não quer ser herói. Não quer pilotar nada. Quer apenas que o pai o reconheça como filho, e é exactamente essa vulnerabilidade que o torna tão eficaz como personagem central. À medida que a série avança e os Anjos continuam a surgir, a narrativa vai-se tornando cada vez mais introspectiva, mais fragmentada, mais difícil de seguir de forma linear. Os últimos episódios passam-se quase inteiramente dentro da mente de Shinji, numa desconstrução da identidade que chegou a ser considerada demasiado abstracta para a televisão da época.
O Terceiro Impacto, desenvolvido de forma mais explícita no filme The End of Evangelion, lançado em 1997, funde todas as almas humanas numa única entidade para acabar com o isolamento. O grito de Shinji enquanto o mundo se dissolve não é o grito de um herói que perdeu. É algo mais fundo, o grito de alguém que nunca soube muito bem como estar no mundo, e que agora vê esse mundo desaparecer. Trinta anos depois da estreia, Neon Genesis Evangelion continua a ser um dos poucos animes que faz doer em sítios que não esperavas.








