Sangue, trauma e decisões impossíveis, estas séries anime usam a classificação para maiores como ferramenta narrativa, não como chamariz. E o melhor: nenhuma delas decepciona no final.
7Cyberpunk: Edgerunners
Night City não perdoa ninguém, e Cyberpunk: Edgerunners tem a honestidade de não fingir o contrário. A série de dez episódios produzida pelo Studio Trigger e lançada em 2022 na Netflix acompanha David Martinez, um adolescente que perde a mãe e decide sobreviver num mundo onde o corpo humano é literalmente moeda de troca. A premissa podia ser a de qualquer anime de ação. O que transforma Edgerunners numa experiência diferente é a forma como o protagonista não para de se perder enquanto tenta ganhar.
Cada episódio empurra David um passo mais longe de quem era no início, e o anime não romantiza essa transformação. A animação do Studio Trigger é frenética e esteticamente deslumbrante, mas são os momentos mais silenciosos, uma conversa com Lucy, uma noite calma com o grupo, que dão peso ao que está prestes a acontecer. Quando o final chega, o espectador já sabe para onde a história vai. E ainda assim dói.
691 Days
Há centenas de histórias de vingança no anime. Poucas têm a disciplina de 91 Days. A série passa-se nos Estados Unidos durante a Lei Seca e acompanha Angelo Lagusa, que regressa à cidade onde a sua família foi assassinada com um único objetivo: destruir os Vanetti, um por um. Não há desvios, não há tramas paralelas que desperdiçam episódios. A narrativa sabe exatamente onde quer chegar e constrói o caminho com uma contenção que raramente se vê.
O que torna a série verdadeiramente adulta não é a violência, é a ambiguidade moral que vai crescendo à medida que Angelo se aproxima das suas vítimas. O espectador começa a perceber que estas pessoas têm vidas, afetos, contradições. E Angelo também percebe. Isso não o faz parar, mas faz o final pesar de uma forma que uma história de vingança mais superficial nunca conseguiria.
5Devilman Crybaby
Masaaki Yuasa tem um estilo visual que poucos diretores no mundo conseguem imitar, e em Devilman Crybaby, lançado pela Netflix em 2018, esse estilo está ao serviço de uma das histórias mais perturbadoras que o anime alguma vez contou. Akira Fudo funde-se com um demónio mas mantém o coração humano, e é precisamente esse coração que a série vai destroçando episódio a episódio. A nudez, a violência extrema e o caos visual não existem para chocar; existem para mostrar como a humanidade se desintegra quando o medo toma o lugar da razão.
A relação entre Akira e Ryo é o verdadeiro centro da série, e é também o seu golpe final. Yuasa constrói essa dinâmica com uma intimidade que vai ficando cada vez mais inquietante, até ao momento em que tudo colapsa de uma forma que não deixa margem para interpretações reconfortantes. Devilman Crybaby não termina, acaba. E há uma diferença enorme entre as duas coisas.
4Parasyte: The Maxim
À primeira vista, Parasyte: The Maxim parece um thriller de terror corporal sobre um adolescente que partilha o corpo com um alien inteligente preso na sua mão direita. E é isso, durante os primeiros episódios. Mas a série, adaptada do mangá de Hitoshi Iwaaki e transmitida em 2014, usa essa premissa para colocar perguntas que não têm resposta fácil: o que separa um humano de um predador? A empatia é uma vantagem ou uma fraqueza num mundo que recompensa a crueldade?
Shinichi muda ao longo dos 24 episódios de uma forma que a série nunca tenta suavizar. Perde pessoas, perde partes de si próprio, e vai ficando mais eficiente e ao mesmo tempo mais vazio. O horror existe e é bem executado, mas funciona sempre como amplificador temático. É raro um anime de ação conseguir que cada cena de combate diga alguma coisa sobre os seus personagens. Parasyte consegue.
3Black Lagoon
Black Lagoon começa como um anime de ação sobre contrabandistas e termina como um dos retratos mais honestos da violência enquanto estilo de vida que a animação japonesa já produziu. Rokuro Okajima, Rock, é um salaryman japonês que acaba por se juntar à Lagoon Company, um grupo que opera em Roanapur, uma cidade portuária fictícia controlada por criminosos de todo o mundo. A premissa é propositadamente pulp. O que a série faz com ela não é.
Rock funciona como o espelho do espectador, alguém que chegou àquele mundo por acidente e que vai tentando perceber as suas regras. Mas o que a série mostra com subtileza é que ele não está apenas a adaptar-se: está a ser consumido. Cada compromisso que faz salva alguém no imediato e custa-lhe qualquer coisa por dentro. A parceria com Revy, a pistoleira do grupo, é outro ponto alto, ela não é reduzida a um tropo de personagem feminina violenta, mas construída como alguém que encontrou na violência a única linguagem que o mundo lhe ensinou. Black Lagoon nunca diz que este estilo de vida é glamoroso. Mas percebe-se perfeitamente por que razão as pessoas se perdem nele.
2Texhnolyze
Texhnolyze não é para toda a gente, e a série sabe disso. Produzida pelo Madhouse em 2003, a narrativa passa-se em Lux, uma cidade subterrânea em colapso lento, e acompanha Ichise, um lutador reconstruido com membros biónicos depois de uma punição brutal. Os primeiros episódios são quase sem diálogo, a história avança por fragmentos, e o espectador é deixado a construir o contexto por conta própria.
Essa opacidade é intencional. Texhnolyze usa a narrativa como reflexo do ambiente que retrata, uma cidade que se desintegra tão devagar que os seus habitantes já nem percebem que está a acontecer. Quem tiver paciência para acompanhar Ichise até ao final vai encontrar uma das conclusões mais implacáveis e precisas do anime. A série não muda de regras no último momento. Cumpre a promessa que fez desde o primeiro episódio, e o peso desse cumprimento é difícil de descrever sem estragar a experiência.
1Hellsing Ultimate
Hellsing Ultimate é um caso raro de uma série que sabe exatamente o que é e nunca tenta ser outra coisa. O OVA de dez episódios, lançado entre 2006 e 2012, refaz a adaptação do mangá de Kouta Hirano com fidelidade ao tom original, excessivo, violento, deliberadamente grandioso. Alucard, a arma definitiva da Organização Hellsing, é um vampiro de poder quase ilimitado colocado frente a frente com ameaças que escalam até proporções de guerra total. A série não tenta moderar esse excesso: abraça-o.
O que poderia resultar em espetáculo vazio é sustentado pela dinâmica entre os três protagonistas. Integra Hellsing traz estrutura e autoridade a um caos que de outra forma seria incontrolável. Seras Victoria funciona como o ponto de vista humano numa história de monstros. E Alucard, apesar do poder absurdo, tem uma dimensão filosófica que vai sendo revelada ao longo da série. A violência em Hellsing Ultimate é extravagante por design, mas o que a série está realmente a explorar, fanatismo, poder, o que significa ser humano quando se é literalmente imortal, nunca desaparece por baixo do sangue.









