
Demon Slayer: Infinity Castle abriu em setembro de 2025 com 70 milhões de dólares no primeiro fim de semana na América do Norte, o maior arranque de sempre para um filme anime, mais do dobro dos 31 milhões que Pokémon: The First Movie tinha conseguido em 1999. Um mês depois, Chainsaw Man – The Movie: Reze Arc estreou-se em primeiro lugar nas bilheteiras norte-americanas com 17,2 milhões de dólares no fim de semana de abertura, com imagens de jovens em cosplay a circular pelas redes sociais. À primeira vista, os números parecem um triunfo da influência cultural japonesa nos EUA. Mirai Konishi, cineasta e jornalista radicado em Los Angeles, não tem tanta certeza.
Numa coluna publicada no Eiga.com, Konishi defende que este fenómeno tem menos a ver com o poder do medium em si do que com uma transformação estrutural na forma como os americanos usam as salas de cinema. “Hesito em chamar a este fenómeno uma ‘vitória do Japão'”, escreve, argumentando que o sucesso do anime nos cinemas norte-americanos não resulta do peso cultural do medium, mas de uma mudança no próprio papel das salas enquanto espaço social.
O argumento central de Konishi parte de um dado concreto, o intervalo médio entre a estreia de um filme nos cinemas e a sua chegada ao streaming encolheu de 90 dias antes da pandemia para 32 dias atualmente. Com conteúdo a chegar tão rapidamente às plataformas, os espectadores precisam de um motivo forte para sair de casa no fim de semana de estreia. As salas deixaram de ser simplesmente locais para ver filmes e tornaram-se, nas palavras do jornalista, “espaços de participação numa experiência cinematográfica”, o que as aproxima, estruturalmente, de concertos ou eventos desportivos.
É aqui que o anime encaixa de forma única. “E o anime preenche essas condições de ‘evento’ de forma notavelmente eficaz”, escreve Konishi, descrevendo como os fãs de Demon Slayer e de Chainsaw Man partilharam informação nas redes sociais antes da estreia, prepararam cosplay, compraram merchandising e trataram o dia de abertura “como uma celebração comunitária”. Para esses espectadores, ir ao cinema não era simplesmente assistir a um filme, mas “partilhar um espaço com outros entusiastas que amam a mesma obra”.

O contra-argumento mais direto ao entusiasmo sem reservas vem do próprio universo do anime. The First Slam Dunk, que arrecadou mais de 15,7 mil milhões de ienes no Japão, tornou-se o filme doméstico mais lucrativo do país em 2023, mas arrecadou apenas 1,05 milhões de dólares em toda a América do Norte. “Por muito alta que seja a qualidade da obra, se o pré-requisito para que funcione como evento — um grupo de fãs ávidos de correr ao cinema no dia de estreia — estivesse ausente, as pessoas simplesmente não iriam ao cinema”, escreveu Konishi.
O contraste é notório. Demon Slayer e Chainsaw Man têm milhões de seguidores nos EUA que cresceram com estas séries no streaming, plataformas como a Crunchyroll e a Netflix funcionaram durante anos como incubadoras de uma fandom que, quando confrontada com uma estreia no grande ecrã, se mobilizou como se fosse um evento cultural. Slam Dunk, apesar da sua enorme relevância no Japão e em partes da Ásia, não tem o mesmo historial nos EUA, e os números refletem isso de forma implacável.
A conclusão de Konishi sobre os 70,6 milhões do Demon Slayer é direta, o resultado “não é prova de que o conteúdo japonês foi universalmente aceite na América”, mas sim o resultado de um alinhamento específico entre fandoms norte-americanas já estabelecidas e as mudanças estruturais nos cinemas americanos. Segundo o jornalista, resultados de bilheteira tão expressivos só são possíveis com obras que têm uma base sólida de fãs entre as gerações mais jovens, já familiarizadas com a cultura anime através das plataformas de streaming, e que estão entusiasmadas por viver a estreia dos seus animes favoritos como “eventos”.









