
A primeira-ministra do Japão elevou oficialmente o anime a instrumento de estado. Sanae Takaichi, que assumiu o cargo em outubro de 2025, declarou que a indústria anime é uma peça vital na estratégia diplomática e de soft power do país, reafirmando o compromisso do governo em apoiar o setor como uma das 17 áreas estratégicas para o crescimento nacional.
As declarações foram feitas durante uma reunião realizada em dezembro de 2025 com figuras proeminentes da indústria cultural japonesa, incluindo o lendário diretor de anime Mamoru Oshii, conhecido por obras como Ghost in the Shell, o músico Demon Kakka e o produtor musical Tetsuya Komuro. Na ocasião, Takaichi foi direta: “Sinto que a força do conteúdo japonês, especialmente o anime, melhora o nosso poder diplomático”.
A primeira-ministra explicou que, ao interagir com líderes de outros países em conferências internacionais, muitos mencionam que os seus filhos ou netos são fãs de personagens de anime e música japonesa: “Estas interações sinalizaram que o anime e outros conteúdos japoneses possuem mais valor do que ser um simples apelo cultural e estão a tornar-se uma força importante no fortalecimento das relações diplomáticas”.
Um mercado de 25 mil milhões de dólares
O apoio político chega num momento particularmente favorável para a indústria. Segundo dados apresentados pela Associação Japonesa de Animações (AJA) durante o TIFFCOM, o mercado ligado ao festival internacional de cinema de Tóquio, a indústria anime atingiu um recorde histórico de 3,84 biliões de ienes (cerca de 25 mil milhões de dólares) em 2024.
O mais impressionante é a distribuição geográfica desta receita. Pela segunda vez consecutiva, o mercado internacional ultrapassou o mercado doméstico japonês: 56% das receitas, equivalentes a 14,27 mil milhões de dólares, vieram do estrangeiro, enquanto o mercado japonês contribuiu com 10,98 mil milhões de dólares, representando 44% do total.
As receitas internacionais cresceram 26% em comparação com o ano anterior, enquanto o mercado doméstico registou um crescimento mais modesto de 2,8%. Masahiko Hasegawa, editor-chefe do relatório da AJA, sublinhou: “O mercado internacional agora excede em muito as receitas locais, e esta diferença só vai aumentar. O crescimento hoje inclui contratos agrupados que abrangem direitos teatrais, streaming, merchandising e eventos, não apenas distribuição de conteúdo”.
Este crescimento de 14,8% em 2024 representa a segunda maior taxa de crescimento anual de sempre, apenas superada pelos 15,3% registados em 2019. Desde 2009, a indústria tem expandido consistentemente, mesmo durante a pandemia de COVID-19.

Streaming impulsiona expansão global
O boom das plataformas de streaming desempenhou um papel crucial nesta expansão. Títulos como One Piece, Demon Slayer e Attack on Titan conquistaram audiências globais através de serviços como Netflix, Crunchyroll e Amazon Prime Video. O sucesso de Demon Slayer: Infinity Castle, que se tornou o filme japonês de maior bilheteira de sempre com 670 milhões de dólares em receitas globais, demonstra o alcance comercial que o anime atingiu.
A Associação Internacional de Eventos Otaku regista atualmente 136 eventos relacionados com anime em 51 países e regiões, reforçando o momentum global do género. Já não se trata apenas de um fenómeno asiático, o anime conquistou firmemente a América do Norte, Europa, América Latina e está a expandir-se para África e Médio Oriente.
Cool Japan: a estratégia de 20 biliões de ienes
As declarações de Takaichi inserem-se na iniciativa Cool Japan, uma estratégia governamental revista que pretende triplicar as vendas de conteúdo japonês no estrangeiro para 20 biliões de ienes (cerca de 131 mil milhões de dólares) até 2033, subindo dos aproximadamente 5,8 biliões de ienes registados em 2024.
A estratégia não se limita ao anime. O governo japonês identifica o conteúdo criativo, incluindo jogos, mangá, filmes live-action e música, como uma indústria de base, comparável em importância às exportações de aço e semicondutores. Em 2022, as exportações de conteúdo japonês (4,7 biliões de ienes) aproximavam-se já das exportações de semicondutores (5,7 biliões de ienes).
O plano mais amplo visa gerar mais de 50 biliões de ienes anuais até 2033 através de indústrias relacionadas com o Cool Japan, incluindo não só conteúdo cultural mas também produtos agrícolas, moda, cosméticos e turismo.

Desafios e investimento governamental
Durante a reunião de dezembro, Takaichi convidou profissionais da linha da frente da indústria para ouvir as suas opiniões e compreender as dificuldades práticas na produção e distribuição de conteúdo no estrangeiro. A primeira-ministra afirmou que o governo precisa de identificar exatamente onde o seu apoio será mais eficaz.
A discussão abordou questões críticas como aquisição de talentos, atração de produções cinematográficas estrangeiras para o Japão e a necessidade urgente de combater a pirataria. Takaichi descreveu a sessão como “uma troca franca de opiniões”.
O combate à pirataria digital é considerado essencial para a expansão do mercado global. A estratégia Cool Japan inclui planos para intensificar a repressão a websites que distribuem ilegalmente anime e mangá gratuitamente em várias línguas. O governo alerta que parte das receitas publicitárias destes sites pode ir para sindicatos criminosos, classificando a situação como uma “crise” que requer “ação intergovernamental rápida”.
Takaichi e o legado de Abe
Sanae Takaichi é a primeira mulher a ocupar o cargo de primeira-ministra do Japão, tendo sido eleita em outubro de 2025. Considera-se sucessora política de Shinzo Abe, antigo primeiro-ministro que foi seu mentor.
A primeira-ministra tem demonstrado um estilo diplomático confiante e teatral. Anteriormente, durante a cimeira Future Investment Initiative em Tóquio, surpreendeu investidores globais ao citar uma frase de Attack on Titan para exigir confiança na recuperação fiscal do Japão.
A sua taxa de aprovação inicial foi notável, sondagens de outubro de 2025 atribuíram-lhe 71% de aprovação geral, subindo para 80% entre eleitores com idades entre 18 e 39 anos, segundo o jornal Yomiuri Shimbun. Esta popularidade entre os mais jovens pode estar relacionada com a sua defesa pública de indústrias culturais que esta geração valoriza.
As declarações de Takaichi representam um reconhecimento formal ao mais alto nível político de que o anime transcendeu o estatuto de mero entretenimento para se tornar um ativo diplomático estratégico. Ao designar a indústria de conteúdos como uma das 17 áreas estratégicas nacionais, o governo japonês sinaliza que está disposto a investir recursos significativos para garantir que o país mantém a sua liderança global neste setor.
A estratégia contrasta com a de outros países asiáticos. A Coreia do Sul, por exemplo, investiu 76,2 mil milhões de ienes em 2024 para apoiar a sua indústria de conteúdos, um valor significativamente superior ao orçamento japonês de 25,2 mil milhões de ienes. Os novos planos governamentais visam reduzir esta diferença e encorajar estratégias mais ousadas de expansão internacional.
O governo continua a posicionar o anime e os meios relacionados, incluindo cinema, jogos, mangá e música, como uma indústria central estratégica. A visão é clara, transformar o Japão não apenas num produtor líder de conteúdo de animação, mas numa superpotência cultural cujo soft power rivaliza com o seu peso económico.
Takaichi prometeu identificar apoios específicos para facilitar a distribuição internacional. Resta saber se este compromisso político se traduzirá em mudanças práticas que beneficiem não apenas as grandes empresas, mas também os estúdios independentes e os criadores individuais que são a espinha dorsal criativa da indústria.









