
Hoje, 4 de abril de 2026, completam-se exatamente vinte anos desde que a TV Tokyo transmitiu o primeiro episódio de Gintama. Duas décadas é muito tempo para qualquer anime e ainda mais para um que, pelos padrões da indústria, nunca deveria ter chegado tão longe.
O anime é baseado no mangá homónimo de Hideaki Sorachi, publicado na Weekly Shōnen Jump a partir de dezembro de 2003. A premissa é, à sua maneira, absurda, o Japão do período Edo foi invadido por alienígenas chamados Amanto, os samurais foram proibidos de usar espadas e o protagonista, Gintoki Sakata, trabalha como prestador de serviços ocasionais para pagar a renda, que raramente consegue pagar. Ao lado de Shinpachi Shimura e de Kagura, uma jovem Amanto de força descomunal, os três aceitam todo o tipo de trabalhos numa cidade que mistura quimonos com naves espaciais.
Produzido pela Sunrise e inicialmente dirigido por Shinji Takamatsu, o anime que estreou na TV Tokyo a 4 de abril de 2006 foi exibido ao longo de 201 episódios até março de 2010. Seguiram-se várias continuações, spin-offs e filmes, a série acumulou no total 367 episódios ao longo de mais de uma década, com o arco final a terminar em outubro de 2018.
O que torna esta data particularmente curiosa é que a sobrevivência de Gintama nunca foi garantida. Sorachi chegou a acreditar que o mangá seria cancelado antes de atingir os dois volumes. As primeiras tiragens esgotaram, mas a editora Shueisha considerou as vendas “fracas”, e o próprio autor confessou mais tarde que só compreendeu verdadeiramente a dimensão do que criara quando viu a reação do público no Jump Festa Anime Tour de 2005. Foi essa experiência que o deixou “sobremaneira satisfeito” com a adaptação animada que se seguiu.
A receita de Gintama nunca foi simples de descrever. É um anime que pode dedicar três episódios seguidos a paródia pura, com quebras da quarta parede, referências a outros títulos da Shonen Jump e humor que não poupa ninguém, e depois mudar abruptamente para um arco de acção com uma carga emocional que poucos shonen conseguem igualar. Sorachi descreveu a essência da série como “pintar suavemente a vida de um perdedor, com uma humanidade genuinamente apelativa”.
Vinte anos depois, a franquia está mais ativa do que seria de esperar. Em agosto de 2025, durante o Gintama Multiverse Festival realizado em Tóquio, foi anunciado um novo filme de compilação que readapta o arco Yoshiwara in Flames, originalmente transmitido nos episódios 139 a 146 do anime. O filme, dirigido por Naoya Ando com supervisão de Yoichi Fujita e guião de Taku Kishimoto, estreou nos cinemas japoneses a 13 de fevereiro de 2026, com sessões em 57 salas IMAX em todo o país. Não se trata de uma simples remontagem, o filme inclui cenas novas, personagens que não participavam no arco original e uma reformulação visual concebida para grande ecrã, com formato cinemascope 2.35:1.
O próprio Sorachi reagiu ao anúncio com o cinismo afectuoso que caracteriza a sua comunicação pública. O autor escreveu: “Já passaram seis anos desde que o mangá terminou, e ainda assim a série continua a ser explorada como ferramenta para o dinheiro de bolso de adultos gananciosos. Ver isto espremido até perder todo o sabor faz-me pensar que é o sonho de qualquer autor — enquanto olho para o meu extrato bancário”.
Ao contrário de outras franquias que simplesmente regressam para capitalizar a nostalgia, Gintama tem mantido uma presença criativa consistente. Ainda em outubro de 2025, estreou o anime Gintama: Class 3Z’s Ginpachi-sensei, adaptação da novel escrita por Tomohito Osaki com ilustrações de Sorachi. E em abril de 2026,uma coincidência difícil de ignorar, o autor regressa à Weekly Shōnen Jump com uma nova série intitulada 2-nen B-gumi Yūsha Destroyers, a sua primeira serialização em cerca de sete anos desde o fim de Gintama.
Há qualquer coisa de exemplar na trajetória deste anime. Nasceu de uma sugestão de editor que Sorachi não quis seguir à risca, quase foi cancelado antes de ganhar força, acumulou mais de 73 milhões de cópias do mangá em circulação e construiu uma comunidade de fãs que, passadas duas décadas, ainda aguarda novos projetos com genuíno entusiasmo. O humor envelhece mal na maior parte dos casos. Gintama é uma das raras exceções, provavelmente porque o que o sustenta não é apenas a comédia, mas as personagens que vivem dentro dela.










Eu amo essa obra 💜