O icónico cirurgião sem licença de Osamu Tezuka ganhou uma nova vida num formato inesperado. O estúdio DLE revelou Black Jack Yanen, uma série de anime de episódios curtos que reimagina a personagem clássica num registo puramente cómico. A primeira metade do título em japonês, Yanen, não possui tradução direta mas funciona como uma expressão típica do dialeto de Osaka.
O primeiro episódio ficou disponível a 2 de janeiro, com novos episódios a serem lançados semanalmente às quintas-feiras. A série marca mais uma adaptação do universo criado por Tezuka, desta vez com uma abordagem radicalmente diferente das versões anteriores.
Sorotani, conhecido pelos seus trabalhos em Dokonjo Gaeru Yanen e Pochars, assume múltiplas funções na produção. O criador é simultaneamente diretor, argumentista e o único ator de voz da série. Yūki Nonaka completa a equipa como diretor de linha da animação.
A produção representa uma aposta invulgar para o estúdio DLE, que tem no seu portefólio títulos como Eagle Talon e colaborações com grandes marcas. Fundado em 2001, o estúdio tornou-se conhecido pelas suas produções em Flash animation e pela versatilidade de projetos que vão desde anime até conteúdo live-action.
Black Jack Yanen contrasta fortemente com o tom sério das adaptações anteriores do mangá original. A série clássica de Tezuka acompanha Kuroo Hazama, um cirurgião brilhante que opera sem licença e cobra valores exorbitantes pelos seus serviços. Apesar da sua reputação controversa, Black Jack salva consistentemente pacientes que outros médicos consideram casos perdidos.
O mangá original foi publicado na revista Weekly Shōnen Champion da editora Akita Shoten entre 1973 e 1983. A série começou como um projeto comemorativo dos 30 anos de carreira de Tezuka, previsto inicialmente para apenas cinco episódios. O sucesso inesperado transformou-a numa das obras mais longas do autor.
No site oficial de Osamu Tezuka, a sinopse descreve o mangá original da seguinte forma: “Este é um drama médico em que um cirurgião sem licença, mas talentoso, chamado Black Jack, é a personagem principal. Dotado de uma excelente técnica cirúrgica, Black Jack salva sempre milagrosamente doentes gravemente doentes e aqueles que estão à beira da morte. Mas cobra sempre um preço exorbitante pelas suas cirurgias, razão pela qual a sua presença é rejeitada nos meios médicos”.
A personagem Black Jack vive discretamente numa clínica isolada no meio do nada com a sua assistente Pinoko, cuja vida salvou. Pacientes que outros médicos abandonaram procuram-no como última esperança.
O legado de Black Jack estende-se por décadas de adaptações. O mangá vendeu mais de 47,66 milhões de cópias no Japão e ganhou o primeiro prémio Kodansha Manga Award na categoria shōnen em 1977. A adaptação anime de Osamu Dezaki, Black Jack: The Movie, conquistou o prémio de Melhor Filme de Animação nos Mainichi Film Awards de 1996.
Para além das versões em anime, Black Jack inspirou múltiplas adaptações live-action no Japão. A personagem teve um filme em 1977, uma série em 1981, um especial em 2000 e outro em 2011. A mais recente série live-action estreou em junho de 2024.
O universo expandido inclui ainda obras de outros criadores. Young Black Jack, por exemplo, explora os anos de formação da personagem, enquanto várias histórias curtas e spin-offs mantêm o interesse pelo cirurgião misterioso ao longo dos anos.
Principais adaptações de Black Jack
- 1973-1983: Mangá original na Weekly Shōnen Champion
- 1993-2000: OVA com 10 episódios dirigida por Osamu Dezaki
- 1996: Black Jack: The Movie (vencedor do Mainichi Film Award)
- 2004-2006: Série com 61 episódios
- 2006: Black Jack 21 (continuação direta com 17 episódios)
- 2011: Black Jack Final (2 OVAs)
- 2015: Young Black Jack (anime sobre os anos de formação)
- 2024: Nova série live-action
- 2026: Black Jack Yanen (série cómica curta)
Black Jack Yanen representa uma viragem radical no tom habitualmente sério das adaptações da obra de Tezuka. A abordagem cómica de Sorotani, combinada com o formato de episódios curtos semanais, sugere uma tentativa de apresentar a personagem icónica a um público novo através de uma linguagem visual e narrativa mais acessível.
A decisão de criar uma versão humorística de Black Jack pode parecer arriscada considerando o peso dramático da obra original, mas não é a primeira vez que personagens de Tezuka são reimaginadas em registos diferentes. O próprio autor tinha o hábito de usar o seu “star system” de personagens, fazendo-as aparecer em papéis variados através das suas diferentes obras.
Osamu Tezuka, para além de mangaka, era médico licenciado. O autor voltou a estudar materiais médicos quando começou a serialização de Black Jack, apesar de já possuir formação na área. Esta dedicação à precisão médica, combinada com a liberdade criativa de inventar doenças e tratamentos fictícios, tornou a obra numa referência tanto no entretenimento como na educação.









