Celebra o 21.º aniversário da adaptação animada de One Piece com este artigo

Foi a 20 de outubro de 1999, que estreava na Fuji TV, uma adaptação animada produzida pela Toei Animation que ninguém imaginaria que se tornaria um sucessor mais do que digno ao lendário Dragon Ball, uma das mais célebres séries anime de sempre e que acompanhou os lares japoneses por mais de uma década.

One Piece, partiu da genial mente de Eiichiro Oda, um mangaka fortemente influenciado pela já referida obra de Akira Toriyama. O autor quis honrar este valor até ao seu extremo, comprometendo-se mesmo à sua obra ser publicada na mesma revista que Dragon Ball. Podemos mesmo afirmar que Luffy herdou a sua tenacidade do seu próprio autor, porque Oda mesmo várias vezes negada a possibilidade de ingressar na Shounen Jump, não desistiu, lutou incansavelmente, e por fim conseguiu a tão desejada publicação.

One Piece poderia ter sido publicado noutra revista, se não fosse Dragon Ball

A história de One Piece, curiosamente não, evoca quaisquer valores japoneses, inicialmente até é bastante influenciada por elementos ocidentais, iria mais longe e rotularia que grande parte destes foram europeus. One Piece, conta a história de um lendário pirata conhecido por Gol D. Roger -modelado a partir das figuras históricas Olivier Levasseur e Henry Every-, que antes de ser executado aos olhos do público, anuncia que One Piece, um lendário tesouro que escondeu será o seu legado, e quem o encontrar poderá ser o seu titular e sucessor do titulo “Rei dos Piratas“. Não foi preciso muito tempo para piratas de todos os cantos do mundo içarem as velas e partirem ao sabor da aventura. Anos mais tarde encontramos Monkey D. Luffy, um rapaz de 17 anos que comeu uma fruta do diabo, e devido a esta consegue esticar o seu corpo como deseja. O grande sonho de Luffy, é encontrar o tesouro, e ser o sucessor de Gol D. Roger. O jovem sabe que esta não será uma tarefa fácil e para começar deve reunir uma tripulação. É com esta premissa, sonho e ambição que Luffy, abandona a sua aldeia natal e decide explorar os mares de East Blue.

Não é só na história que One Piece herda valores ocidentais. O seu traço e arte são bastante invulgares para moldes orientais. É certo que ao longo dos seus -atualmente- quase 1000 episódios que contou com diversas equipas de realização e esta evoluiu, mas grande parte dos seus elementos se mantêm inalteráveis. O traço é bastante inconvencional, ao passo de traços finos como é comum na maioria de séries anime, One Piece, apresenta uma arte bastante própria, vanguardista, e característica. Penso que este movimento partiu novamente da herança de Dragon Ball, pelo facto do autor também desejar criar uma arte identificativa, tal como é a de Toriyama, enquanto esta evoca valores ocidentais, para situar a sua obra no seu ambiente. Alguns testes registos são pelos púbicos nas suas personagens masculinas, sobrancelhas e lábios exagerados em algumas personagens femininas, desproporções exageradas, vestuário florido e práticas bizarras, como exemplo uma chávena de chá como chapéu!

One Piece, também é uma obra Shounen pouco própria das suas próprias raízes. Certamente que estamos na presença de um Battle Shounen, mas esta obra vai bem mais longe que simples lutas, e confrontos oculares. Um dos seus principais destaques claramente é o seu impressionante world building. Oda nesta apontamento criou um dos maiores e melhores mundos fictícios. As localizações por onde os Chapéus de Palha são peculiares, apresentam um ambiente e cultura muito próprios, e muitas no momento ou até mais tarde se interligam. A escrita de Eiichiro Oda, também conseguiu um feito pouquíssimo comum, diria mesmo inexistente não só em shounens ou em quase todos os media. É brilhante a forma como o autor de One Piece, consegue mesmo passados anos e anos manter coerência narrativa, evocar valores e personagens passadas e manter o interesse como se tratasse do seu primeiro ano de publicação. Dois destes grandes exemplos são a interação de uma personagem que passou quase despercebida e esquecida e Brook, o músico espadachim dos Chapéus de Palha, e a forma como Oda explicou o trajeto do samurai Kin’e mon, até onde Luffy e a sua tripulação o encontrou. Realmente é abismal a forma como Oda insere e retrata eventos passados sem perder coerência narrativa. É com base nesta riqueza, que o segundo grande elemento da obra vem ao de cima, as suas personagens.

Todas, absolutamente todas, têm um lugar e destaque neste mundo. Oda também criou um efeito bastante interessante para as mesmas, que embora não fosse novidade, conseguiu subir a fasquia simplesmente pela forma como foi escrito, e evocado fortemente desde então noutras obras de grande sucesso como Naruto. As personagens principais de One Piece, ao passo, de obras do seu tempo não fazem dos seus poderes o seu maior destaque, mas sim do seu passado trágico. Os traços e personalidade partem todos da tragédia que as suas personagens mergulharam. Quase todos estes eventos se passaram nas suas infâncias e evolvem a perda de alguém muito importante como amigos ou figuras paternas. É com base neste molde que as personagens inicialmente se estrearam. Estas não só ingressaram na tripulação com base na aceitação destes eventos, como de tempos a tempos ainda evocam os seus eventos na própria história. Sem surpresa, a obra de Eiichiro Oda, conta dezenas de eventos emocionais, que se tornaram alguns dos mais memoráveis e relacionáveis não só nesta como no anime em geral.

Quem ficou indiferente ao passado trágico da sorridente navegadora Nami? A tenacidade do sniper Usopp mesmo quando lutou de igual para igual contra o seu capitão Luffy num confronto impossível de triunfar? Ao intenso funeral do navio Going Merry, o desejo de viver da arqueóloga Nico Robin? Ou o cozinheiro Sanji proteger a vida do Luffy, se entregando ao inimigo, confrontando-o, para de seguida chorar intensamente a bordo da sua carruagem? Estes são apenas alguns exemplos de uma obra polvilhada de momentos do mais icónico neste media. Na minha ótica a adaptação anime, até arrebata uns pontos a seu favor neste ponto, pela forma como os demonstra e pela genial interpretação de todos os seus atores. Embora tivesse assistido a estas cenas anteriormente na sua versão original Manga, na versão animada tiveram sentimentos mais profundos, onde não escondo e chorei em alguns destes, simplesmente pela forma como todos os seus elementos – evento em si, banda-sonora e interpretação- se equilibram. Também a intimidade quando os revela aos espetadores produz um efeito de aproximação/relacionamento bem conhecido e reconhecido por todos os seus fãs. Mesmo devido a estes elementos e valores acima descritos, One Piece é na sua essência um Battle shounen. Contudo, saliento mais uma vez pela forma que foi escrito separa-se das muitas obras no género, muito por colocar o seu foco em elementos narrativos e foco nas suas personagens. É realmente difícil escolher o momento mais memorável no meio de dezenas.

O legado da obra estende-se bem mais além do que uma simples adaptação para o pequeno ecrã. No seu país de origem One Piece pode ser encontrado em cafés temáticos, parques de diversões e até estátuas espalhadas pela cidade natal do autor como forma de agradecimento pelo seu contributo na população. Além um grande autor, Oda é verdadeiramente uma pessoa muito humilde e de coração cheio.

Estátua de Luffy (One Piece) e companheiros em Kumamoto

Por estes e muitos mais valores esta data foi celebrada em todo o mundo, onde fãs manifestaram o seu carinho e dedicação por tudo o que a obra e a adaptação animada trouxeram às suas vidas.

Ainda não sabemos quantos episódios das aventuras dos Chapéus de Palha ainda nos restam, mas uma coisa é certa estaremos todos aqui para acompanhar cada momento até ao final desta intensa viagem que acompanhou grande parte das nossas próprias vidas.

Que momentos da adaptação animada criaram mais impacto para vocês?

Vindo de vários mundos e projetos, juntou-se à redação do Otakupt, pronto para informar todos os leitores com a sua experiência nas várias áreas da cultura alternativa. Assistiu de perto ao nascimento dos videojogos em Portugal, até à sua atualidade. Devora tudo o que seja japonês (menos a gastronomia), mas é também é adepto de grandes histórias e personagens sejam essas produzidas em qualquer parte do globo terrestre.