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    CEO da KADOKAWA defende que o anime deve focar-se no Japão (e não no mercado global)

    Takeshi Natsuno junta-se a Hideaki Anno e ao diretor de Sword Art Online na defesa da autenticidade japonesa

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    A KADOKAWA Corporation, uma das maiores produtoras de anime, mangá e conteúdo de entretenimento do Japão, acaba de reforçar uma posição que está a gerar debate aceso na indústria. Numa entrevista ao Nikkei publicada esta semana, o CEO Takeshi Natsuno defendeu que os criadores japoneses devem priorizar o mercado doméstico em vez de tentarem agradar audiências globais.

    Se criares conteúdo que vende no Japão, vai vender no estrangeiro“, afirmou Natsuno. “Podes criar obras únicas ao não comercializares com a mentalidade de ‘vamos fazer um mangá que vai vender [globalmente]’. É necessário criar uma grande variedade de propriedade intelectual sem comprometer a qualidade“.

    As declarações de Natsuno surgem apenas dias depois de Hideaki Anno, o criador de Neon Genesis Evangelion, ter feito comentários semelhantes numa entrevista à Forbes Japan. Anno foi ainda mais direto: “Lamento, mas é o público que tem de se adaptar”, disse o diretor, referindo-se às audiências ocidentais.

    Uma mudança de tom surpreendente

    O que torna estas declarações particularmente interessantes é o contexto. Em agosto de 2025, Daijo Kudo, Chief Anime Officer da KADOKAWA, tinha afirmado que a empresa precisava de produzir anime com temas também apreciados pelas audiências ocidentais. Apenas cinco meses depois, o CEO da empresa parece estar a defender exatamente o oposto.

    Esta aparente contradição reflete um debate mais amplo que está a acontecer dentro da indústria japonesa de entretenimento. Por um lado, executivos como Kudo veem o mercado global como uma oportunidade de crescimento massivo. Por outro, criadores como Anno e agora Natsuno argumentam que tentar agradar ao Ocidente pode diluir precisamente aquilo que torna o anime e o mangá únicos.

    A KADOKAWA não é uma empresa pequena. Fundada em 1945 como Kadokawa Shoten para “revitalizar a cultura japonesa através da publicação” no pós-guerra, a empresa fundiu-se com a Dwango em 2014 e tornou-se num conglomerado de entretenimento com participações em estúdios anime, editoras, imobiliário e muito mais. É membro da Motion Picture Association of Japan e é um dos quatro maiores estúdios de cinema do país.

    Entre as suas subsidiárias estão nomes como FromSoftware (criadora de Elden Ring), Spike Chunsoft (Danganronpa) e estúdios anime como o Doga Kobo. A empresa também publicou franquias massivas como Re:Zero, The Rising of the Shield Hero e Konosuba. Quando alguém nesta posição fala, a indústria ouve.

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    Natsuno não está sozinho nesta posição. Tomohiko Ito, o diretor das duas primeiras temporadas de Sword Art Online, deu uma entrevista ao Daily Shincho esta mesma semana onde argumentou que “focar demasiado no ‘apelo global’ pode levar ao fracasso”.

    Aquilo que os japoneses pensam que será popular globalmente provavelmente não vai agradar às pessoas no estrangeiro“, explicou Ito. “No entanto, a ênfase na correção política é forte na América, por isso podem pensar ‘o Japão ainda produz obras onde meninas seminuas lutam, o tipo de coisas que seriam consideradas estranhas na América do Norte?’“.

    A perceção de Ito é que o sucesso global do anime aconteceu precisamente porque os criadores japoneses não tentaram agradar ao Ocidente. “Acredito que o [anime] conseguiu tornar-se num bom substituto para [Hollywood]“, disse, citando a greve da WGA e o impacto da COVID-19 como fatores que enfraqueceram a influência de Hollywood.

    Hideaki Anno foi ainda mais longe na sua crítica. Na entrevista à Forbes Japan, o diretor de 65 anos afirmou que nunca criou nada tendo em mente as audiências estrangeiras. “Só consigo fazer coisas domésticas. As empresas de cinema são rápidas a dizer ‘pensa no mercado estrangeiro’, mas pessoalmente, esse não é o meu objetivo“, explicou.

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    Anno acrescentou que as suas obras são criadas através do pensamento japonês e, portanto, são “naturalmente difíceis de compreender em qualquer língua que não seja o japonês”. “É um drama sobre pessoas impulsionadas por emoções nascidas do pensamento japonês. Por isso, acredito que pode ser aceite no estrangeiro por aqueles que compreendam isso. Mas não nos podemos adaptar para eles. Lamento, mas pedimos ao público que se adapte a nós“.

    O criador de Evangelion também citou o Studio Ghibli e Hayao Miyazaki como exemplos de criadores que produzem exclusivamente para o público doméstico, apesar do sucesso global massivo das suas obras. “Esse tipo de coisas pode ser tratado mais tarde. Concordo. Deixem as pessoas de negócios tratarem de converter a obra num produto e vendê-la“, afirmou Anno.

    A tensão entre autenticidade e expansão global

    O que está realmente em jogo neste debate? Para Natsuno, a resposta é simples: qualidade e diversidade. Na entrevista ao Nikkei, o CEO elogiou a “diversidade na narrativa” do Japão e os “vários canais para descobrir novos criadores”. A sua visão é que esta diversidade só existe porque os criadores não estão a tentar agradar a um mercado global homogeneizado.

    Vários produtores de anime têm tentado encontrar um equilíbrio, incorporando temas apreciados no estrangeiro ou adaptando obras originais estrangeiras, mas através da lente de contadores de histórias japoneses. A coprodução de Solo Leveling pela Crunchyroll, baseada num manhwa sul-coreano mas produzido por um estúdio japonês, é um exemplo perfeito desta abordagem.

    No entanto, a posição de Natsuno sugere que mesmo esta abordagem híbrida pode ser problemática. “É necessário criar uma grande variedade de propriedade intelectual sem comprometer a qualidade”, disse, sugerindo que qualquer compromisso criativo, mesmo bem-intencionado, pode enfraquecer o produto final.

    Esta filosofia não é nova para Natsuno. Em 2023, durante uma apresentação em Taiwan, o CEO expressou inveja pelos criadores taiwaneses porque o governo de Taiwan investe significativamente nas indústrias criativas. “Invejo-vos, criadores taiwaneses. [Em contraste] o Japão não apoia muito. Maioritariamente as indústrias sem fins lucrativos. Apenas coisas aborrecidas. Não anime. Não mangá. E um pouco de dinheiro para cinema“.

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    A política do politicamente correto

    Um tema recorrente nestas entrevistas é o “politicamente correto” ocidental. Tanto Ito quanto Anno mencionaram-na como uma força que poderia potencialmente limitar a criatividade japonesa se os criadores começassem a autocensurar-se para agradar às audiências ocidentais.

    Esta não é a primeira vez que Natsuno enfrenta controvérsia relacionada com este tópico. Em julho de 2021, o CEO teve de pedir desculpas publicamente depois de comentários que fez num programa de televisão sobre conteúdo sexualmente estimulante em mangá. Na altura, disse que “muito mangá japonês não passa na revisão da Google ou da Apple”, sugerindo que as editoras deveriam adaptar-se.

    A reação foi imediata e feroz. Ken Akamatsu, criador de Love Hina e Negima!, comentou que embora não acreditasse que Natsuno tivesse a convicção de tentar convencer outras grandes editoras a censurar os seus mangás, uma pessoa com o seu nível de influência tem o poder de impor autocensura na KADOKAWA. O romancista Mikito Chinen tuitou: “Se [a censura] acontecesse, então o mangá e o anime perderiam toda a sua predominância. O mangá e o anime são bem recebidos no estrangeiro porque foram criados com liberdade e sem consideração pelo que vai funcionar bem lá“.

    Natsuno acabou por pedir desculpas e enfatizou que os seus comentários não tinham influência sobre a direção da empresa, aceitando um corte salarial de 20% durante três meses como penitência. Quatro anos depois, parece ter mudado completamente de posição, ou pelo menos aprendeu qual é a posição que os criadores japoneses querem ouvir.

    O que isto significa para o futuro do anime

    As declarações coordenadas de Natsuno, Anno e Ito sugerem que está a formar-se um consenso entre figuras influentes da indústria japonesa, o caminho para o sucesso global não passa por tentar agradar ao Ocidente, mas sim por manter-se fiel à identidade cultural japonesa.

    Esta filosofia já está a ser testada. A KADOKAWA continua a expandir-se globalmente, a empresa adquiriu recentemente a editora italiana de mangá Edizioni BD/J-Pop Manga e tem parcerias estratégicas com a Sony e a CyberAgent. A questão é se esta expansão será acompanhada por uma mudança no tipo de conteúdo produzido, ou se a empresa conseguirá crescer globalmente enquanto mantém a sua identidade criativa japonesa.

    Natsuno tem sido claro sobre querer que a KADOKAWA se torne numa empresa orientada pela tecnologia. “A minha visão era que, ao abraçar totalmente a tecnologia, poderíamos simplificar os fluxos de trabalho e libertar os nossos criadores para se focarem no desenvolvimento de histórias verdadeiramente originais“, disse numa entrevista anterior. “Vejo a tecnologia e a criatividade como as duas rodas que impulsionam a KADOKAWA, cada uma apoiando a outra enquanto avançamos em direções novas e emocionantes“.

    Mas mesmo com todo o foco na tecnologia e eficiência, Natsuno parece ter chegado à conclusão de que a autenticidade cultural não pode ser sacrificada no altar do crescimento global. “Se criares conteúdo que vende no Japão, vai vender no estrangeiro“, esta frase resume perfeitamente a sua filosofia atual.

    Helder Archer
    Helder Archer
    Fundou o OtakuPT em 2007 e desde então já escreveu mais de 60 mil artigos sobre anime, mangá e videojogos.

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