Já alguma vez paraste para pensar porque é que existem tantos personagens de anime e videojogos com um penteado e estilo tão característicos?
Este penteado chama-se “Regent” e foi extremamente popular no Japão durante as décadas de 1960 e 1970. A sua origem está ligada à forte influência da cultura americana na pós-segunda guerra mundial e foi inspirada por filme pelo Grease e pela imagem icónica de Elvis Presley. Os jovens japoneses apropriaram-se deste visual ocidental e adaptaram-no à sua própria cultura para criar uma identidade visual única.

Quem mais adotava este estilo eram jovens rebeldes, muitas vezes associados aos bosozoku, grupos de motociclistas que circulavam em conjunto como forma de expressão social e identitária. Apesar de não serem necessariamente criminosos, eram vistos dessa forma por uma sociedade japonesa tradicionalmente conservadora, que os associava a delinquência, confusão, irreverencia e desordem.
Com o passar do tempo, especialmente nas décadas de 1980 e 1990, este estilo desapareceu gradualmente das ruas, mas foi preservado e reinventado no anime, mangá e videojogos. Os criadores dessas obras pertenciam à geração que tinha crescido a observar estes grupos e transformaram-nos num arquétipo narrativo, o jovem rebelde de aparência dura, mas com valores humanos fortes. Assim, o penteado “Regent”, a postura corporal rígida e a atitude desafiante tornaram-se símbolos imediatos deste tipo de personagem.
Exemplos claros deste arquétipo incluem Yusuke Urameshi e Kuwabara Kazuma, de Yu Yu Hakusho, ambos delinquentes escolares com comportamento agressivo à primeira vista, mas com um profundo sentido de justiça e lealdade. Outro caso emblemático é Josuke Higashikata de JoJo’s Bizarre Adventure: Part 4 – Diamond is Unbreakable, cujo “Regent” metaforicamente exagerado funciona quase como uma homenagem direta à estética bosozoku e à cultura rebelde dos anos 80. Também Jotaro Kujo, da mesma série, incorpora este estilo através da sua postura fria e imponente, mas com um boné e um gakouran.

O gakuran é um uniforme escolar tradicional japonês para estudantes do sexo masculino, usado sobretudo no ensino básico e secundário. As suas origens remontam a 1873, quando foi oficialmente adotado em escolas por todo o Japão como parte do processo de modernização do sistema educativo durante a era Meiji.
O termo gakuran resulta da junção de “gaku” (estudante) e “ran” (Ocidente) e reflete claramente a sua inspiração na indumentária militar ocidental do século XIX, em particular no Waffenrock prussiano e em uniformes militares franceses da época. Esta escolha simbolizava disciplina, ordem e progresso, valores considerados fundamentais para a formação dos jovens japoneses.
O uniforme é composto, de forma clássica, por um casaco pesado de mangas compridas, geralmente preto ou azul-escuro, com colarinho alto e botões frontais. Estes botões costumam apresentar o emblema da escola para ser identificado como sinal de identidade e respeito institucional. O conjunto é completado por calças pretas de corte direito e um cinto preto. O calçado não faz parte do uniforme oficial mas permite o uso de sapatos sociais, ténis ou outro tipo de calçado adequado. Embora tradicionalmente fosse acompanhado por um boné, este acessório tornou-se cada vez menos comum nos dias de hoje.
O gakuran generalizou-se após a sua adoção por instituições de prestígio, tais como a Teikoku University e a Escola da Família Imperial, em 1879 e consolidou-se como o modelo padrão masculino durante décadas. Com o passar do tempo, o uniforme ultrapassou o espaço escolar, tornou-se um elemento marcante da cultura popular japonesa e apareceu frequentemente em anime, mangás, videojogos e até deu o salto para o cinema. Pode ser visto em obras como, o já citada JoJo’s Bizarre Adventure, School Rumble, Kuroko no Basket, e Mob Psycho 100, muitas vezes também é estilizado com variações de cor, padrões a preto e branco ou riscas, adaptadas à estética da obra.

O gakuran também influenciou bandas de rock japonesas, tais como os KISHIDAN, que incorporaram o visual nos seus espetáculos. Em alguns casos, o gakuran foi adaptado para o público feminino, com marcas como a Village Vanguard a comercializar versões alternativas, tais como o Seishun Gakuran One-Piece, um uniforme inspirado no uniforme que cobre todo o tronco. De forma semelhante, o uniforme feminino tradicional de lugar a uma saia comprida e à cara tapada como uma máscara, esteve na origem da subcultura sukeban, (rapariga delinquente), que ficou conhecido pela sua imagem rebelde e linguagem arrogante que foi popularizada em diversas obras de inúmeros géneros, tais como Urusei Yatsura, Sukeban Deka, Crayon Shin-Chan, KILL LA KILL, e jogos como Rival Schools (Moero! Justice Gakouen). Se desejarem também poderei aprofundar esta abordagem noutro artigo brevemente.

Uma das tradições mais conhecidas associadas ao gakuran é a oferta do segundo botão do casaco a alguém especial ou uma declaração amorosa, normalmente no final de um percurso escolar. Este gesto simboliza o coração, simplesmente por estar mais próximo deste orgão. A origem deste costume é incerta, mas pode estar relacionada com uma obra do escritor Taijun Takeda ou com práticas da época da guerra, onde os soldados antes de partir ofereciam botões do uniforme como recordação às pessoas que lhes eram mais queridas.
Atualmente, muitas escolas japonesas adotaram uniformes mais modernos, tais como blazers com gravata, mas o gakuran ainda continua a ser utilizado em instituições mais conservadoras. Adicionalmente, mantém uma forte presença no cosplay e na moda, até é possível encontrar versões autênticas através de lojas japonesas especializadas e online.
Também em obras mais recentes, tais como Tokyo Revengers, esta herança cultural continua viva através de personagens como Manjiro “Mikey” Sano e Draken, que representam a evolução moderna do estereótipo, ou seja, líderes carismáticos, visual intimidante e um forte código de honra. Mesmo personagens mais frágeis, como Takemichi Hanagaki, reforçam a ideia de que, por trás da aparência rude, existe sempre humanidade e empatia. Também o passar do tempo, os bozoku adotaram a moda de pintarem os seus cabelos de loiro para se destacarem de uma sociedade conservadora, por isso a Chichi de Dragon Ball Z, associa os Super Saiyans a delinquentes e o facto Takemichi na sua juventude ter o cabelo loiro. Também caso não saibam explica o facto da personagem Ken Masters dos jogos da série Street Fighter ter o cabelo loiro e as sobrancelhas pretas.

Contudo, na cultura japonesa, este estereótipo não é visto de forma puramente negativa. Pelo contrário, tornou-se uma parte importante do imaginário coletivo. Por isso, a maioria dos personagens com este visual em anime e jogos revela ter um bom coração e demonstra lealdade, sacrifício e um forte sentido de justiça. Este contraste reflete um ideal muito presente na cultura japonesa, força exterior aliada a bons sentimentos interiores.









