Devil’s Line — Ep. 1: … o que?

Há algum tempo atrás, já deve ter aproximadamente dois anos ou mais, eu lancei uma análise comentando sobre o que me fazia tirar proveito e ver como algo genuinamente bom o anime e também a obra original dos mangás, Vampire Knight. O fato de abordar um pouco mais do custo “humano” que o Vampiro deveria correr em seus cotidianos e sobre quais seriam os sacrifícios emocionais e físicos para ele e suas futuras cobaias ou a falta delas em meio aos seus relacionamentos que os motivavam a esconder suas motivações por detrás de quem eles eram, além de – emendado a isso, uma construção mais íntima de relacionamentos entre eles e aqueles ao seu redor de uma maneira quase como se fizéssemos esquecer quem eles são e pelas suas sedes constantes por sangue. Eu fiquei extremamente surpreso – apesar de notar algumas referências estéticas, narrativas e também de construções visuais relacionadas a Tokyo Ghoul – sobre o quão Vampire Knight esse anime de Devil’s Line acabou me lembrando.

O Anime ele começa de uma maneira que parece não esconder sobre quais serão os temas que ele tentará abordar, o que se esconde por detrás desse mundo, o que nós veremos em potencial daqui para frente porém ele te faz acreditar que ele poderá ser uma coisa até que ele utiliza das suas expectativas te movendo para uma ambientação mais urbana, calma e tranquila a ponto de construir aquele ambiente, aquelas pessoas e contextualizar o porque de nos importarmos com aqueles personagens que ao contrário de muitas séries de televisão ou principalmente animes: São apenas pessoas, elas não possuem nada de comum porém possuem dilemas humanos e preocupações não mundanas mas que de certa forma, estão interligadas com o que veremos ser debatido dentro das próprias “criaturas” que iremos nos encontrar nesse anime que é as presenças dos Vampiros.

Devil’s Line ele apresenta uma ótima apresentação do clima que percorrerá essa obra e que notamos cada vez mais claramente sobre ela conseguir representar de uma maneira muito interessante como que deve ser dentro dos Vampiros a briga constante dos seus desejos internos para os seus externos que é a luta pelo controle dos seus desejos por sangue e carne humana entrando em conflito constante com o seu desejo de não machucar as pessoas ao seu redor. E a animação faz isso de uma maneira interessante onde tudo fica banhado por vermelho, apesar da crueldade visual que vemos ser bem representada pelas ações do “vilão” daquele momento até então, nós vemos aos poucos o quão desconfortável aquilo acaba sendo para ele também, criando uma excelente correlação com o que será mostrado no fechamento desse episódio. E isso se deve ao fato de o quão excelente é a direção e o controle de ritmo desse anime. Os momentos que nós temos são muito bem utilizados, seja o começo quando temos a protagonista conversando com seus companheiros de classe e o que parece ser uma pessoa mais íntima a ela – não amorosamente, sentimos que aquele seguimento possuí um propósito narrativo muito funcional quando chegamos no contexto final para fechar a opinião sobre o episódio e que me deu uma impressão sobre o quão bem o tempo de tela das cenas desse anime possuem, porque todos são muito bem utilizados e servem propósitos de construção narrativas importantes. Mas além disso, você precisa de um controle de ritmo muito bom e constante sobre a ideia que aquilo quer te passar e eu sinto que o anime consegue controlar isso muito bem.

As cenas possuem um controle e um ritmo de “crescendo” muito interessante, principalmente um pouco depois. Nós temos um começo mais agitado para mostrar como será a ambientação em torno daquele mundo, daqueles personagens e em torno do que será debatido nesse anime – uma discussão que já tivemos em diversos ou praticamente todo anime de Vampiro ou obra que se preze a falar de Vampiro, mas que consegue executar seu serviço bem e que logo depois dele, nós temos uma construção lenta porém objetiva e bem direta no ponto de quais serão as figuras que centraremos a nossa atenção através do seu dia a dias que justamente sobre o que é dito durante esses tempos de tela, possuem uma relação direta com a trama que eu acredito que percorrerá todo esse anime. E tudo isso? Em míseros ou um pouco mais do que cinco minutos. Para logo depois disso? Nós recebermos cenas de perseguição e sequências de fuga que mostram outro ponto positivo do que também acaba se tornando um ponto negativo…

A Animação durante as sequências de fuga e perseguição se mostram primorosas no que eu acredito ser uma sensação de folego e batimentos a mil por hora, uma busca pela velocidade e uma busca por emergência. Apesar de curtas, temos cenas de luta que possuem coreografias interessantes – principalmente pelo ponto de que nós temos uma figura que busca pela fuga se comportando como alguém que não quer ser pego e está lutando por sua liberdade e seus golpes representando o seu sentimento de urgência, ao mesmo tempo que temos a pessoa – e as pessoas – que estão atrás dessa figura e que se mostram com sede de persegui-lo e tudo isso sendo animado de uma maneira bem ágil e fluída. Ao mesmo tempo, isso causa um sentimento de estranheza justamente pela maneira como eles decidiram executar isso. Frames inteiros são dedicados para sentirmos de que eles estão executando todas as passadas suficientes para que suas corridas sejam genuinamente rápidas e essa é uma forma que talvez seja nova ou pouco utilizada para transpor uma sensação de velocidade e urgência por parte desses momentos que acabaram sendo… estranhos de se acompanhar? Eu ainda estou indeciso se isso é algo bom ou ruim, por isso decidi encaixar nas críticas mas no futuro talvez acabe me surpreendendo.

Em relação a animação no seu âmbito geral, ela está com uma qualidade descente e que corresponde bastante as propostas das suas cenas, graças as direções por trás delas e o quão bem ritmizado acaba sendo o anime, dando a perceber muito bem onde estão os custos de produção ao seu decorrer. Porém, uma coisa deve ser dita: Não é um anime que você acompanhará pela qualidade de traços e sobre o quão bonito ele pode ser, muito pelo contrário. Ele não é um anime bonito e nem bem traçado, ele apenas corresponde as expectativas do que nós temos atualmente, não sendo algo feio muito menos bonito – ele é o que nós já vemos toda temporada quando parado para ser analisado com os genéricos da temporada. Alinhado a isso está os contornos dos personagens que dão uma sensação de que talvez não deve ter tido uma dedicação tão grande em relação a estética visual do anime, sobre os seus traços propriamente dito, acabam passando uma sensação de serem muito “qualquer coisa”, ao menos foi o que eu senti.

Eu não poderia deixar de ressaltar o quão lindo é essa trilha sonora! Seja nos seus momentos de ação que possuí sequências que trabalham a favor da construção das cenas bem dirigidas e ritmizadas. Nos momentos calmos onde temos uma sensação de que o foco está mais para a situação e menos no que está sendo discutido, por mais que ambos se correlacionem. Seja nos momentos onde temos um sentimento de medo e de insegurança ao nosso redor – o que deve ser dito: Para um anime que não tente ser terror mas tenta te causar um sentimento de medo e insegurança, ele consegue realizar isso muito bem! Você está quase na pele da personagem sentindo que algo de errado está acontecendo, olhares não seguros estão ao nosso redor, um sentimento de urgência – como eu falei muitas vezes, acaba sendo transmitido principalmente nessas cenas e a trilha sonora consegue executar o seu papel com excelência nessas partes também. Apesar disso…

… a maioria desses momentos foram por água abaixo comigo no justo momento que ele começa a entrar em dilemas muito explícitos sobre o que ele quer tratar, entrando com monólogos e músicas tristes sobre as situações sofríveis que os vampiros passam ou simplesmente por brincadeiras em relação a preocupações amorosas e que acabam por me tirar daquele sentimento tão bem construído de suspense que havia sido feito. Talvez seja uma das intenções contidos nesse anime que é a de estar constantemente brincando com expectativas e controle de ritmo, como eu havia comentado? Eu não descarto essa possibilidade, principalmente pelo que acaba por vir no final do episódio e que é a justificativa por trás do nome dessa postagem.

Nós entraremos na área de Spoilers – por mais que seja o Episódio 1, por isso aconselho que vocês parem de ler por aqui e vão testemunhar as maluquices que esse anime acabou gerando na minha cabeça no seu término.

O que aconteceu nessa última cena e POR QUE? Eu ainda estou com um misto de sentimentos dentro de mim porque estou na dúvida se eu acabo por gostar ou não desse encerramento. Por que esse miserável beijou ela? É descrito anteriormente durante o episódio que o apetite sexual de todos os Vampiros são impulsionados e isso na mitologia dos Vampiros em si já está estabilizado, por estarem ligados ao sangue e a conexão humana. Mas o que acontece aqui é uma coisa estranha pois a partir do contato visual que o Investigador – que é revelado ser um Vampiro – com o sangue da protagonista, ele não somente lambe o sangue como acaba por beijar a menina (aliás, eu não sei bem se eu vejo essa cena como algo que a menina não está querendo, porque antes de termos a revelação do beijo nós temos a personagem tentando se afastar do investigador, mas é novamente uma tentativa bem próxima de fazer uma cena de estupro romantizada e… eu meio que estou cansado dessa porcaria nos animes, sabe?

Eu estou vendo de longe que esses dois personagens vão acabar por terminar juntos no fim desse anime ou no fim da obra caso ela tenha mais episódios do que o planejado, mas é nítido que se esse é o começo do relacionamento, eu espero que ele seja trabalhado e que aquilo não seja a protagonista sendo moldada a gostar daquele rapaz a partir daquela cena, porque é nitidamente um estupro e não importa o contexto por trás daquilo, sendo um Vampiro que viu sangue e decidiu dar uma chupada nela. E devido a isso eu estou na minha animação de “Stun” agora, eu não vou fazer um encerramento, considerações finais e sequer vou dizer se vale a pena assistir esse anime… estou apenas “existindo” perante isso agora.

Até a Próxima.