A estreia de Paris ni Saku Étoile (L’étoile de Paris en fleur / Étoile Blossoming in Paris) nos cinemas japoneses, a 13 de março, deu a Goro Taniguchi uma plataforma para dizer algo que claramente queria dizer há algum tempo. Em entrevista ao Tokyo Shimbun, o diretor conhecido pelo aclamado Code Geass: Lelouch of the Rebellion falou sem rodeios sobre o rumo da indústria que o formou: “Nos últimos anos, as adaptações tornaram-se compreensivelmente a norma porque é mais fácil garantir lucro com elas, mas acredito que se ficarmos apenas com adaptações, a animação japonesa está perdida”.
A afirmação não é um ataque às adaptações em si, Taniguchi é cuidadoso a deixar isso claro. O que o preocupa é outro fenómeno, a gradual extinção do anime original como modo de produção paralelo e saudável. Para ilustrar o argumento, recorre a uma metáfora musical, os criadores que trabalham em adaptações funcionam como arranjadores, não como compositores. Executam com competência uma obra que já existe; não criam de raiz. O problema, diz ele, não é arranjar, é que a “composição” está a desaparecer, e com ela a capacidade da indústria de se renovar. “Acredito que quando a vaga de adaptações eventualmente diminuir, outras obras devem ter permanecido intactas. É precisamente por causa da diversidade que as obras sobreviventes de cada era se tornam o mainstream da seguinte. Acredito que esta é a força da animação japonesa. Por essa mesma razão, quero deixar para trás títulos originais”.
Paris ni Saku Étoile é a concretização prática dessa convicção. O filme, uma produção do estúdio Arvo Animation (Kowloon Generic Romance, Irina: The Vampire Cosmonaut) com argumento de Reiko Yoshida, autora de Violet Evergarden e A Silent Voice, e design de personagens original de Katsuya Kondo, habitual colaborador do Studio Ghibli em filmes como Kiki’s Delivery Service, acompanha duas meninas japonesas no início do século XX: Fujiko, aspirante a pintora, e Chizuru, apaixonada pelo ballet. As duas encontram-se em Yokohama e acabam por perseguir os seus sonhos juntas em Paris, à sombra da Primeira Guerra Mundial.
O projeto esteve em desenvolvimento durante a pandemia de COVID-19 e representa a primeira colaboração entre Taniguchi e Kondo.

Taniguchi foi também deliberado nas escolhas temáticas do filme. Sem isekai. Sem protagonistas com poderes desproporcionais. Sem mechas. Sem ficção científica. A decisão foi intencional, queria alcançar uma audiência mais ampla precisamente afastando-se das fórmulas que dominam o anime comercial atual. É uma posição que, vinda de alguém cuja carreira inclui também One Piece Film: Red, tem um peso particular, Taniguchi não fala de fora da indústria, mas de dentro dela.
Nos últimos anos, a proporção de anime originais face a adaptações de mangá, light novels e jogos caiu de forma consistente. Segundo dados da Anime Industry Report de 2024 da Associação Japonesa de Animação, as adaptações representam atualmente mais de 80% dos títulos produzidos por temporada, uma tendência que se acentuou especialmente após 2015. A lógica económica é compreensível, uma adaptação chega ao mercado com uma base de fãs pré-existente, tornando o retorno do investimento mais previsível. Um anime original é uma aposta, e as apostas, numa indústria com margens cada vez mais apertadas, são cada vez mais raras.








