
O ano de 2025 testemunhou algo extraordinário: o anime não está apenas a crescer, está a dominar. Demon Slayer: Infinity Castle arrecadou mais de 700 milhões de dólares nas bilheteiras mundiais, enquanto Chainsaw Man: Reze Arc ultrapassou os 100 milhões em apenas algumas semanas. Mas Tomohiko Ito, o aclamado diretor responsável por franquias como Sword Art Online e Erased, tem um aviso a fazer: este sucesso pode ser uma armadilha mortal.
Em entrevista ao Daily Shincho, Ito não hesitou em apontar o que considera ser o verdadeiro motivo do crescimento explosivo do anime. Para o diretor, a ascensão japonesa não é coincidência, mas sim consequência direta do enfraquecimento da indústria ocidental. Ito afirmou: “Tendo em conta a greve da WGA de há uns anos e a influência do Covid, parece que o poder de influência das películas de Hollywood se tem vindo a enfraquecer“. Na sua visão, o anime tornou-se um “bom substituto” para preencher esse vazio de conteúdo.
O momento que mudou tudo
O ponto de viragem, segundo Ito, aconteceu em 2020, quando Sony adquiriu o Crunchyroll por 1,175 mil milhões de dólares. Foi esse movimento, consolidado posteriormente com a expansão da Toho no Reino Unido, que detonou a explosão de popularidade global que se vê hoje.
No entanto, o diretor de Sword Art Online toca num ponto sensível que divide a indústria: criar conteúdo a pensar no estrangeiro pode ser o caminho mais rápido para o fracasso: “Tem havido muitos casos em que focar-se demasiado no ‘apelo global’ levou ao fracasso”.
O diretor não tem medo de abordar a questão da diferença cultural: “A ênfase na correção política é forte nos Estados Unidos, por isso podem pensar: ‘O Japão é o único país que ainda produz obras em que meninas com pouca roupa lutam’, o tipo de coisas que seriam consideradas estranhas na América do Norte“, explicou. Para Ito, essa liberdade criativa e essa diferença é, ironicamente, o que atrai o público que procura algo distinto do que Hollywood oferece.
A posição de Ito não está sozinha. Hideaki Anno, o lendário criador de Neon Genesis Evangelion, declarou recentemente na Forbes Japan que ele “nunca fez nada a pensar na audiência estrangeira”. Para Anno, a prioridade deve ser criar algo interessante para o Japão; se o mundo aceitar, é um bónus extra, mas nunca o objetivo principal. “As produtoras apressam-se a dizer ‘pensa no mercado estrangeiro’, mas esse não é o meu objetivo“, afirmou Anno.
O veterano realizador foi ainda mais longe nas suas declarações: “Obras criadas através de um pensamento japonês são, afinal, difíceis de entender noutra língua que não seja o japonês. Se houver pessoas que consigam entender isso, penso que pode ser bem recebido no estrangeiro, mas não podemos ajustar do nosso lado. Peço desculpa, mas é a audiência que tem de se adaptar“.
Criador de Evangelion recusa criar para audiências globais: “O público é que terá de se adaptar”
Um ano histórico
Os números de 2025 não mentem. Demon Slayer: Infinity Castle tornou-se o filme japonês mais lucrativo de todos os tempos a nível mundial, enquanto o anime representou metade do top 10 de bilheteiras no Japão. Mesmo produções de médio orçamento como Detective Conan: One-Eyed Flashback ultrapassaram os 147 mil milhões de ienes.
A questão que permanece é se este momento representa um novo paradigma ou simplesmente um pico passageiro. O que parece claro, pela voz de veteranos como Ito e Anno, é que qualquer tentativa de diluir a identidade única do anime para agradar mercados ocidentais pode ser o início do fim desta era dourada.
Enquanto estúdios como a MAPPA continuam sob críticas pelas condições laborais que impõem aos funcionários, e Hollywood luta para reconquistar relevância, o anime encontra-se numa encruzilhada, manter a autenticidade que o tornou globalmente apelativo ou ceder à pressão de se adaptar aos gostos estrangeiros.
A aposta de Ito e Anno é clara. O público ocidental que procura algo diferente de Hollywood não quer um anime ocidentalizado. Quer exatamente o que sempre quis: anime, sem concessões.








