O OtakuPT teve a oportunidade de conversar com, Lucas Cisterne, artista francês de arte de fundo (backgrounds) e compositor de imagem (fotografia) que esteve recentemente envolvido na produção de Kimetsu no Yaiba, Fate/stay night: Heaven’s Feel II e do jogo God Eater 3.

Lucas é um artista daltónico, que no último ano da sua graduação em animação conseguiu um estágio no estúdio Ufotable onde depois ficou a trabalhar. Posteriormente, ele tornou-se freelancer e está atualmente a trabalhar em vários projetos anime no Japão.

Nesta entrevista falamos um pouco sobre as suas tarefas na fase de “Fotografia” na produção de anime, o seu tempo na Ufotable e futuras ambições.


Estúdios como a Ufotable, a Kyoto Animation e Shaft são bem conhecidos pelos seus brilhantes departamentos de “Fotografia”. Algum destes estúdios tiveram influência no teu percurso de artista de desenho de fundo e operador de “fotografia”?

  • Sim, sem dúvida. Tanto a Ufotable, como a KyoAni e mesmo a Comix Wave, esses três estúdios têm uma maneira de pensar muito fotográfica, ao ponto de irem um pouco longe demais. No entanto, existe claramente uma intenção, que eu gosto bastante. Quando eu era mais novo, eu era um nerd por câmaras, por isso, é realmente interessante usar técnicas que aprendi na altura agora na composição de animes.
  • Sobre os backgrounds, eu penso que no final, na indústria de anime o objetivo comum é ser realista. Depois depende do Diretor de Arte (美術監督) qual o caminho a seguir e como vai ser o resultado final, sendo assim, se quiserem criar fundos realistas para animação, o Japão é o sítio ideal para estar.

Já que ingressaste numa escola de animação, nunca te passou pela cabeça em te tornares num animador?

  • Sim, na Pivaut School eu tive primeiramente a formação académica, em anatomia, perspetiva e cor. Eu sempre estive mais confortável em desenhar fundos e em finalizar imagens.
  • Então, eu especializei-me em animação, eu gostava de animar personagens, mas sempre me foi mais natural pintar e compor. Para mim, levaria imenso tempo (a animar) para terminar com um resultado “decente”, então eu preferi deixar essa parte para os mais talentosos nessa área.

A propósito, eu vi a tua curta de graduação “Growing Up” e tenho de dizer que está muito boa! Logo de caras, os fundos realistas sobressaíram ao meu olhar.

  • Muito obrigado! Na altura, eu estava numa fase de “Your Name”, acho que isso é pouco óbvio (risos). Mas a história é realmente pessoal, e eu consegui cumprir todo o que queria e ainda mais, por isso, fico sempre feliz quando existem pessoas que gostam.

Eu adorei a história da curta!

Para finalizar a tua graduação tu escolheste candidatar-te para estágio em estúdios de animação no Japão, tiveste colegas a considerar essa mesma opção ou foi apenas uma ideia tua?

  • Ah sim, logo que eles me viram a fazer, eles entenderam que era possível. No entanto, vários fatores tornaram mais difícil para eles tentarem o mesmo. Eu tive imensa sorte em ficar na Ufotable enquanto eles me pagavam pelo meu trabalho durante o estágio. Muitos estúdios apenas aceitam estagiários sem oferecer a devida remuneração, e não nos apoiam a estabelecermos-nos no Japão.
  • Mas, de tempos em tempos eu vejo pessoas a tentarem o mesmo que eu, então eu penso que a tendência será para se tornar um hábito comum.
  • No entanto, claramente que se tu não souberes falar pelo menos o mínimo de japonês, irá ser bastante complicado em ingressar num estúdio, mesmo que eles tenham algum membro do staff que fale inglês, isso é muito raro.

Isso é fantástico da parte da Ufotable, eles até tinham um membro da staff que falava inglês, certo?

  • Sim, de inicio tinham, depois eu tornei-me no membro do staff que falava inglês (risos).

Sobre o tempo que passaste na Ufotable, como foi a tua integração lá? Tiveste sempre alguém a guiar-te dentro do estúdio?

  • Sim, de começo foi a Heidi, ela falava inglês e estava a terminar o seu estágio quando entrei. Portanto, em duas semanas ela treinou-me rapidamente (risos). Depois eu fiquei sobe a supervisão da Yoshida-san, ela apenas falava japonês e por isso ouve muitos desentendimentos no início, mas no final, correu tudo bem.

E tu trabalhaste sempre no estúdio, certo?

  • Sim, eu trabalhei sempre nos estúdios desde que estou no Japão.

 Alguma história engraçada que tenhas do teu tempo lá?

  • Tenho umas quantas, mas não tenho bem a certeza se posso partilhar (risos).

Ha-ha, entendo…

Que tipo de técnicas assimilaste, ou melhor dizendo, que processos é que aprendeste e melhoraste a executar. Ufotable é inigualável em ambientes em 3D e a sua composição misturando 2D e 3D perfeitamente, e claro, em animação no geral. Como é que isso influência a tua aprendizagem?

  • Eu ganhei um melhor entendimento de um storyboard, e a intenção de um animador e artista de fundos. Para depois dar um pouco do meu “toque” pessoal. É sempre um desafio complicado, e por isso, eu adoro fazê-lo.
  • A Ufotable influenciou-me de maneira a que eu consegui-se melhorar e organizar melhor o meu processo de trabalho. Mas claro, eu também aprendi a complementar melhor o 2D e 3D juntos, eles fazem-no de uma forma maravilhosa

Muitas pessoas confundem a fase de fotografia/composição com a fase de coloração numa produção, para aqueles com dúvidas qual é o teu fluxo de trabalho como artista de fundo (backgrounds) e composição de imagem.

  • A fase de composição de imagem é a última na linha de produção (depois das fases de clean-up e coloração), tu recebes todos os materiais (frames) já finalizados e o teu trabalho é fazê-los ficar com o melhor aspeto visual possível. O meu fluxo de trabalho depende muito da produção em que esteja e do estilo pretendido, mas geralmente requer muitas tentativas e aprendizagens.

Além das indicações do diretor de arte, quais são os pedidos mais comuns que recebes nas notas dos animadores?

  • Normalmente o que eu recebo dos animadores são referências para os “pontos de foco”, a velocidade e posição de objetos em movimentos. No entanto, sei que alguns animadores vão longe ao ponto de escolherem o tipo de render que desejam nos seus desenhos.

Temos assistido recentemente a uma grande restrição pelas estações de TV com todo o tipo de censura e escurecimento de tela em cenas mais “vistosas” como as que podemos assistir no anime Symphogear XV. Imagino que esse também seja o teu trabalho, executar as restrições pedidas pelas estações de TV. Qual é a tua opinião sobre o tema.

  • É costume nós fazermos duas versões, uma para TV, e outra para o lançamento da VoD/DVD/Blu-ray. Portanto, sim, esse é o nosso trabalho também. A minha opinião é que desde que não prejudique a história, tudo bem por mim. No entanto, deixa-me triste quando um artista, mesmo que inconscientemente, seja censurado.

Tens alguma preferência nos projetos que escolhes participar? Ou não te importas muito desde que possas por em prática o teu talento?

  • Se eu gostar da história, automaticamente irei gostar de trabalhar no projeto. E farei o meu melhor para fazê-lo ficar com o melhor aspeto possível.

Eu vi que já dirigiste um par de “curtas”, dirigir é algo que tencionas seguir futuramente, talvez almejar a uma posição de diretor de arte/fotografia?

  • Talvez, um dia. Sou ainda muito novo e inexperiente. No entanto, é algo que quero experimentar pelo menos uma vez.

Como do costume nas entrevistas que faço, eu tenho de perguntar se tens algum projeto que estejas a trabalhar ou que já concluíste que possas revelar.

  • Eu estive em vários projetos que irão ser lançados no final deste mês e inicio de outubro, mas eu não os posso revelar porque o meu nome ainda não foi anunciado (risos).

Já espera por isso para ser sincero (risos). Vou aguardar ansiosamente pelos teus futuros projetos!

  • Obrigado!

Comentário final para os fãs que queiram apreciar mais da arte de fundo e fotografia em anime, mas que não sabem por onde começar.

  • É raro encontrar coisas que expliquem bem esse tipo de coisa, mas cada quadro é uma pintura que eu recomendo. Caso contrário, tentem analisar a maioria dos filmes e animes que veem, entre outras coisas que vão vendo.

Para finalizar, tens alguma(s) dica(s) que possas dar para aspirantes artistas que desejam seguir um percurso similar ao teu?

  • Eu recomendava aprenderem japonês o mais cedo possível. Trabalharem nas vossas habilidades básicas como anatomia, perspetiva, cor, composição, etc… E tentei várias coisas, podem copiar de trabalhos já existentes, é a melhor maneira de aprender, mas não roubem! Desfrutem do que fazem, e claro, durmam bastante. O vosso corpo é a vossa ferramenta, por isso, tratem-no bem. É Tudo!

Obrigado pelo tempo que disponibilizaste para esta entrevista!


Podem encontrar o Lucas em @SRTeki no twitter e ver mais dos seus trabalhos na sua ARTSTATION.