
Há uma dissonância enorme no estado atual do anime. O mercado global atingiu 36 mil milhões de dólares em 2025, e mais de 50% dos assinantes da Netflix viram pelo menos um anime em 2024. Ao mesmo tempo, oito estúdios de animação japoneses fecharam portas ou declararam insolvência só até setembro do ano passado, o que representou o pior registo nesse período em pelo menos uma década. É um “boom sem lucros”, um paradoxo que quem está dentro da indústria conhece bem.
Mitsuhisa Ishikawa, presidente da Production I.G, o estúdio por detrás de Ghost in the Shell, Haikyu!! e Psycho-Pass, falou sobre este paradoxo numa conversa com San-e Ichii, diretor executivo da VIPO (Visual Industry Promotion Organization), publicada no início deste ano. O que disse não foi reconfortante.
“A bolha atual do anime é uma crise”
Para Ishikawa, o crescimento acelerado da indústria não é apenas uma oportunidade, é também uma armadilha. Os orçamentos por episódio dispararam. O número de produções aumentou de forma significativa. E os preços de venda subiram rapidamente. Na sua leitura, tudo isto aponta para um processo de seleção natural que está prestes a acontecer:
“Com base na situação atual, penso que haverá um processo de eliminação. A bolha atual do anime levou a um aumento de obras e a uma subida rápida dos preços de venda, o que é, na verdade, uma crise. Acredito que, através deste processo de eliminação, algumas empresas vão consolidar-se até certo ponto e crescer”.
Mas o diagnóstico mais preocupante não é esse. Ishikawa vai mais longe e aponta para o que considera ser o verdadeiro risco existencial para o Japão no panorama do entretenimento global:
“No mercado global, o anime tornou-se generalizado graças aos serviços de streaming como a Netflix e a Disney, abrindo ‘oportunidades para deixar brilhar pedras em bruto’. Existem excelentes produtores e criadores em todo o mundo, por isso, se o Japão não cultivar talentos capazes de competir a nível global, penso que a indústria de anime japonesa será eliminada. Dito isto, desenvolver talentos é apenas uma parte do processo de crescimento, por isso, a menos que surjam pessoas do Japão capazes de desenvolver negócios a nível global e transformar esse talento em dinheiro, a tendência não vai acelerar, e as duas rodas da indústria não vão conseguir funcionar“.
Criadores versus investidores
Há outro ângulo neste problema que Ishikawa também identifica, a tensão crescente entre quem faz os animes e quem os financia. Em anos recentes, os orçamentos por episódio mais do que duplicaram. Os valores atuais vão dos 18 aos 300 milhões de ienes por episódio, o equivalente a entre 112 mil e 1,9 milhões de dólares. Esta amplitude reflete um mercado extremamente polarizado, onde os títulos de topo recebem investimentos sem precedentes e os do segmento intermédio ficam cada vez mais sem espaço.
Ishikawa reconhece que esta escalada é boa para os criadores. Para os investidores, já não é assim tão simples: “Em anos recentes, não só o número de obras mas também os orçamentos mais do que duplicaram. Isto é uma oportunidade para os criadores, mas penso que está a tornar-se bastante difícil para os ‘investidores’. Penso que no futuro vamos assistir a um fenómeno em que haverá uma seleção também ao nível dos preços“.
A Production I.G ocupa uma posição peculiar nesta equação, é simultaneamente criadora e investidora. O estúdio não se limita a produzir; integra comités de produção, detém direitos de propriedade intelectual e participa na distribuição. Essa dupla condição dá a Ishikawa uma visão privilegiada, e talvez por isso a sua leitura seja simultaneamente mais matizada e mais sombria do que a de quem está apenas de um dos lados.
O que Ishikawa descreve não é um fenómeno isolado. A falta de animadores especializados é um estrangulamento real na produção de grandes séries. O salário médio continua baixo. E a entrada agressiva de plataformas como a Netflix e a Crunchyroll, que controlam hoje grande parte da distribuição internacional, deslocou o poder negocial fora do Japão.
A China não está à margem desta conversa. Os estúdios chineses de animação, chamados donghua, já não são meros subcontratados; estão a desenvolver propriedade intelectual própria, com custos de produção que rondam um terço dos japoneses. E o mercado interno chinês de animação está projetado para crescer de 2,24 mil milhões de dólares em 2024 para 4,6 mil milhões em 2030.
É neste contexto que o aviso de Ishikawa ganha peso. A questão não é se o anime vai continuar a crescer, vai. A questão é quem vai controlar esse crescimento, e se o Japão terá capacidade para o fazer em vez de se limitar a produzir conteúdo para distribuição de outros.
A conversa com Ishikawa, disponível no site da VIPO, vai além do diagnóstico da indústria. O presidente da Production I.G fala também sobre a importância de Maki Terashima-Furuta na presidência da Production I.G USA, sobre as condições que impôs a Quentin Tarantino para participar em Kill Bill, sobre a sua filosofia na construção do estúdio, e sobre os momentos que marcaram o seu percurso pessoal, incluindo o divórcio, a preparação para a entrada em bolsa e a pobreza na infância. É um documento raro de alguém que, há mais de 35 anos, está no centro de uma das indústrias criativas mais influentes do mundo.








