
Houve um momento específico em que ficou claro que a Seedance 2.0 tinha ultrapassado uma linha. Um realizador irlandês chamado Ruairi Robinson publicou no X um vídeo de 15 segundos, gerado com apenas duas linhas de texto, que mostrava versões de Tom Cruise e Brad Pitt a lutar num cenário pós-apocalítico. O clipe acumulou 3,2 milhões de visualizações. Rhett Reese, argumentista dos filmes Deadpool, respondeu diretamente: “Odeio dizer isto. Provavelmente acabou para nós”.
A Seedance 2.0, desenvolvida pela ByteDance, a empresa chinesa que detém o TikTok, foi lançada a 12 de fevereiro de 2026 e rapidamente foi reconhecida como um dos modelos de geração de vídeo por inteligência artificial mais avançados até à data, disputando o topo com o Sora 2 da OpenAI, o Veo 3.1 da Google e o Kling 3.0 da Kuaishou. A ferramenta está disponível em modo texto-para-vídeo e imagem-para-vídeo, gerando clipes de 15 segundos. Para já, o acesso é restrito a utilizadores chineses através da app Jimeng AI, mas a integração com o CapCut, o editor de vídeo da ByteDance amplamente usado fora da China, foi anunciada para breve.
O problema não demorou a tornar-se evidente. Além do vídeo de Cruise e Pitt, as redes foram inundadas de clipes com personagens dos universos Marvel e Star Wars, cenas recriadas de Titanic, Stranger Things, O Senhor dos Anéis, Shrek e, no que diz respeito à indústria anime, personagens de One Piece e Dragon Ball, entre outros. Um criador de conteúdo partilhou uma comparação lado a lado de uma cena do filme F1, de 2025, e uma recriação gerada pela Seedance, afirmando que a IA tinha “refeito a filmagem mais cara… por 9 cêntimos”.
A resposta da indústria foi rápida e coordenada. A 13 de fevereiro, a Disney enviou uma carta de cessação e desistência à ByteDance, acusando a empresa de ter pré-carregado a Seedance com o que descreveu como “uma biblioteca pirata dos personagens protegidos por direitos de autor da Disney, Star Wars, Marvel e outras franquias Disney, como se a cobiçada propriedade intelectual da Disney fosse clip art de domínio público gratuito”. O advogado da Disney, David Singer, escreveu: “O assalto virtual à propriedade intelectual da Disney por parte da ByteDance é deliberado, generalizado e totalmente inaceitável”. No sábado seguinte, a Paramount Skydance enviou a sua própria carta de cessação e desistência, desta vez citando South Park, Star Trek, O Padrinho, SpongeBob SquarePants, Tartarugas Ninja, Dora, a Exploradora e Avatar como propriedades infringidas.
A Motion Picture Association (MPA) condenou publicamente a ByteDance, com o seu presidente e CEO Charles Rivkin a afirmar: “Num único dia, o serviço de IA chinês Seedance 2.0 envolveu-se na utilização não autorizada de obras americanas protegidas por direitos de autor em grande escala. Ao lançar um serviço que opera sem salvaguardas significativas contra infrações, a ByteDance está a desconsiderar a lei de direitos de autor bem estabelecida que protege os direitos dos criadores e sustenta milhões de empregos americanos”. O sindicato de atores SAG-AFTRA juntou-se à condenação, classificando a situação como “infração flagrante” que inclui “a utilização não autorizada das vozes e imagens dos nossos membros”, acrescentando: “O Seedance 2.0 desrespeita a lei, a ética, os padrões da indústria e os princípios básicos do consentimento”.
Do Japão chegou uma frente diferente mas igualmente significativa. A NAFCA (Nippon Anime Film Culture Association), associação fundada em 2023 e dedicada a melhorar as condições da indústria do anime, enviou uma consulta formal sobre direitos de autor à ByteDance. Para além disso, o governo japonês abriu uma investigação própria sobre potenciais violações de direitos de autor ligadas aos vídeos gerados pela ferramenta com personagens anime.
A 16 de fevereiro, a ByteDance respondeu com uma declaração enviada a vários meios de comunicação, incluindo a CNBC, a Associated Press e o South China Morning Post: “A ByteDance respeita os direitos de propriedade intelectual e ouvimos as preocupações relativamente ao Seedance 2.0. Estamos a tomar medidas para reforçar as salvaguardas atuais enquanto trabalhamos para prevenir a utilização não autorizada de propriedade intelectual e imagem por parte dos utilizadores”. A empresa pausou entretanto a funcionalidade que permitia aos utilizadores carregar imagens de pessoas reais, mas não divulgou quais os dados de treino que alimentam o modelo, nem especificou que salvaguardas concretas estão a ser implementadas.
A MPA emitiu uma declaração semelhante quando a OpenAI lançou o Sora 2, e a OpenAI acabou por reforçar as proteções de direitos de autor e assinar um acordo de licenciamento com a Disney, que passa a permitir o uso de personagens das franquias Star Wars, Pixar e Marvel no seu gerador de vídeo. A ByteDance não indicou se está aberta a uma abordagem semelhante.
O que aconteceu com a Seedance 2.0 foi descrito por vários meios como o “momento DeepSeek de Hollywood”, em referência ao modelo de linguagem chinês que no ano passado surpreendeu o setor tecnológico ao superar as principais empresas americanas em múltiplos parâmetros. A diferença é que aqui o impacto não se sente nos mercados financeiros, mas diretamente na capacidade da indústria criativa de proteger o que produziu.









