
O mercado internacional de anime continua a acelerar a um ritmo sem precedentes, ultrapassando o mercado doméstico japonês por uma margem cada vez maior. Segundo o Anime Industry Report 2025 da Association of Japanese Animations, divulgado durante o TIFFCOM, a indústria global atingiu 3,84 biliões de ienes em 2024, cerca de 25,1 mil milhões de dólares, representando um crescimento de 14,8% face ao ano anterior.
Os dados revelam uma tendência clara, enquanto o mercado doméstico cresceu apenas 2,8%, o mercado internacional registou um aumento de 26%. Esta foi a segunda maior taxa de crescimento anual desde que a AJA começou a compilar dados em 2002, apenas superada pelos 15,3% registados em 2019.
O mercado estrangeiro representou 56% do total, cerca de 14,25 mil milhões de dólares (2,17 biliões de ienes), enquanto as receitas domésticas japonesas alcançaram 10,97 mil milhões de dólares (1,67 biliões de ienes), correspondendo a 44% do total global.
A diferença de aproximadamente 3,28 mil milhões de dólares entre os dois mercados é particularmente impressionante quando comparada com o ano anterior. Em 2023, segundo, o mercado estrangeiro já tinha ultrapassado o doméstico, mas apenas por uma margem de 624 milhões de dólares. O fosso quase quintuplicou em apenas um ano.
Esta é a terceira vez desde 2020 que o mercado internacional supera o japonês. A primeira ocorrência deu-se em 2020, durante a pandemia de COVID-19, quando o confinamento global impulsionou o consumo de streaming. Em 2021, a situação inverteu-se temporariamente, mas desde 2022 que o mercado estrangeiro mantém a liderança e a distância continua a aumentar.
Streaming consolida domínio global
O crescimento explosivo do anime no estrangeiro deve-se, em grande medida, à popularização de plataformas de streaming globais como Netflix, Disney+, Crunchyroll e Amazon Prime Video. Estas plataformas democratizaram o acesso ao anime, tornando-o disponível simultaneamente em dezenas de países, um cenário radicalmente diferente de há uma década, quando os fãs ocidentais dependiam de distribuição física limitada ou de traduções amadoras.
A Netflix, em particular, tem apostado fortemente em anime. A plataforma revelou recentemente que mais de metade dos seus membros globais consome anime, e a audiência triplicou nos últimos cinco anos. Em 2024, foram visualizados mais de mil milhões de títulos de anime na plataforma.
Esta aposta culminou numa parceria estratégica entre a Netflix e o estúdio MAPPA, anunciada a 20 de janeiro de 2026. As duas empresas vão colaborar em novos projetos desde a fase de conceito até ao merchandising, com a Netflix a transmitir em exclusivo uma série de títulos originais produzidos pela MAPPA para audiências globais.
Manabu Otsuka, presidente e CEO da MAPPA, declarou: “Já trabalhámos com a Netflix em vários projetos no passado, mas esta parceria expandida baseia-se na crença fundamental da MAPPA em ser um estúdio independente, tanto criativa como comercialmente. Os estúdios de animação japoneses devem liderar proactivamente todas as etapas, desde a compreensão das necessidades do público global e desenvolvimento de projetos, até alcançar espectadores e expandir negócios relacionados”.
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Produção japonesa não acompanha o ritmo de vendas
Apesar do crescimento impressionante nas vendas globais, o lado da produção apresenta números mais modestos. O mercado de produção de anime, que acompanha apenas as receitas dos estúdios, excluindo merchandising e licenciamento, atingiu 466,2 mil milhões de ienes (cerca de 3,06 mil milhões de dólares) em 2024, um crescimento de 9,1% face a 2023.
Masahiro Hasegawa, editor-chefe do relatório da AJA, explicou que existe um desfasamento temporal de alguns anos antes que receitas de certas fontes, como streaming internacional, sejam refletidas nas receitas do lado da produção.
Este atraso sugere que os estúdios japoneses ainda estão a adaptar-se à nova realidade do mercado. Enquanto as plataformas de streaming e distribuidores internacionais lucram rapidamente com a crescente popularidade do anime, os criadores e animadores japoneses, frequentemente sobrecarregados e mal pagos, veem os benefícios chegarem mais lentamente.
Um estudo da Teikoku Databank revelou que 20,9% das empresas de produção viram as suas receitas diminuir em 2024, enquanto 41,8% permaneceram estáveis. O relatório nota que os custos de produção e despesas laborais disparam mais rapidamente do que o crescimento para muitos estúdios, e que embora produções de grande sucesso por empresas maiores justifiquem o aumento global, as pequenas e médias empresas têm menos probabilidade de colher os mesmos benefícios.
Geograficamente, a América do Norte e a Ásia continuam a ser os principais motores do crescimento internacional. A América do Norte foi responsável por 41% das receitas globais de streaming de anime (2,2 mil milhões de dólares), enquanto a Ásia contribuiu com 29% (1,6 mil milhões de dólares). O continente europeu, embora em crescimento, permanece consideravelmente atrás.
Governo japonês aposta em expansão cultural
Reconhecendo o potencial económico do anime, o governo japonês incluiu a indústria como um dos pilares da sua estratégia “New Cool Japan“. O objetivo é triplicar as vendas de conteúdo japonês no estrangeiro para 20 biliões de ienes (131,4 mil milhões de dólares) até 2033, partindo de aproximadamente 5,8 biliões de ienes (38 mil milhões de dólares) em 2024.
Esta meta de 3,7 vezes o volume atual reflete a confiança do governo na capacidade do anime, juntamente com mangá, videojogos, música e cinema, de se tornar uma exportação cultural dominante. Já existem discussões sobre incentivos fiscais para estúdios que contratem mais animadores, melhorias nas condições laborais da indústria e programas de formação para preparar a próxima geração de criadores.
Kazuko Ishikawa, presidente da AJA e também presidente da Nippon Animation, afirmou que o anime tornou-se um pilar central das exportações culturais e económicas do Japão. Acrescentou que a associação pretende melhorar ainda mais as condições da indústria para que criadores e estúdios possam continuar a produzir trabalhos de alta qualidade que ressoem com audiências em todo o mundo.
A indústria de anime tem crescido consistentemente todos os anos desde 2009, resistindo até à pandemia de COVID-19. O mercado duplicou de tamanho desde 2015 e é 3,5 vezes maior do que era em 2002, quando a AJA começou a compilar dados detalhados.
Se o ritmo de crescimento atual se mantiver, as projeções da AJA indicam que o mercado global poderá ultrapassar os 4 biliões de ienes (aproximadamente 26 mil milhões de dólares). Este seria mais um recorde histórico numa década de expansão sem precedentes.
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Desafios à vista para a indústria
Apesar dos números positivos, a indústria enfrenta desafios consideráveis. A escassez crónica de animadores qualificados no Japão levou alguns estúdios a subcontratar trabalho para outros países asiáticos, levantando questões sobre controlo de qualidade e sustentabilidade a longo prazo.
As condições laborais na indústria permanecem notoriamente difíceis. Animadores iniciantes no Japão ganham frequentemente salários abaixo do limiar de pobreza, trabalhando longas horas sem segurança no emprego. Vários relatórios nos últimos anos documentaram casos de esgotamento severo e problemas de saúde mental entre trabalhadores do setor.
Simultaneamente, o aumento da produção impulsionado pela procura das plataformas de streaming criou preocupações sobre saturação do mercado. Com dezenas de novas séries a estrear a cada temporada, tornou-se cada vez mais difícil para títulos individuais destacarem-se, exceto para as maiores produções de estúdios estabelecidos.
Questões de direitos de autor e pirataria também persistem. Apesar da disponibilidade crescente de anime legal através de serviços de streaming, sites de pirataria continuam populares em algumas regiões, privando criadores de receitas merecidas.









