Os problemas de Digimon Adventure 2020 e como um produto na série poderá resolvê-los

Agora que Digimon Adventure 2020, atingiu um efeito que previa e, ao mesmo tempo, não gostava que acontecesse, tenho todo o prazer de partilhar este pedaço de texto que uns tempos já tinha intenções de o redigir para todos os leitores do Otakupt, deixando sair cá para fora o que muitos sentimos com esta nova versão de Digimon Adventure, e como pode ser “salva” por intermédio de outro produto e elementos da série original. Para tal teremos de começar pela génese de tudo, a sua primeira série.

Digimon Adventure foi uma série anime criada em 1999 por Akiyoshi Hongo – baseada num dispositivo semelhante ao Tamagotchi – que esteve em exibição praticamente por todo o mundo. À semelhança de séries lendárias da Toei Animation como Dragon Ball ou Sailor Moon, também conseguiu um feito pouco comum, o de expandir-se exponencialmente além do seu público alvo. No nosso país os monstros digitais criaram um sem fim de projetos e ambições. Desde dobragens amadoras, comunidades, e até duas edições de eventos nacionais denominados de Odaiba Memorial Day, que tal como a série original, emularam e evocaram os acontecimentos vividos na mesma.

O grande motor porque conseguiu cativar pessoas de todas as idades, foi em grande parte devido à sua escrita. Sejamos sinceros Digimon Adventure, foi criada com base no público infantil-juvenil, e na venda de brinquedos. A Toei poderia ter tomado a via mais simples, e apostar numa narrativa sem grandes desenvolvimentos apenas com o fim de vender os seus produtos. Felizmente foi bem além desses valores, e atribuiu uma escrita bem mais profunda e cativante até para um público adulto. Digimon Adventure pode facilmente interpretada por qualquer criança, contudo muitos dos seus assuntos mais profundos são de natureza adulta. O dilema emocional de uma criança adotada, divórcios, a corrupção social criada pelos media, e até várias referências bíblicas como o 666, os 4 Cavaleiros do Apocalipse, ou a luta de um anjo contra um anjo caído que foi abolido e se tornou no Diabo. Esta é apenas uma lista inicial, nas séries seguintes estes registos atingem novas dimensões e atingem outras doutrinas, tais como o budismo ou o Xintoísmo.

Outra das grandes – diria mesmo enormes – qualidades, está no seu fluxo narrativo. Digimon Adventure, evoca o termo aventura bem mais além do que um simples titulo. A série flui numa vertente muito próxima de um RPG. As ameaças são sempre crescentes, existe sentimento de urgência, e cada criança adquire novos poderes para os seus parceiros com a descoberta de Crests, um conjunto de emblemas que se encontram dispersos no mundo digital. Cada representa uma certa virtude, como a coragem, a inocência ou a amizade. Cada Criança escolhida é portadora de uma destas e que por alto resume a sua personalidade. Por exemplo, Taichi, a personagem principal é portador da Crest da coragem. Considerando que a maioria do público-alvo eram crianças, foi a escolha mais evidente. As Crests também simplificaram efetivamente a escrita de cada personagem nos seus elementos mais básicos, tornando-as muito mais fáceis de entender e até criar empatia. Certos personagens se tornaram mais memoráveis ​​justamente porque o público podia de certa forma participar na aventura ao ver a sua personalidade ao vivo no ecrã. Por outras palavras, permitiu que o público se envolvesse com a série de uma forma mais profunda, sem ter que entender totalmente os pontos mais delicados da obra.

Como já foi dito estas Crests, encontravam-se espalhadas por várias regiões do mundo digital, e a obtenção destas geralmente envolvia as Crianças Escolhidas a reconhecerem os seus erros, ouvir a sua coragem ou simplesmente aceitarem as suas condições. Estes acontecimentos como um grande núcleo contribuíram para um desenvolvimento de personagens simples mas efetivo. Alguns dos momentos mais memoráveis da série são justamente nessas situações. Por estes e muitos mais motivos é que Digimon Adventure, se tornou no molde para toda a franquia. Foram inúmeras as vezes que tentaram apelar os seus valores e desenvolvimentos através de séries como Digimon Frontier, Digimon Xroswars, ou até de continuarem suas aventuras com o elenco original numa fase mais adulta com Digimon Tri. Facto é que não conseguiram replicar o seu espírito e feitos, talvez a Toei Animation tenha ficado frustrada que usou como pretexto o 20º. Aniversário da série original e decidiu criar um reboot/remake na esperança de voltar a emular os feitos e acontecimentos decorrentes da mesma.

É aqui que chegamos a Digimon Adventure Adventure 2020, uma série exibida aos domingos no bloco Dream 9, e que pode ser acompanhada no ocidente através da Crunchyroll no mesmo dia de transmissão original. Não é que Digimon Adventure 2020 seja uma má série, longe disso, aliás até estaria a mentir-vos e não afirmar que até estou a gostar de a acompanhar, o problema é mesmo a forma como a sua narrativa flui e da forma como a faz. Como já foi referido o Digimon Adventure clássico, foi uma série que evocou o termo “aventura” na sua forma mais sincera. Existiu fluidez, existiu desenvolvimento e acima de tudo, existiu progressão, penso que seja neste último ponto que encontramos o maior elemento em falta neste reboot.

Na série original, a narrativa demorava o seu tempo a marinar, sem pressas estabelecendo razões mais credíveis quando os momentos-chave – que se tornaram mais icónicos –  surgiram no ecrã. Estes valores infelizmente foram completamente deitados por terra na nova versão. Para começar não existem Crests, ou seja, à partida o potencial de desenvolvimento de personagens não existe, e logo as evoluções para o nível Ultimate foram de uma simplicidade e de vazio imenso que até senti um misto de desilusão/pena e ironia ao assistir á forma de como foram realizadas. Longe vão tempos quando Taichi obrigou o seu parceiro a evoluir corrompendo o seu coração, e transforma-lo no Skull Greymon, para mais tarde escutar a sua coragem, salvar a sua amiga e obter o poder de Metal Greymon, ou então de Kyoushiro desligar-se do resto e perder-se no mar do conhecimento. Estes episódios foram completamente apagados e infelizmente as formas Ultimate foram regaladas a simples “Evoluções da semana”. As mesmas foram despachadas de uma forma surpreendente, não pudemos sequer sentir o seu sabor, não tiveram praticamente desenvolvimento nenhum e os pretextos foram do mais minimalista possível. Inclusive aconteceu um episódio caricato, como o Joe Kido alcançou o poder do Zudomon, foi um reverso de como Yamato recebeu o poder do Were Garurumon na série original, ou seja, considerou alguém como amigo e protegeu-o de uma ameaça. Existem outros acontecimentos em ‘tandem’ com a série original, mas que nunca atingiram o grau da mesma. Parece que tudo é demasiado familiar até para os Digi-Destinados, e é que aqui que chegamos ao nível Ultimate desta digi-tese, ou seja, tudo é escrito e desenvolvido de forma minimalista porque essencialmente já foi vivido.

Desde o início desta série que defendo que estamos perante outro caso muito semelhante ao jogo Final Fantasy VII Remake, ou seja, a mesma passa-se numa linha temporal alternativa, e alguma entidade parece estar a todo o custo evitar que decorram os acontecimentos da série original. Reparem quando os Digimon regressam ao mundo digital, que inexplicavelmente começam a chorar sem saber a causa ou efeito para tal registo. Simplesmente sentem nostalgia por algo, e no horizonte surgem as suas formas avançadas como se tratassem de uma memória distante. Também quando Yamato deixa Taichi enquanto tentam invadir um forte sente novamente aquele sentimento nostálgico e de déja vu, como se estivesse novamente a reviver acontecimentos passados. Piyomon, também afirma que esteve à espera de Sora por imenso tempo, evidentemente que as duas já se encontraram anteriormente. Para finalizar as Crests parecem já estão ativadas nos Digivices, ou seja, já foram encontradas e ativadas previamente. Todos estes efeitos equiparados ao imediato grau de familiaridade que as crianças e os seus parceiros adquiriram no início desta série levam-me a acreditar cada vez mais nesta teoria, facto é que nesta fase inicial fazem imenso sentido, e com base nestes que vamos Warp Digievoluir para o último nível deste testemunho digital.

SPOILERMON, SE NÃO VIRAM O FILME QUE REMATA O FINAL DA SÉRIE ORIGINAL DE DIGIMON ADVENTURE: DIGIMON ADVENTURE: LAST ADVENTURE KIZUNA, REGRESSEM AO ESTADO ROOKIE E NÃO LEIAM O RESTO DO TEXTO.

Se chegaram até aqui os meus parabéns porque assistiram a um dos finais mais dignos que Digimon Adventure poderia receber, acredito que tenha sido corajoso por parte da produção criar uma final tão intenso e emocionalmente especialmente quando acompanhamos esta maravilhosa série desde as várias fases da nossa vida. Aliás, a produção até sublinhou que Digimon Tri, foi produzido para os fãs da série que eram crianças na altura e hoje são adultos. Certamente devem lembrar-se que no filme, o tempo dos Digimon em breve chegará ao fim, porque os seus parceiros humanos tornaram-se adultos, as suas missões foram bem executadas, e o potencial de alguém apenas é imensurável enquanto ainda é uma criança. Antes de partirem os Digimon, referiram que voltariam a encontrar-se um dia, não importa quanto tempo terá se passado. Esta afirmação levam-me a crer que a linha temporal que as crianças vivem em Digimon Adventure 2020, é uma extensão desta afirmação. Quando assisti a este filme, imediatamente apercebi-me da última peça para decifrar o enredo minimalista que existe na nova versão de Adventure. Todas as teorias acima referidas encaixam-se na perfeição, ainda com o bónus de Piyomon estar ausente de todos na batalha final, talvez tenha ficado com parte de memórias passadas.

Espero sinceramente que esta teoria esteja certa, pois poderá imediatamente escalar todas as lacunas que Digimon Adventure 2020, está a viver e abrir potencial para uma série de desenvolvimentos dentro e fora do mundo digital. Espero que tenham gostado, continuem a assistir a Digimon Adventure 2020 nem que seja para verificar se estas teorias daqui a uns meses farão sentido, e claro não percam a exibição do filme Digimon em breve nos cinemas portugueses.