
Um dado salta à vista no mais recente relatório da International Intellectual Property Alliance entregue às autoridades norte-americanas, na Índia, quatro em cada dez sites de pirataria mais populares servem exclusivamente conteúdo japonês. Dos 25 sites ilegais com maior tráfego no país, 10 dedicam-se ao streaming de anime e outros sete à distribuição de mangá.
O fenómeno não se limita ao subcontinente indiano. A IIPA documentou a presença massiva de plataformas piratas de anime na China, Vietname e África do Sul, sugerindo que se intensifiquem esforços para colocar estes países numa lista de vigilância prioritária devido ao impacto que a distribuição ilegal está a ter na indústria do entretenimento.
O que explica esta explosão? Segundo a organização, o encerramento bem-sucedido de sites tradicionais de filmes e séries acabou por empurrar utilizadores e operadores para nichos menos vigiados. O anime e o mangá tornaram-se o novo alvo preferencial, preenchendo o vazio deixado pelas plataformas generalistas desmanteladas pela justiça indiana. Só na Índia, foram eliminados mais de 400 domínios piratas, bloqueando milhares de milhões de acessos. O problema é que essa vitória parcial apenas redirecionou o tráfego.
Os nomes que dominam o mercado negro
O relatório menciona especificamente várias plataformas. Na China, Allanime aparece como o principal foco. No Vietname, HiAnime e 9anime lideram as estatísticas de acesso. Já na África do Sul, quatro nomes concentram a atividade ilegal: HiAnime, 9anime, AniWatch e KissKH. Estes sites estão entre os 12 mais visitados do país e, juntos, geraram mais de 40 milhões de visualizações.
O HiAnime merece destaque à parte. Em janeiro passado, o site entrou oficialmente na lista anual de mercados notórios de pirataria do governo dos Estados Unidos. Na altura, era considerado o maior site de pirataria de anime do mundo. Os dados da SimilarWeb mostram que, apenas em agosto de 2025, a plataforma registou 244,2 milhões de visitas de 17,54 milhões de utilizadores únicos.
A Motion Picture Association, que representa gigantes como Disney, Netflix e Sony, classificou o HiAnime como prioridade máxima. No comunicado oficial, a MPA descreve: “Hianime, anteriormente conhecido como Zoro.to e Aniwatch.to, tem uma classificação global de 159 com 244,2 milhões de visitas de 17,54 milhões de visitadores únicos em agosto de 2025, de acordo com a SimilarWeb. O site fornece acesso a uma gama de conteúdo, especialmente conteúdo de anime. A localização de alojamento está mascarada usando o proxy reverso da Cloudflare, mas acredita-se que o site seja atualmente operado a partir do Vietname”.
A fatura: 30 mil milhões perdidos num ano
Os números financeiros ajudam a perceber a dimensão do problema. Em 2025, o Japão contabilizou perdas de cerca de 30 mil milhões de dólares diretamente relacionadas com pirataria de anime e mangá. É quase o triplo do valor registado em 2022, o que demonstra uma escalada preocupante.
O Ministério da Economia, Comércio e Indústria japonês divulgou dados ainda mais detalhados, as perdas com pirataria digital saltaram de 2 biliões de ienes em 2022 para 5,7 biliões em 2025. No relatório oficial, consta que “a partir deste ano fiscal, foi lançado um inquérito sobre o custo dos danos causados pela pirataria online de produtos de personagens falsificados, o que resultou no custo dos danos causados pela pirataria em 2025 ser de 4,7 triliões de ienes (aproximadamente 30,68 mil milhões de dólares)”.
Perante este cenário, agências como a CODA intensificaram operações globais contra sites ilegais. A pressão não se limita às plataformas de streaming. Recentemente, vários sites de mangá e light novels encerraram portas: Comick, Reaper Scans foram alguns dos que desapareceram.
Tribunais tentam acompanhar o ritmo dos sites espelho
Na Índia, apesar da inclusão na lista de vigilância dos EUA, há esforços concretos no terreno. O Tribunal Superior de Délhi aprovou medidas judiciais inovadoras para lidar com a natureza mutante dos sites piratas.
A mais relevante é a chamada injunção Dynamic+, aplicada contra sites como 9anime e AnimeSuge. Esta decisão permite que detentores de direitos, Netflix e Crunchyroll, por exemplo, bloqueiem automaticamente novos domínios espelho, redirecionamentos ou variações alfanuméricas assim que surgem, sem precisarem de voltar ao tribunal. Anteriormente, o mesmo tribunal tinha visado Vidsrc, uma infraestrutura técnica que alimenta centenas de portais de streaming ilegais.
O problema é que estas decisões ficam confinadas à jurisdição de Délhi. O relatório sublinha a necessidade de aplicar medidas semelhantes noutros estados indianos. Além disso, mesmo com ordens judiciais aprovadas, muitos domínios continuam ativos meses depois das injunções. Os réus ignoram as diretivas e os processos para impor sanções arrastam-se em atrasos burocráticos intermináveis.
A IIPA foi ainda mais longe e pediu acesso a informações sobre os operadores do HiAnime, incluindo nomes, endereços IP e dados de pagamento. A mesma solicitação abrange outras plataformas conhecidas como AnimeSaturn e KissAnime.
Do lado japonês, o Ministério da Economia já anunciou um plano de ação, reforçar cooperação com autoridades estrangeiras, melhorar sistemas de litígio, aumentar proteção contra violações de direitos por inteligência artificial generativa e produtos contrafeitos, e criar bases de dados de propriedade intelectual para agilizar processos legais.









