Porque o arco de Chimera Ants de Hunter X Hunter se tornou tão especial?

Chimera Ants, foi um arco de Hunter X Hunter (2011), que se tornou de tal forma tão célebre, que hoje em dia é creditado por muitos como uma régua de medição no que toca a qualidade numa série anime.

Mas o que o tornou tão especial?

Para responder a essa questão antes temos de percorrer todo o arco através de um breve resumo. Se ainda não assistiram a este arco não recomendo a continuação desta leitura.

O Arco abre logo após os eventos de Greed Island. Os nossos heróis Gon e Killua são transportados para uma zona onde encontram Kite, um individuo que afirma ser um discípulo de Ging, o Pai de Gon e a principal razão porque este rapazinho se tornou num Hunter.

Nesse mesmo período a rainha das Chimera Ants, uma raça que como o nome indica é um misto de espécies, começa a pôr em prática um plano para conceber o seu filho e sucessor. De início as suas tropas começam a caçar animais e fazer experiências com os seus códigos genéticos. No decorrer destas, a rainha apercebe-se que falta algo, até que um dos seus servos descobre os humanos, e com eles o potencial da energia do Nen. Alheio a tudo isto, Gon e o seu novo grupo são envolvidos numa série de batalhas onde o jovem perderá a sua inocência, Killua uma parte de si, e acima de tudo ambos perderão um grande mentor e amigo.

A partida este parece um arco comum como qualquer outro num shounen, sublinho bem tradicional até no que toca a desenvolvimentos. Só começa a ter impacto quando o Rei, (sim considero o Rei e Meruem personagens diferentes) o sucessor das Chimera Ants, começa a pôr em prática um plano de seleção dos melhores humanos para alimento. Nisto conhece Komugi, uma menina débil e cega. Mesmo perante a sua fraqueza, esta derrota o poderoso Rei num jogo de Gungi, um jogo de tabuleiro de estratégia. Ora o Rei um ser que matou a própria mãe, caçou humanos comendo os seus cérebros sem dó nem piedade, e nem mostrou respeito aos seus soldados, começa a duvidar de si mesmo, e a brotar a semente da incerteza no seu íntimo. Este desenvolve rapidamente um complexo de inferioridade, pois era impensável uma criatura tão débil, conseguir derrotar um ser perfeito, sem se aperceber o Rei estava a deixar o seu lado humano vir ao de cima.

A situação torna-se tão desesperante que Gon, Killua e todos os membros do grupo de Hunters, incluindo os mais célebres como Zeno Zaoldyeck (Avô de Killua) e Netero chefe supremo dos Hunters, são chamados para se reunirem junto do palácio onde o Rei reside e lá travaram imensas lutas que não só mudarão o mundo, como as suas vidas drasticamente. Nestes momentos muitos de nós espetadores inconscientemente também participámos de uma forma passiva questionando, que frente apresentou motivos mais nobres no meio de tanta carnificina? É certo que no melhor pano também caiu a nódoa, visto que o desenvolvimento foi mais lento nesta parte e afastou alguns, e três minutos demoraram cerca de dez episódios. Na minha ótica este efeito provou o que Hunter X Hunter sempre teve como premissa. Este é um Shounen com um clima de negociação, estratégia e tensão nos seus combates que não se resumiu a gerar simples lutas, concluídas apenas com transformações ou poderes. Também nesta série geralmente uma personagem para alcançar uma meta teve de abdicar-se de algo, ou alguém, pensem como uma troca equivalente de Fullmetal alchemist, mas em matéria de combates e de uma forma metafórica.

No meio de tanta violência, Komugi também é envolvida e acaba gravemente ferida às portas da morte. A forma como o Rei discursa com a jovem nestes momentos mudou e parece estar mais próxima de como um pai fala a sua filha. Escusado será dizer que estes eventos despertam ainda mais sentimentos humanos no Rei. Na face destes pede imediatamente ao seu servo Neferpitou para curar Komugi, todavia no seu caminho está Gon, e Neferpitou outrora brutalmente assassinou Kite. Gon furioso, dá-lhe uma hora para depois travarem uma luta até a morte. Killua num papel mais reduzido, assistiu Palm uma Hunter, que se infiltrou num bordel para saber mais acerca de um presidente corrupto que conspira com o Rei em troca de humanos, enquanto este fornece-lhe belas mulheres. Aqui temos um aspeto negativo bem interessante, já que o suposto monstro tem estado gradualmente a humanizar-se e o humano tornou-se num autêntico monstro. Porém, no caminho das ambições do Rei encontra-se Netero, o célebre e lendário hunter. Este afirma conhecer o seu verdadeiro nome, pois esteve presente nos últimos momentos da morte da mãe deste. Assim afirma se o derrotar em combate dirá o seu verdadeiro como manifesto de derrota. Esta foi possivelmente uma das lutas mais icónicas da série, não só foi intensa como no calor desta o Rei, descobre sentimentos de compaixão, rivalidade e acima de tudo respeito, destruindo por completo o seu ego de superioridade.

Infelizmente Netero acaba derrotado. É revelado que Hunters não mais do de ferramentas do governo, assim que este não hesita em sacrificar-se, mas claro sem antes revelar o nome verdadeiro do Rei, que é Meruem. A partida a criatura já estaria morta, mas os seus servos Youpi e Pouf trazem-lhe de novo a vida com série de metáforas alusivas ao nascimento humano. Porém, Meruem (considero que o Rei renasce como Meruem) regressa sem memórias de Komugi, e Pouf um servo devoto a Meruem quer a todo o custo evitar que as memórias desta tragam novamente um líder fraco. Nesse mesmo tempo Komugi é ressuscitada graças ao Nen de Neferpitou e Gon pede a Killua, para se afastar, levar Komugi consigo já que é a chave de tudo. Como Gon já estava pelos cabelos, a sua fúria foi tanta que atingiu um estado adulto num piscar de olhos, e sem dó nem piedade brutalmente acaba com Neferpitou e consequentemente com a sua vida. Meruem de volta ao castelo procura por Komugi, e para isso negoceia de novo com Pouf, acabando por saber onde esta se encontra. Durante este tempo Meruem revela sentimentos de misericórdia, compaixão, e até presta vassalagem a uma Chimera Ant, talvez por saber que iria morrer em breve já que foi vítima da radiação no ataque final de Netero, ou por já ser humano. Assim que se reencontra com o seu amor, sorri, e explica-lhe que vai morrer em breve, pois está infetado, e indica-lhe se permanecer consigo também perderá a vida, Komugi não hesita e juntos morrem lado a lado, na cena mais bela de toda a série. Os discursos nestes momentos finais são mais próximos, íntimos e carinhosos, dignos de um casal.

Fechamos com uma das maiores dualidades numa série. Enquanto este foi um dos arcos mais grotescos, também foi um dos belos, onde o bom que resta de um ser humano e explorado de várias formas e temáticas. Não sei se notaram mas também tivemos percurso shounen tradicional em reverso. O vilão torna-se quase invencível de início e gradualmente vai perdendo essa invencibilidade porque se quer tornar mais humano, deixando de lado, temáticas clássicas como ser mais forte, destruir ou conquistar o mundo. Meruem apenas desejou encontrar o seu eu, tão simples quanto isto. Também é retratado o amor de uma forma séria e honesta. Este é sentimento que envolve sacrifício, entrega e acima de tudo respeito, e Hunter X Hunter foi exímio é retratar cada um destes pontos, ao passo que na maioria das séries este sentimento é explorado e demonstrado de formas muito levianas.

Contrastamente á arte polémica do manga, a esta adaptação anime não só a elevou, como a executou de melhores formas, tornando-se num dos raros casos onde uma adaptação venceu a obra original de todas as formas e frentes. A MADHOUSE está verdadeiramente de parabéns.

Por estas e muitas outras razões Hunter X Hunter tornou-se num arco lendário, partilhando o posto com o arco de Kyoto de Rurouni Kenshin, outro série de enorme qualidade e destaque deste género.

Concordam? Porque pensam que Hunter X Hunter: Chimera Arc se tornou tão especial e icónico?

Vindo de vários mundos e projetos, juntou-se à redação do Otakupt, pronto para informar todos os leitores com a sua experiência nas várias áreas da cultura alternativa. Assistiu de perto ao nascimento dos videojogos em Portugal, até à sua atualidade. Devora tudo o que seja japonês (menos a gastronomia), mas é também é adepto de grandes histórias e personagens sejam essas produzidas, em qualquer parte do globo terrestre.