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TMS Entertainment alia-se a estúdio taiwanês face à crise de animadores no Japão

Parceria com R. Animation visa criar sistema de produção sustentável enquanto indústria enfrenta envelhecimento da força de trabalho

Parte 2 de Dr. Stone Science Future op screenshot

A indústria anime vive uma contradição paradoxal, nunca houve tanta procura por produções japonesas, mas também nunca faltaram tantos profissionais para as concretizar. Face a este cenário, a TMS Entertainment (Dr. STONE), anunciou a 8 de janeiro uma parceria comercial com a R. Animation, um estúdio taiwanês fundado em 2018.

O acordo não se trata de mera subcontratação de mão de obra barata, mas sim de uma colaboração estratégica que visa partilhar conhecimentos técnicos e fluxos de trabalho para estabelecer um sistema de produção que a TMS descreve como “estável e de alta qualidade”. A iniciativa surge como resposta direta a uma pressão estrutural que a indústria japonesa já não consegue ignorar.

Com uma procura global que ultrapassa os 300 títulos anuais e uma força de trabalho local que envelhece sem substituição adequada, os estúdios japoneses veem-se forçados a procurar parceiros fora das suas fronteiras. Segundo dados revelados em junho de 2025, o Japão enfrenta uma escassez de cerca de 30.000 animadores, com projeções que apontam para um declínio de quase 30% no número de profissionais até 2050 quando comparado com os níveis de 2019.

O problema não é apenas quantitativo. A indústria anime registou receitas recordes de 3,34 biliões de ienes (aproximadamente 23 mil milhões de dólares) em 2023, um aumento de 14% face ao ano anterior. Paradoxalmente, 40% de todos os profissionais do sector ganham menos de 2,4 milhões de ienes por ano (cerca de 15.400 dólares), segundo um estudo de 2024 da Nippon Anime & Film Culture Association, muito abaixo da média salarial japonesa de 7,7 milhões de ienes.

Os salários baixos e as longas jornadas de trabalho afastam os jovens da profissão, enquanto os veteranos abandonam exaustos. A Associação de Criadores de Animação Japonesa revelou que em 2023 os animadores ganhavam em média 2,63 milhões de ienes para trabalho de dōga (desenhos intermédios) e apenas 4 milhões de ienes para genga (animação-chave), valores que, apesar de terem melhorado desde 2009, continuam insuficientes face às exigências da profissão.

R. Animation: juventude e capacidade técnica

A parceira escolhida, a R. Animation, destaca-se pela sua juventude e competência técnica em produção 2D desenhada à mão. Com uma equipa principal de mais de 40 pessoas e uma idade média inferior a 30 anos, o estúdio taiwanês sediado em Taipé já colaborou em múltiplas produções japonesas de renome.

O portfólio da R. Animation inclui trabalho de animação-chave para séries como My Dress-Up Darling, Spy×Family, The Elusive Samurai, trapezium, UniteUp! e Black Butler: Emerald Witch Arc, tendo trabalhado especialmente próximo do estúdio CloverWorks. O estúdio também contribuiu para One Piece, COLORFUL STAGE! The Movie: A Miku Who Can’t Sing, takt op. Destiny e Mushoku Tensei: Jobless Reincarnation II, além de arte de fundo para opening e ending de Butareba: The Story of a Man Turned into a Pig.

pv Parte 2 de Dr. Stone 3 screenshot

A R. Animation afirma ser capaz de produzir arte-chave, finalização, produção de linha, storyboards, design e pós-produção, tornando-se num parceiro versátil para a TMS. O seu modelo assenta no recrutamento de estudantes de arte que recebem formação intensiva, algo que a TMS Entertainment valoriza para manter a consistência visual das suas obras.

A TMS enquadrou esta iniciativa sob a sua visão de “Anime SDGs” (Objetivos de Desenvolvimento Sustentável do Anime), procurando equilibrar a qualidade criativa com práticas laborais sustentáveis. O estúdio japonês, que começou em 1946 como Tokyo Movie e iniciou o seu negócio de animação em 1964, tem um historial notável: Hayao Miyazaki e Isao Takahata, co-fundadores do Studio Ghibli, trabalharam em projetos da Tokyo Movie Shinsha.

Atualmente propriedade integral da Sega Sammy Holdings desde 2010, a TMS Entertainment produz séries de longa duração como Detective Conan, Soreike! Anpanman e as várias séries da franquia Lupin III. A empresa planeia estabelecer parcerias mais fortes tanto dentro como fora do Japão para complementar os seus esforços de formação de animadores e criar um pipeline de produção mais estável.

Tendência global na indústria

Este movimento insere-se numa tendência maior onde gigantes como Toho e Toei Animation estão a estabelecer bases na Tailândia e Filipinas. A abordagem deixa de ver os estúdios estrangeiros como simples subcontratados para os converter em parceiros vitais do processo criativo, reconhecendo que a sobrevivência da indústria depende de uma rede internacional de produção.

A questão que permanece em aberto é se esta internacionalização da produção afetará o estilo característico do anime. Por enquanto, estúdios como a R. Animation especializam-se precisamente em replicar os métodos e estilo da indústria japonesa, sugerindo que a preocupação se centra mais em manter a qualidade do que em preservar uma identidade geográfica estrita da produção.

Num contexto onde a procura global continua a crescer exponencialmente, com o governo japonês a estabelecer metas de exportação de 20 biliões de ienes para 2033, parcerias como esta podem representar não apenas uma solução para a crise de mão de obra, mas também o futuro do próprio modelo de produção do anime.

Helder Archer
Helder Archer
Fundou o OtakuPT em 2007 e desde então já escreveu mais de 60 mil artigos sobre anime, mangá e videojogos.

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