Quando a obra original de Masashi Kishimoto chegou ao seu fim, muitos fãs acabaram se sentindo um pouco decepcionados com os rumos que a série acabava seguindo. Mesmo seus fãs mais fiéis que defendem sua grande maioria de aspectos técnicos alegando serem maravilhas a serem seguidas – fator esse grandiosamente possível de ser discutido. Alguns se perguntariam quando surgiria o momento em que os dois últimos capítulos de Naruto – especificamente, 699 e 700 – ganhariam, por fim, uma adaptação em série animada para a programação da TV Tokyo separada para que pudesse ser esmiuçada até a Shonen Jump em conjunto a Pierrot conseguissem arrancar o máximo de dinheiro possível com o intuito de que possivelmente conseguiriam criar um fenômeno cultural que chegasse no nível de vendas colossais que o nosso amigo de Chapéu de Palha consegue a cada volume. Para a alegria de muitos fãs carentes e já órfãos da série original, a melancolia de outros, a apresentação de uma nova série desconhecida para aqueles que não sabiam nada relacionado ao universo de Naruto e… sim, a tristeza para aqueles como eu, infelizmente, que estava torcendo para a série ter finalmente o seu descanso.

Boruto: The Next Generation ganhou sua primeira adaptação em um mangá desenhado a mão pelo próprio Masashi Kishimoto tendo possivelmente uma supervisão acerca do que viria a ser o roteirista da série no futuro, Ukyo Kodachi e ilustrado por seu companheiro Mikio Ikemoto. A Série atualmente conta com 30 episódios, também nesse momento atual da criação do texto, algo por volta de 15 capítulos e um dos elementos mais impressionantes a serem notados ao longo dessas séries é a dissonância entre elas, o quão diferente elas acabam sendo uma da outra – sem contar com a existência de um filme chamado: “Boruto: The Movie” que possuí um arco que estaria supostamente sendo adaptado para o anime no futuro e que já andou dando beliscadas no mangá cada vez mais, já tendo sido adaptado em uma versão DLC no jogo “Naruto Shipp. Ultimate Ninja Storm 4: Road to Boruto”. Porém o nosso objetivo aqui não é dar essa volta inteira sobre todas as mídias que compõe essa obra de Ukyo Kodachi e Mikio Ikemoto, mas sim, focar os nossos olhos em um arco por vez começando com o Anime, analisando com a sua devida calma seus aspectos técnicos.

Nesse quadro Veredito nós buscaremos focar em arcos narrativos que já estejam fechados e concluídos, conversar sobre eles progressivamente ao longo dos lançamentos, sejam eles na mídia de animes ou na mídia de mangás – talvez no futuro uma mídia de jogos? Quem sabe? –. Porém sempre importante lembrar que eu não serei o responsável pelas futuras produções desses artigos, também estando abertos para publicações de outros membros que busquem falar de maneira mais específica sobre os arcos fechados de seus animes que eles tem acompanhado nesses tempos de lançamentos recentes. Para mais informações sobre esse quadro, não deixe de acompanhar os nossos lançamentos e deixar nos comentários dessas publicações quais são seus próximos interesses ou até mesmo dicas para contribuírem nas próximas produções, afinal de contas sem um público eu não consigo lançar meus artigos porque basicamente essas criações são feitas inteiramente pensadas em vocês.

E caso você chegou até aqui desconhecendo as origens de Boruto – mesmo depois da introdução, a série é uma continuação oficial direta do término de “NARUTO”, criado por Masashi Kishimoto e lançado na SHONEN JUMP, ganhando sua adaptação para anime no começo dos anos 2000 e conquistando uma legião de fãs absurdamente grande a ponto de conquistar diferentes lugares do mundo com a sua fama e ser um dos grandes nomes de sucesso em publicações da Jump, rivalizando durante muito tempo ao lado de nomes como One Piece e Bleach. Em sua adaptação para o anime, Naruto conseguiu uma continuação que cobriria os eventos que procedem o Time-Skip sob o nome de: “Naruto Shippuden”, o que na opinião de muitos dos fãs, melhorou diversos aspectos narrativos dessa grande saga porém ao mesmo tempo, enfraqueceu muitos outros e claramente demonstrando um cansaço no desenvolvimento narrativo por parte de Kishimoto.

Boruto possuí um início demorado e com um foco bem diversificado, mas apesar disso, demonstrando estar ainda sim contido dentro da exploração de personagens e a dinâmica de como essas crianças funcionam entre si dentro de um ambiente que para alguns que acompanham temporadas mensais de anime já devem estar acostumados que é o singelo ambiente escolar. Esse é somente um dos elementos que já tornam as histórias e Boruto na mídia dos animes algo diferente das suas mídias compartilhadas, seja elas o mangá, o próprio jogo ou até mesmo as curtas Novels que lançaram escritas pelo próprio Ukyo Kodachi, que é o aspecto de que nós iremos acompanhar a jornada dessas crianças evoluindo desde a suas passagens pela Academia Ninja até os seus pontos atuais se utilizando da Bandana Shinobi que os tornam GenninsDurante seu início, mesmo quando pequenas pitadas narrativas são distribuídas ao longo dos episódios para demonstrar que alguma coisa de sinistro está acontecendo na encosta dos acontecimentos durante o período escolar – o que por sinal, é desde o início da série e de uma maneira sútil porém desmanchada futuramente-, a série ainda sofre de problemas sérios que envolve algo muito importante na construção da personalidade dos personagens que se chama “Interação”. Alguns relacionamentos acabam ficando superficiais demais para um anime que mesmo sendo infantil, soa falso e ocasiona em uma consequência séria no futuro dessa construção narrativa que é a conexão do telespectador com essas figuras que ele está acompanhando. Mas posso ser justo em dizer que não é na maior parte do tempo que esses problemas acabam por chamar nossa atenção, já que a série consegue acertar em um ponto que, no meu ponto de vista pessoal, é o grande charme potencial. 

Um dos grandes acertos dessa série é nos mostrar o quão distantes algumas famílias desses personagens que acompanhamos durante toda a série principal de Naruto, estão dessa geração que se aproxima deles. Esses elementos são mais fortes de serem percebidos quando analisamos de maneira mais precisa a situação na qual nosso protagonista, Uzumaki Boruto, se encontra. Um pai que conquistou o seu sonho através de uma vida solitária em seu início e desde sempre sofrida, ultrapassando obstáculos insuperáveis: porém distante daqueles que ama devido suas novas responsabilidades como Hokage. Além disso, temos a situação que será explorada em um futuro arco sobre os questionamentos de quem são os nossos pais verdadeiros, aqueles que cuidam de nós ou os quais estão ligados ao nosso sangue e como essas dores acabam influenciando no crescimento de uma criança para a sua adolescência, como os pais devem lidar com isso. Questionamentos que quando vistos no anime podem parecer superficial por eles terem um foco maior na comédia infantil e nos curtos momentos de demonstração do poder das crianças durante seus treinamentos ou raros conflitos na academia ninja ou ao redor da vila, podem contribuir para um enriquecimento na construção desses personagens, tornando-os menos bidimensionais e adicionando cada vez mais camadas que nos possibilitam a se comunicar melhor com eles, conceitos interessantes que podem virar um tesouro narrativo no grande futuro dessa obra.

As trilhas sonoras de Boruto costumam pegar elementos que a série já fez anteriormente e orquestrar em cima com um trabalho de rearranjo delas. Mas um problema que era sério nas animações de Naruto e que até mesmo aqueles que não estão por dentro das pisadas na bola que o estúdio Pierrot acabavam por fazer com seus fãs, conheciam a sua fama devido sua animação inconstante e mal equilibrada no que diz respeito a fluidez de animação e alguns momentos, um tom de desgosto e talvez preguiça nos próprios traços. Diversas animações repetidas, traços rabiscados e falhados para a economia de animação, um trabalho preguiçoso no acabamento dos personagens ocasionando em até mesmo momentos onde a inexistência de sombreamento acaba tornando a cena um pouco desgostosa quando necessária. Apesar dos famosos problemas, Boruto sofre em menos porcentagem, ocasionando em um sentimento de que a maior parte do tempo elas estão fluídas, bem rabiscadas e com um trabalho razoável o suficiente para te passar um sentimento bem agradável de se acompanhar uma série gostosa o bastante que não irá te atrapalhar ou causar esquisitices ao longo dos seus arcos. Até mesmo os combates que apesar de curtos – tanto em aparições como em durações, são bem executadas em diversos momentos no seu quesito técnico. Talvez a única critica – em uma perspectiva inteiramente e unicamente pessoal nesse ponto, seria o demasiado uso no início da série de referências a momentos da série original.

O Primeiro arco de Boruto possuí uma qualidade talvez inferior quando colocada em contraponto as subsequentes, mostrando que o estúdio apesar de já estar habituado com esse tipo de ambiente narrativo, estavam ao mesmo tempo experimentando em como seria a recepção do público dado que a obra original sob a supervisão de Ukyo Kodachi já se inicia com o trio de protagonistas, Uzumaki Boruto, Uchiha Sarada e Mitsuki como formados na academia prestes a executarem o mais novo exame Chuunin – premissa essa que constituí também parte da narrativa ao redor do filme. Durante esses três primeiros arcos no anime, temos um grupo de alunos na Academia Ninja aprendendo novas habilidades, sendo lecionados a como serem Shinobis, interagindo entre si e enfrentando as dificuldades aos poucos – sejam elas pelas lições demasiadas entediantes do seu professor, intrigas entre alunos em si ou a trama que surgiria em alguns episódios depois, dando início ao verdadeiro arco narrativo que se transformaria no foco dessa primeira parte de Boruto: O Arco do Incidente Fantasma.

Ao longo dos episódios que mais parecem um grande conto separado de histórias diferentes que apenas compartilham um universo para desenvolver personagens individuais ao longo deles, nos deparamos gradativamente com aparições constantes de uma entidade onde entendemos de início que ao se conectar com o lado negro e depressivo de alguns personagens, acabam os tomando por dentro e tendo controle de suas vontades obsessivas ou distorcidas em relação a um desejo dentro deles, sendo o motim que dá início a uma investigação não somente de Boruto que desperta um poder estranho capaz de observar a aura maligna dessa entidade ao redor desses personagens dominados ao longo dos episódios, como também do próprio Hokage que manda a equipe de Sai investigar e acaba sendo esse uma pequena desculpa que gera alguns incidentes envolvendo Boruto indo atrás de resgatar pessoas e se deparando com curtos momentos onde seus companheiros serão forçados a um embate para libertar esses personagens dessa figura maligna.

Sem contar o seu desfecho, as revelações – que na minha opinião mais sincera beiram o ridículo de fácil e preguiçoso, esse arco é mais para nos mostrar um dos vários mistérios acerca desse personagem protagonista que tem muito a nos mostrar, assim como o mistério da presença do personagem Mitsuki na Aldeia da Folha e suas reais intenções, fazendo bem o que, pelo menos, no início da série principal de Masashi Kishimoto fazia que era a construção de mistérios enquanto acompanhamos o dia a dia desses personagens. O Roteiro acaba sendo interessante desde o surgimento dessa entidade até os seguimentos subsequentes que acabam gerando cenas interessantes de ação onde Boruto interage com personagens como Shikadai, Metal Lee – e para os hardcores, até mesmo uma cena no maior estilo Big Bang Theory referenciando uma das mais clássicas de Naruto na sua primeira série televisionada. Alguns conceitos mágicos e questões que antes nunca apareceram e deram seu surgimento aqui, geram um interesse curioso por parte de o que mais existe nesse mundo Shinobi e o quão além esse mundo consegue ser expandida. Infelizmente o arco acaba fechando de uma maneira simples e pouco inspirada.

Para uma série descompromissada inicialmente de elaborar coisas muito além das suas capacidades iniciais, sinto que Boruto começou de uma maneira medíocre beirando o ruim em seu âmbito geral, mas que existe um potencial dentro dos trabalhos que dizem respeito a dilemas familiares que essas crianças vêm passando e a maneira de se explorar isso. Algumas decisões de Design foram estupidamente tomadas, mas felizmente em arcos futuros seriam corrigidas como a utilização do Character Design do Mangá como início do Design para Uchiha Sarada que talvez é um dos piores designs de personagens femininas de todos os tempos na história de Naruto (Quem em sã consciência consegue falar “Ninja” e pensar em uma criança de vestido, tamanco e usando batom indo para o campo de batalha? Quem?). E alguns eventuais momentos onde a piada em torno da personagem Akimichi Chocho ainda é desnecessária e demasiada xenofóbica como achar que ainda é engraçado em 2017 você chamar uma pessoa gorda de “gorducha” ou “cheinha” como forma de ofensa. É como você dizer para uma pessoa negra: “Você é um macaco”. Isso não é engraçado, não era antes e nunca vai ser e se você que está lendo isso, por algum acaso, acha esse tipo de piada ofensiva engraçada, eu honestamente peço advindo ao fundo do meu coração que você morra de maneira dolorosa.

Momentos de comédia precisam ser trabalhos, não é atoa que a melhor comédia é aquela onde nós rimos sobre uma situação e um acontecimento, nunca sobre o estado civil de uma pessoa, a cor ou a sua sexualidade. Essas cenas precisam ser mais inteligentes e polidas, principalmente para as crianças que precisam crescer sendo conscientizadas sobre o que é certo e o que é errado. Um dos fatores importantes que ainda me mantém em Boruto é no fato de que existe um conteúdo interessante a se dizer para essas crianças, sobre os nossos relacionamentos com pais e mães, e nesses pontos, Boruto consegue dizer bastante e executar bons diálogos.

Eu recomendo assistirem o início de Boruto, possuem momentos interessantes e como já dito anteriormente: É uma série descompromissada inicialmente de elaborar um roteiro ou de se manter dentro dos padrões estabelecidos anteriormente pela sua série original, já focando principalmente no que a própria fazia de melhor que era desenvolver relacionamentos – principalmente os familiares. Está longe, quilômetros de distância de ser o que a primeira série foi ou de executar bem tantos quesitos técnicos, porém diálogos simples com uma dose de importância e emoção paternal e maternal que nos fazem ficar sentimentais levemente em alguns momentos, conseguindo nos transportar facilmente para esse mundo onde assistiremos essa série sem associá-la diretamente com o que seu antecessor foi. As animações estão medianas e possuí mais acertos do que Naruto na qualidade gráfica, sua trilha sonora mais resgata e trabalha em cima com o que antes já fora feito do que propriamente produzir alguma coisa instrumental nova, porém nós conseguimos aproveitar e o mais importante: são bem executadas em seus determinados momentos.

Sem sombra de dúvidas a obra Naruto marcou o coração de muitas pessoas, seja positivamente ou negativamente. Mas uma coisa nós temos certeza, essa série resgata diversos elementos narrativos da série anterior mas ela não tenta – ao menos em seu início, ser o que Naruto buscou ser ao longo dos seus últimos arcos ou no que ele havia se transformado. Apesar de roteiros fáceis e pouco trabalhados, os acertos são claros e é uma série light que se torna gradativamente gostosa e colorida como dá para se notar claramente em todas as suas publicidades, seja nos seus trailers iniciais lançados pela Tv Tokyo, os próprios trailers relacionados ao jogo “Naruto Shipp. Ultimate Ninja Storm 4: Road to Boruto” ou na própria abertura do anime que apesar de gerar uma estranheza inicial, gradativamente acaba te conquistando e trazendo sentimentos de conforto… remetendo diretamente a uma abertura de um certo anime anterior a ele que apesar de ter menos trabalhos de cores, conseguia nos transmitir esse mesmo sentimento através da sua música e da sua letra combinadas. Boruto é uma série com alguns acertos, gostosa de se assistir com eventuais erros sérios que conseguem ser superados com um pouco de persistência. Ficamos por aqui. Eu sou Weslley de Sousa e esse foi o Veredito de Boruto: O Arco do Incidente Fantasma.

Fundou o OtakuPT em 2007 e desde então já escreveu mais de 40 mil artigos sobre anime, mangá e videojogos.