Como a vida e legado de Osamu Tezuka influenciou os trabalhos de Maurício de Sousa

Por muitos considerado e creditado como o pai do Mangá e Anime, o facto é que não podemos deixar de afirmar que Osamu Tezuka, foi um dos maiores pilares para a implementação destas artes do entretenimento na sociedade. Isto porque não só mudou o futuro dos manga como foi o percursor das suas histórias adaptadas em séries anime. Os seus trabalhos estendem-se por mais de 170,000 páginas de desenhos e 200,000 de ‘storyboards’ e guiões de adaptações animadas.

Osamu nasceu a 3 de novembro de 1928, na freguesia de Osaka no Japão. Sendo o mais velho num círculo de 3 irmãos, nasceu no seio de uma família de doutores, advogados e militares. O seu pai foi um engenheiro, mas na sua vida de estudante desenhou alguns mangas, os quais manteve numa larga biblioteca na sua casa. Através de um projetor na mesma também introduziu o seu filho às animações da Walt Disney e Max Fleischer (o responsável por Popeye nos cinemas). De acordo com testemunhos familiares, os seus pais eram muito disciplinados, mas também apoiavam o futuro que os seus filhos decidissem caminhar. Quando Osamu mostrou o seu talento para o desenho, o casal continuou a enriquecê-lo comprando cadernos e livros de arte.

Quando alcançou os 9 anos, usou os seus desenhos e a sua escrita produzindo a sua primeira história manga. Pelos seus 11 anos, demonstrou um gosto pelo estudo de insetos, usando como pseudónimo Osamushi, uma junção do seu nome com inseto. Foi nesta altura que também se iniciou a Segunda Guerra Mundial, e Osamu acabou por trabalhar numa fábrica nos anos finais desta. A guerra marcaria a sua visão de como o mundo, a paz e o apreço à vida se tornariam valores a defender. Além de muitas atividades, tais como a interpretação e tocar piano, Tezuka não parou de desenhar mesmo a trabalhar. Depois de quase ter perdido os dois braços devido a uma infeção em adolescente, decidiu estudar medicina. Como num clima de pós-guerra o Japão vivia com uma falta tremenda de médicos, Tezuka foi imediatamente admito na escola de medicina de Osaka em 1945. Quando terminou o seu percurso académico em 1952, defendendo a sua tese doutoral em 1961, Osamu sentiu que no seu coração existia mais arte visual do que ciência.

Pouco depois de entrar a escola de medicina, Tezuka com os seus 17 anos vendeu a sua primeira obra intitulada: Diário de Ma-chan, e foi publicada num jornal para crianças. Mesmo com uma circulação muito limitada, o interesse da obra foi notório pelos seus jovens leitores gerando até intenções da sua publicação fora do jornal. No entanto, foi com Shin Takarajima que o seu nome passou a ser digno do mérito e respeito que sempre trabalhou. Chegando a ser publicado fora do Japão, por jornais ocidentais, isto porque enquanto trabalhava na medicina, Osamu não parava de desenhar e o seu destaque passou de pequenas tiras a páginas inteiras.

De 1950 até a sua morte, Tezuka trabalhou sem cessar! O processo de passar de desenho as suas personagens e histórias a animação fluía-lhe com naturalidade. Sem se aperceber, foi nos estúdios Tezuka Osamu Production, que o género Anime nasceu. Mesmo que, não se antevisse que o seu Astro Boy (Tetsuwan Atom) receberia reconhecimento mundial. Tezuka continuava a trabalhar, produzindo cerca de 500 episódios de anime, enquanto desenhava e produzia centenas de obras manga. O impacto que Tezuka produziu na cultura japonesa ainda hoje é sentido. Popularizando o manga num período de pós-guerra. Partindo de Betty Boop e Bambi, foi quem introduziu os olhos gigantescos nas personagens para transmitirem mais emoções.

Osamu acabou também influenciou uma geração mangakas lendários tais como: Rumiko Takahashi, Akira Toriyama, Masami Kurumada ou Yoichi Takahashi, e o seu legado estendeu-se também ao cartoonista Brasileiro: Maurício de Sousa,  o qual conheceu em 1984, durante um encontro entre diversos artistas e onde imediatamente nasceu uma grande amizade. Algumas das suas obras mais sonantes de Tezuka para além de Tetsuwan Atom são: Jungle Taitei, Ribbon no Kishi, Black Jack – o qual se inspirou e retirou apontamentos da sua carreia na medicina – e Dororo, que recebeu uma adaptação recente pelos estúdios Mappa, e podemos acompanhar umas temporadas atrás.

Durante um breve período os dois artistas até chegaram a coproduzir algumas obras com a ajuda de Petra Leão e Marcelo Cassaro, dois guionistas de longa data das obras de Maurício de Sousa. Infelizmente, Osamu acabou por falecer a 9 de fevereiro de 1989 diagnosticado com cancro no estômago, deixando a sua mulher Okada Etsuko, e os seus dois filhos mergulhados numa tristeza palpável. Todos os artistas também lamentaram esta enorme perda, especialmente o seu grande amigo brasileiro que ilustrou e dedicou um desenho com as personagens da Turma da Mônica a consolar as criações de Tezuka, numa edição do gibi em 1989.

Hoje em dia do Seu Maurício de tempos a tempos resgata as personagens e até o próprio Osamu através das edições da Turma da Mônica Jovem – a qual é creditada em formato mangá pelo autor – com diversos crossovers com estes dois universos. O espírito e a vivacidade de Osamu estão bem vivos também no outro lado do oceano.

Vindo de vários mundos e projetos, juntou-se à redação do Otakupt, pronto para informar todos os leitores com a sua experiência nas várias áreas da cultura alternativa. Assistiu de perto ao nascimento dos videojogos em Portugal, até à sua atualidade. Devora tudo o que seja japonês (menos a gastronomia), mas é também é adepto de grandes histórias e personagens sejam essas produzidas em qualquer parte do globo terrestre.