
O caso de Ramsey Khalid Ismael, mais conhecido pela alcunha online Johnny Somali, chegou a um ponto de viragem no passado dia 27 de fevereiro, quando o streamer americano compareceu no Tribunal Distrital Ocidental de Seul para os argumentos finais do seu julgamento. O que se seguiu foi, segundo quem acompanha o processo, um dos piores desempenhos possíveis dentro de uma sala de audiências.
Ismael, de 25 anos, enfrenta oito acusações na Coreia do Sul, incluindo quatro por perturbação de negócios, duas por violação da lei de pequenas infrações e duas acusações de natureza sexual relacionadas com a distribuição de deepfakes pornográficos criados com recurso a inteligência artificial, envolvendo streamers coreanas sem o seu consentimento. Para as acusações menores, já tinha declarado culpa em sessões anteriores. Para os deepfakes, manteve a sua inocência.
Na sessão de fevereiro, o streamer tentou apresentar-se arrependido, mas acabou por ofender o juiz. Segundo o advogado e youtuber Legal Mindset, que tem acompanhado o caso de perto, Ismael afirmou ter sido “mantido em cativeiro” na Coreia do Sul durante ano e meio e argumentou que as suas ações “não seriam ilegais nos Estados Unidos”, chegando mesmo a classificar a lei coreana de “injusta”. O juiz, aparentemente sem qualquer simpatia pelo argumento, rejeitou o pedido do streamer para ser sentenciado rapidamente e adiou a decisão em dois meses.
A acusação não se ficou por aqui. Os procuradores pediram uma pena de três anos de prisão, uma coima de 150.000 won coreanos (pouco mais de 100 dólares) e, o que poderá ter consequências duradouras, a inscrição no registo de agressores sexuais da Coreia do Sul, uma medida que poderá obrigá-lo a registar-se também nos Estados Unidos quando regressar ao país. O incumprimento dessa obrigação poderia resultar em novas consequências legais em solo americano.
Numa tentativa tardia de atenuar os danos, Ismael pediu clemência: “Fiz algumas coisas tolas sob a influência do álcool e tenho consciência das consequências. Peço sinceramente desculpa”, disse, acrescentando: “Ainda sou jovem e quero ver a minha família e ir para casa. Por favor, mostrem-me clemência.” O juiz não pareceu convencido.
O percurso de Ismael na Coreia do Sul começou por volta de outubro de 2024, numa altura em que já tinha sido detido no Japão e em Israel. Desde então, acumulou incidente atrás de incidente: vandalismo numa loja de conveniência em Mapo-gu, perturbação de passageiros em autocarros e no metro com música alta, aproximação a peões com um saco de peixe podre, e comportamentos ofensivos em espaços públicos. Mais grave ainda foi a publicação de vídeos em que beijava uma estátua que representa as vítimas da escravatura sexual durante a Segunda Guerra Mundial, e o episódio em que exibiu a bandeira do Sol Nascente, símbolo associado ao imperialismo japonês, referindo-se às ilhas Dokdo pelo nome japonês Takeshima. Estes atos geraram indignação generalizada na sociedade coreana.
A situação judicial de Ismael complica-se ainda mais pelo facto de as acusações de deepfake, as mais graves, com penas máximas que podem chegar a mais de dez anos por cada uma, não terem sido retiradas. O streamer tentou negociar um acordo informal com um dos streamers envolvidos e apontar responsabilidades a terceiros, mas os procuradores ignoraram ambas as tentativas.
A sentença final está marcada para 15 de abril de 2026, data em que o tribunal decidirá sobre todas as oito acusações em simultâneo. Se for condenado a pena de prisão efetiva, deverá cumpri-la numa prisão sul-coreana antes de ser deportado e proibido de reentrar no país.








