
A cidade japonesa de Fujiyoshida tomou uma decisão sem precedentes ao cancelar o seu festival anual de cerejeiras, após anos de comportamentos inaceitáveis por parte de turistas estrangeiros. Entre os incidentes reportados contam-se invasões de propriedade privada, lixo acumulado nas ruas e até casos de visitantes que defecaram em jardins de residentes locais.
O festival, realizado no parque Arakurayama Sengen desde 2016, tornou-se vítima do seu próprio sucesso. Com uma vista deslumbrante do Monte Fuji emoldurado pelas icónicas flores de cerejeira e uma pagoda de cinco andares, o local transformou-se num dos cenários mais fotografados do país. Durante a época de floração, mais de 10.000 pessoas visitavam diariamente o parque numa cidade com menos de 50.000 habitantes.
A situação rapidamente se tornou insustentável. As autoridades locais receberam queixas crescentes de residentes que relatavam invasões de propriedade privada, lixo espalhado pelas ruas e até turistas a defecar em jardins particulares. Alguns visitantes chegaram ao ponto de entrar nas casas dos moradores para usar as casas de banho sem autorização.
O presidente da câmara, Shigeru Horiuchi, não escondeu a sua preocupação. “Sinto um forte sentido de crise”, declarou o autarca, acrescentando que “as vidas pacíficas dos nossos cidadãos estão a ser ameaçadas por detrás desta bela paisagem”. Em comunicado oficial divulgado a 3 de fevereiro, Horiuchi afirmou: “Para proteger a dignidade e o ambiente de vida dos nossos cidadãos, decidimos encerrar este festival com 10 anos de história”.
O congestionamento crónico do trânsito tornou-se outro problema grave. As filas de carros e autocarros turísticos bloqueavam regularmente as vias de acesso à cidade, criando situações de perigo para crianças que se deslocavam para a escola. Os pais expressaram temores de que os seus filhos pudessem ser atropelados ou empurrados por turistas apressados em busca da fotografia perfeita.
Este cancelamento surge num contexto mais amplo de crescente tensão em relação ao turismo massificado no Japão. O país registou um número recorde de 42,7 milhões de turistas em 2025, impulsionado por um iene fraco e pela viralização de destinos nas redes sociais.
Fujiyoshida não é a única localidade próxima do Monte Fuji a tomar medidas drásticas. Fujikawaguchiko instalou anteriormente uma barreira para bloquear uma vista popular, numa tentativa de dissuadir multidões de turistas que causavam problemas de estacionamento ilegal e acumulação de lixo.
O comportamento inadequado de influenciadores digitais estrangeiros tem agravado a reputação negativa dos turistas no Japão. O streamer norte-americano Johnny Somali, conhecido pelos seus vídeos provocadores, foi preso e multado em 200.000 ienes (cerca de 1.200 euros) em 2024 por obstrução de negócio após transmitir em direto do interior de um restaurante em Osaka.
Em setembro de 2025, três YouTubers ucranianos foram detidos após invadirem a zona de exclusão de Fukushima para filmar conteúdo, ignorando avisos severos sobre os perigos da radiação. O incidente levou o antigo embaixador ucraniano no Japão a emitir um pedido público de desculpas.
Apesar do cancelamento oficial do festival, as autoridades de Fujiyoshida antecipam que continuarão a receber um grande afluxo de visitantes durante a época das cerejeiras. A cidade planeia reforçar a segurança e implementar medidas de controlo de tráfego, incluindo a instalação de casas de banho portáteis e parques de estacionamento temporários para minimizar o impacto nos residentes.
A decisão de Fujiyoshida representa um ponto de viragem na gestão do turismo japonês. Demonstra que mesmo os benefícios económicos substanciais do turismo têm limites quando confrontados com a deterioração da qualidade de vida dos habitantes locais. O caso levanta questões importantes sobre sustentabilidade turística e respeito pelas comunidades que acolhem milhões de visitantes anualmente.









