
O Japão ultrapassou pela primeira vez a barreira dos 40 milhões de visitantes estrangeiros num único ano, com 42,7 milhões de turistas registados em 2025, anunciou o ministro do Turismo Yasushi Kaneko. O número representa um aumento de 15,8% em relação aos 36,9 milhões do ano anterior e supera em cerca de 10 milhões o recorde pré-pandemia de 2019.
Os gastos também atingiram um máximo histórico, com os visitantes a deixarem no país aproximadamente 9,5 biliões de ienes (cerca de 60,1 mil milhões de dólares), segundo o Ministério da Terra, Infraestruturas, Transportes e Turismo. Este valor representa um crescimento de 17% face aos 8,1 biliões de ienes gastos em 2024.
A Coreia do Sul mantém-se como o maior mercado emissor, com 9,5 milhões de visitantes (subida de 7,3%), seguida pela China com 9,1 milhões (crescimento de 30,3%), Taiwan com 6,8 milhões (mais 11,9%) e Estados Unidos com 3,3 milhões (aumento de 21,4%).
No entanto, os números de Dezembro contam uma história diferente. Os visitantes chineses naquele mês caíram cerca de 45% em relação ao ano anterior, para cerca de 330.000 pessoas. Foi a primeira queda desde Janeiro de 2022, durante a pandemia de COVID-19.
A quebra está directamente relacionada com a deterioração das relações diplomáticas entre Tóquio e Pequim. A 7 de Novembro, durante uma sessão do parlamento japonês, a primeira-ministra Sanae Takaichi afirmou que um bloqueio naval chinês a Taiwan poderia constituir uma “situação de ameaça à sobrevivência” do Japão, o que permitiria ao país exercer o direito de autodefesa colectiva segundo a legislação de segurança de 2015.
A resposta de Pequim foi imediata e severa. O governo chinês emitiu alertas aos seus cidadãos para evitarem viajar ao Japão, considerando os comentários de Takaichi como uma interferência nos assuntos internos da China e um desrespeito pelo princípio de Uma Só China. Para além das restrições ao turismo, Pequim implementou também medidas comerciais punitivas.

Apesar da queda em Dezembro, a China tinha sido até Novembro o mercado com maior crescimento do ano. Nos primeiros nove meses de 2025, quase 7,5 milhões de chineses visitaram o Japão, representando cerca de um quarto de todos os turistas estrangeiros.
O iene fraco continua a ser um dos principais motores do boom turístico japonês. Esta desvalorização da moeda nipónica, combinada com o aumento de voos directos para o país, criou condições ideais para atrair visitantes.
Os turistas acorreram especialmente em períodos de pico, como a época das cerejeiras em flor na Primavera e a contemplação da folhagem de Outono. O Japão também beneficiou da sua crescente visibilidade mediática internacional.
O governo japonês estabeleceu a meta ambiciosa de atrair 60 milhões de visitantes estrangeiros por ano até 2030, com gastos de 15 biliões de ienes. No entanto, o sucesso trouxe também desafios significativos. Destinos populares como Kyoto, Tóquio e o Monte Fuji enfrentam problemas graves de sobrelotação e comportamento inadequado de alguns visitantes.
Para gerir o impacto do turismo massivo, o Japão prepara-se para triplicar a taxa internacional de turismo cobrada a todos os viajantes que saem do país, de 1.000 para 3.000 ienes, a partir de Julho de 2026. A prefeitura de Yamanashi já implementou uma quota diária de 4.000 alpinistas no Monte Fuji e passou a cobrar uma taxa de entrada de 2.000 ienes.
Outras medidas incluem a instalação de uma barreira de rede para bloquear a vista do Monte Fuji atrás de uma loja de conveniência Lawson em Fujikawaguchiko, devido a distúrbios causados por turistas que procuravam a fotografia perfeita para as redes sociais.

A comparação com outros destinos turísticos globais oferece perspectiva sobre os números japoneses. A Espanha recebeu cerca de 97 milhões de visitantes internacionais em 2025, os Estados Unidos aproximadamente 77,1 milhões e o Reino Unido 43,4 milhões, segundo projecções oficiais. Mesmo atingindo o objectivo de 60 milhões até 2030, o Japão ainda ficaria atrás destes países.
O sector do turismo tornou-se a segunda maior indústria de exportação do Japão, apenas atrás da automóvel, que registou 17,7 biliões de ienes em exportações em 2024. Esta importância económica crescente sublinha o dilema que o país enfrenta: como equilibrar o crescimento turístico com a sustentabilidade e a qualidade de vida dos residentes.
Para 2026, as perspectivas são incertas. A tensão diplomática com a China, que representa historicamente o maior mercado emissor de turistas para o Japão, poderá pesar significativamente nos números deste ano. O ministro Yasushi Kaneko admitiu que o governo está a monitorizar de perto a situação dos visitantes chineses.
Alguns analistas estimam que o turismo poderá cair até 30% ou mais em 2026 devido às repercussões da disputa sino-japonesa. No entanto, dados preliminares de reservas hoteleiras para o período do Festival da Primavera chinês mostram um aumento de 57% em relação ao ano anterior, sugerindo que pelo menos alguns viajantes chineses continuam interessados em visitar o Japão.
Os visitantes da Europa, Estados Unidos e Austrália registaram um crescimento combinado de 22% em comparação com o ano anterior, o que poderá ajudar a compensar parcialmente qualquer queda do mercado chinês. Hong Kong foi a única excepção entre os 23 principais mercados turísticos do Japão, com uma descida de 6,2% no total anual, atribuída a rumores online sobre um potencial terramoto que circularam na primeira metade do ano.
A indústria turística japonesa vê-se agora numa encruzilhada. Por um lado, demonstrou capacidade para atrair números recordes de visitantes e gerar receitas substanciais. Por outro, enfrenta tensões geopolíticas crescentes, desafios de sustentabilidade e a necessidade de gerir o impacto do turismo massivo nas comunidades locais.










Isso me dá medo…