Análise: Persona 5 Royal

Persona tem sido uma série marcante e inspiradora para quem tem acompanhado atentamente o percurso da franquia Megami Tensei. Depois do ressurgimento aprazível de Persona 5 na PlayStation 3 e PlayStation 4 em 2016-2017, a Atlus três anos depois decide trazer-nos novamente uma versão atualizada, apadrinhada de “Persona 5: The Royal”.

Esta aventura não se baseia apenas em atacar e seguir o caminho que é indicado mas também por ser uma viagem à cultura nipónica que é complementada com uma narrativa extraordinária, personagens misteriosas e um sistema de combate fenomenal com um sentido estético que nos deixa de olhos a brilhar. O jogo da Atlus mantém a narrativa do anterior, ainda que a recente edição traga consigo conteúdo inédito para a história principal como por exemplo um conjunto de personagens, nova localidade e um novo semestre registado no seu calendário sazonal.

A história acontece nos subúrbios de Tóquio, acompanhando o nosso protagonista Joker após a sua transferência para a Academia Shujin quando é colocado em liberdade condicional por um crime pelo qual foi injustamente acusado. Desta forma, começamos a viver a experiência de um adolescente que acaba por se envolver em vários casos misteriosos que o levam a conhecer um reino sobrenatural chamado Metaverso que consiste na manifestação física dos desejos subconscientes da humanidade de modo a alterar as más intenções das pessoas.

No final de contas, Persona é um livro em aberto para a geração atual, baseando os seus factos na realidade filosófica e psicológica da humanidade. Esses temas são abordados metaforicamente com inúmeras influências demoníacas inspiradas nas culturas que os rodeia. Persona 5 discute as dificuldades da sociedade moderna do século XXI e apresenta personagens que são restringidos pelas regras estabelecidas por essa sociedade, especialmente no Japão, onde o jogo tem lugar.

Claramente que começamos logo a observar as novas alterações deste RPG, recebendo de braços abertos a introdução cinematográfica ainda mais impressionante refletida num uso de cores mais vibrantes bastante notório.

A Atlus também reforçou a narrativa com surgimento de dois novos personagens: Kasumi Yoshizawa é a nova integrante Phantom Thives, com opiniões muito próprias, por isso as discórdias são comuns entre eles, embora não tenha como objetivo provocar desordens ao grupo. A maior parte do novo conteúdo centra-se em torno da sua presença. Kasumi com a evolução pessoal, (Confidants: vínculos sociais que são construídos ao passar um tempo com outro personagem, para obter vantagens e benefícios da história) dá ao jogador acesso a habilidades que podem ser favoráveis fora ou no decorrer dos combates contra os shadows. Ainda Dr. Takuto Maruki, que vai seguir e ouvir os nossos personagens e que terá um papel fundamental para o recente conteúdo da historia.

A estrutura base continua semelhante à de Persona 5, dessa forma teremos que decidir o que queremos fazer durante os dias que passam com o tempo limitado que teremos, porque, dependendo de muitos factores, haverá certas atividades e eventos disponíveis. Essas descobertas essencialmente vão-nos dando oportunidade de conhecer novos personagens e histórias secundárias que complementam o nosso desenvolvimento e que podem ter algum tipo de relacionamento com a trama principal. O jogador ao longo do jogo tem inúmeras ocupações, algumas delas sair com os amigos, visitar livrarias, estudar, fazer desporto, pescar ou até mesmo trabalhar. Estas e outras mais atividades ajudam aumentar o desempenho do protagonista, como Max HP e SP.

Aqui também podemos destacar o novo semestre que dá origem à adição de um renovado distrito Kichijoji à grande cidade de Tóquio. Este sendo um dos maiores do jogo, dispõe igualmente de um grande número de elementos para explorar. Novas atividades sociais e lugares por conhecer como um novo Palácio. Entre eles, mini jogos como dardos ou bilhar que por sua vez ajudam aumentar a afinidade e o nível de amizade com os nossos companheiros. Um pormenor interessante, foi adição de um templo no qual podemos meditar para melhorar os pontos espirituais. Claramente as recorrentes atividades nomeadas acima são formas de nos compensar e ajudar nos stats dos nossos personagens para facilitar na descoberta e combates no interior das masmorras conhecidas como Os Palácios.

Os palácios que são gerados à imagem dos desejos distorcidos das pessoas, são possivelmente a principal atracão e a parte mais fascinante deste título. Nesta edição, as masmorras foram levemente redesenhadas graças ao Graple Hook. Com ele podemos alcançar novas áreas e encontrar novos segredos além de algumas seções consideravelmente diferentes incluindo a procura das novas Wild seeds. No interior de cada palácio existe três sementes e ao coletá-las, conseguimos criar possivelmente um acessório extremamente útil e poderoso. Alguns dos outros itens garantem capacidades extras aos personagens e abrem um leque ainda maior de habilidades, já que cada Persona possui um atributo de ataque específico.

O combate faz uso da combinação do molde tradicional dos JRPGs por turnos com os controlos dos RPGs de acção. Uma das importantes mudanças na mecânica comparativamente com o original foi o Baton Passing, agora em vez de primeiro obrigar o progresso através dos Confidentes, é possível usá-lo desde que se começa a explorar os Palácios. O novo sistema recompensa o planeamento dos teus passes para progredir o máximo de vezes possível, pois a cada passe subsequente aumenta ainda mais a força do ataque do personagem. Se conseguires passar o Baton (ou seja passar a vez) para o membro final do grupo, esse personagem terá a possibilidade de atacar sem custo de HP ou SP. Isto é algo que poderá acontecer com alguma facilidade no início mas conforme o grupo cresce, pode tornar-se mais difícil de realizar, mas torna-se mais gratificante.

A Atlus como uma editora sempre inovadora acrescentou novos ataques especiais que também podem surgir em combates aleatorios denominados por “Showtimes”, que são desbloqueados através da progressão da história. Estes ataques, complementados com coreografias diversificadas funcionam da seguinte forma: dois personagens encontram-se fora da influência de Joker e a partir desse ponto, serão capazes de ativar um ataque catastrófico com os dois, causando danos maciços. Apesar de tudo, parecendo que nos facilitaram a vida também aprimoraram a força dos nossos inimigos. De agora em adiante os combates contra boss tornam-se ainda mais desafiadoras, obrigando a adequar a nossa estratégia contra eles.

Para potencializar ainda mais a versão Royal de Persona 5 a Mementos apresenta-se mais completa. Trata-se de uma masmorra labiríntica com pisos gerados aleatoriamente a partir do jogo principal que podem ser acedidos através do gato falante Morgana. Para torná-lo ainda mais cativante, foi adicionado ao seu interior o pequeno José, uma criança com uma casca de ovo na cabeça que nos pode presentear com uma série de serviços interessantes se reunirmos flores ou selos para lhe oferecer. Além disso, consegue da mesma forma modificar as propriedades destas masmorras para aumentar a experiência que recebemos, o lucro que ganhamos e o número de objetos que recebemos.

O protagonista em Royal consegue finalmente ter a possibilidade de se ocupar com tarefas na sua residência Cafe Leblanc. Agora podemos ocupá-lo com os estudos ou até mesmo com as limpezas do espaço no sentido de adquirir pontos de knowledge (conhecimento) e Kindness (bondade) etc.

A Velvet Room onde se encontra Igor e as assistentes Caroline e Justine também conta com novidades. Alem das fusões habituais entre personas foi acrescentado os Desafios de Combate, um tipo de combate com sete desafios diferentes e dez níveis de dificuldade cada. Para superar esses desafios, devem obedecer a certas condições impostas pelo jogo com a possibilidade de no fim serem recompensado com itens únicos.

Provavelmente na forma de presentear os fãs de Persona, a Atlus trouxe um esconderijo exclusivo para os Phantom Thieves: o Thieves Den. Este local fica disponível a um determinado momento da história e pode ser acedido a partir do menu principal. Dentro do Thieves Den é possível customizar o ambiente com elementos decorativos, Personas ou até mesmo mudar o ambiente com o tema de algum palácio favorito. Inclusive também foi acrescentado uma opção de “Movie Theater”, que nos permite rever todos os vídeos do jogo e alguns outros especiais.

Felizmente, nesta edição foram incluídas as versões de áudio localizado tanto inglês como japonês. Contudo, continuo a ser um fã assíduo das vozes originais japonesas. Estas imitem maior expressividade e vivacidade às cenas do jogo, manifestando as emoções sentidas na íntegra. Convêm salientar que o jogo dispõe de uma banda sonora tão impressionante quanto a tradução. As faixas compostas por Shoji Meguro misturam Pop-Rock com algumas influências de Acid Jazz e Disco como podemos ouvir na música de abertura interpretada pela japonesa Lyn Inaizumi.

Com tudo isto, descobrimos uma nova qualidade de texturas já concebida pelo título posterior que foi aprimorado na atualidade na maioria dos aspetos, tudo graças a capacidade gráfica da PlayStation 4. Em suma, os locais que retratam fielmente Tóquio são incrivelmente detalhados num estilo artístico ainda mais refinado em comparação com o original.

Será um complemento necessário para os jogadores anteriores? Sim. A versão mais que definitiva da Atlus com lançamento marcado para o dia 31 de Março no Ocidente, aprimorou e expandiu os recursos do original, mantendo perfeitamente o equilíbrio que foi encontrado no original. Com mais de 30 horas de jogo adicionais, podendo descobrir a razão do aparecimento de novos personagens e de novos desfechos, talvez seja agora a melhor altura para marcarmos uma viagem com destino até aos subúrbios de Tóquio na pele dos Phantom Thives, os mais emblemáticos de Persona 5.