
Numa semana em que a Microsoft Gaming ganhou uma nova CEO vinda da inteligência artificial, perdeu Phil Spencer e viu Sarah Bond sair pela porta, havia uma peça no tabuleiro que muita gente não comentou tanto: Matt Booty. O responsável pelos estúdios da Xbox foi promovido a vice-presidente executivo e chief content officer, um cargo criado de raiz para esta nova estrutura, e enviou às suas equipas um memo que diz, em poucas linhas, mais do que aparenta.
“Li a nota do Phil com muita gratidão. Ele foi um apoiante constante dos criadores de jogos e das nossas equipas de estúdios, e aprendi muito com a sua liderança ao longo dos anos. Todos os nossos jogos beneficiaram do seu apoio fundamental”. Não é retórica de circunstância. Booty trabalhou diretamente sob a alçada de Spencer durante anos, e a relação entre os dois moldou boa parte da estratégia criativa que levou a Xbox de um período difícil, em que investidores chegaram a sugerir que a Microsoft devia desfazer-se da divisão, até ao presente, com 40 estúdios e franquias como Halo, The Elder Scrolls, Call of Duty, Fallout e Minecraft.
O que o memo de Booty revela sobre Asha Sharma, a nova CEO que vem da divisão CoreAI da Microsoft, é igualmente relevante. “As nossas primeiras conversas centraram-se no compromisso dela em fazer grandes jogos e no papel que isso desempenha no nosso sucesso global. Ela faz perguntas, procura clareza, e quer que as nossas escolhas sejam fundamentadas nas necessidades dos jogadores e dos criadores”. Para as equipas criativas que observam com alguma apreensão a chegada de uma executiva sem historial em videojogos, o aval de Booty tem peso.
O ponto mais concreto do memo é também o mais direto: “O meu foco está em apoiar as equipas e os líderes que temos e em criar as condições para que façam o seu melhor trabalho. Para ser claro, não há alterações organizacionais em curso nos nossos estúdios”. A garantia é necessária, e quem trabalha na indústria percebe porquê. Nos últimos dois anos, a Microsoft encerrou o Arkane Austin, o Tango Gameworks e o Alpha Dog Games, e cortou milhares de postos de trabalho na sequência da aquisição da Activision Blizzard por 69 mil milhões de dólares.
Booty reconhece também o momento exigente em que esta transição acontece: “Temos boas razões para acreditar no que está pela frente. Esta organização e as suas franquias navegaram mudanças durante décadas, e a nossa força vem de equipas que sabem como se adaptar e continuar a entregar. Essa confiança está sustentada num pipeline sólido de franquias estabelecidas, de novas apostas em que acreditamos, e de uma procura clara por parte dos jogadores daquilo que estamos a construir”. São palavras pensadas para audiências distintas, os veteranos que conhecem o historial da organização, e os mais novos que precisam de razões para confiar na direção.
Nas palavras de Satya Nadella, a dupla Sharma-Booty tem “a combinação certa de liderança em produto de consumo e profundidade em gaming para impulsionar a inovação da nossa plataforma e o pipeline de conteúdos”. É uma aposta clara no equilíbrio, uma CEO que traz visão de plataforma e escala, e um CCO que traz décadas de conhecimento da indústria criativa. O teste real começa no GDC em março e na Xbox Games Showcase na primavera, onde as palavras dos três memos vão começar a ser medidas contra o que realmente chega ao ecrã.









