Indivisible – Análise

Análise de Indivisible por Bruno Reis.

A epopeia de Ajna remonta-nos até 2015 quando a Lab Zero Games, tinha como ambição criar um título RPG polvilhado com muita qualidade para tal precisou da nossa ajuda. Vamos ver se a espera correspondeu a todas as expectativas.

Indivisible dá-nos a conhecer Ajna, uma energética e simpática rapariga na sua adolescência. Mesmo vivendo numa aldeia pacifica, esta adora a arte do combate e lançar-se em aventuras. A jovem vive em paz junto do seu pai Indir, no entanto a relação dos dois podia ser melhor. Frequentemente Ajna, pergunta ao seu pai eventos acerca do seu passado, mas este, simplesmente ou nega ou fecha-se em copas perante tais desenvolvimentos. Certo dia a simpática vila é invadida por Dhar, um fiel soldado das tropas do lorde Ravannavar, um imperador que luta para trazer a luz ao mundo. Porém as suas tropas assassinam todos os aldeões, incluindo o pai de Ajna. Perante tal tragédia a rapariga parte em perseguição de Ravannavar, numa demanda de vingança.

A mais recente obra da Lab Zero, transporta-nos até lugares inspirados e derivados do nosso mundo, assentes em diversas culturas e mitologias quer nos seus ambientes como na caracterização das personagens. Uma das mais predominantes é a cultura Hindu, onde e na qual Indivisible recebe grande parte dos seus elementos e conceitos. Contudo não sou capaz de evitar a comparação da célebre série animada da Nikelodeon, Avatar, inserida em muitas partes da história. A impulsiva Ajna é essencialmente uma mistura da Avatar Korra, com os desenvolvimentos do avatar Aang. A mesma é igualmente rebelde, a sua aldeia foi destruída por um exército inimigo, e além de viajar numa demanda de vingança e livrar o mundo de um imperador, também procura descobrir mais acerca de si para alcançar a sua plenitude espiritual. Estes serão os maiores motores para mover uma história que inicialmente será muito simples e até um pouco linear, capitalizando na sua maioria nas interações entre nas diversas personagens que Ajna vai encontrando ao longo das suas viagens.

Partindo do já mencionado tenente inimigo Dhar, seguidamente pela macabra Shaman, Razmi, e um pouco mais tarde Ginseng, uma amante da botânica, mais não vou revelar para não estragar surpresas porque neste ponto a Lab Zero está de fato de parabéns, o elenco é do mais diversificado que vi num RPG. A rapidez com que novas personagens se uniram a nossa causa é alarmante! Ao todo são todas jogáveis e atingiram as duas dezenas na sua conclusão, um feito muito pouco próprio até para um jogo desta natureza. Asseguro-vos que vão soltar algumas gargalhadas, não só devido as interações com as mesmas, como também pela escrita que em alguns pontos até parece querer quebrar a quarta barreira. No entanto a sensação que tive é que muitas vezes algumas se uniam sem motivações dignas desse nome. Realmente é uma pena porque o cuidado e caracterização das mesmas estão muito bem conseguidas, mas nas horas iniciais mais parecia que estava a apanhar Pokémon, recruta-las para a minha equipa e a narrativa do jogo girar em prol de as conhecer. Basicamente a nossa amiga encontra alguém, ajuda, ou simplesmente escuta e depois estes são imediatamente assimilados para o seu cérebro. Este é outro poder que a jovem tem retido em si, podendo interiorizar-se com o mesmo numa espécie de mundo paralelo, atuando como base de operações. Dito isto podem contar que mesmo com muitas horas de jogo, continuaram a encontrar e a interagir com novas personagens.

Indivisible, é o mais recente projeto a apostar na fórmula Metroidvania, onde não existem níveis propriamente ditos, mas sim uma interligação com as suas localizações. Como é habitual nestes ambientes, esperam-nos muitos segredos para desvendar, e alguns quebra-cabeças, que não são tão simples como parecem ser. Isto porque Ajna vai adquirindo mais ferramentas como machados ou arcos nas suas viagens e alguns ficaram mais complexos com a interação de várias destas ferramentas e das suas mecânicas. Devido a natureza de muitos destes elementos, o jogo também é assente num misto de plataformas e ação, no qual muitas vezes até parecemos que estamos a jogar um título de Megaman, isto porque literalmente Ajna possui a maioria dos movimentos do robot da Capcom, escala paredes em salto, desliza e até temos alguns momentos com os infernais blocos que aparecem e desaparecem. Contudo Indivisible não pune um movimento ou uma ação mal-executada isto porque se o jogador cair numa cama de espinhos, Ajna não é reduzida a partículas, mas sim é transportada imediatamente para o sítio onde não triunfou, mas em segurança. Em matéria de exploração o jogo é muito simples, contudo no combate o jogo atinge uma complexidade bem avançada para quem decidir descobrir acerca mais da mesma.

É notória a herança da anterior obra da Lab Zero em Indivisible. Mesmo Skull Girls, tratar-se de um jogo de combate, as suas mecânicas estão bem presentes neste RPG. Em combate cada personagem corresponde a um botão no nosso comando, e ao pressionarmos os mesmos a nossa personagem executa movimentos. Desde que estejam disponíveis podemos executar ataques com uma ou mais personagens. É neste momento que a beleza do combate de Indivisible, vem ao de cima porque conceitos em jogos de luta como stances, combos ou juggles (manter o adversário no ar, enquanto realiza combos evitando que caia e estes sejam interrompidos) fazem as honras da casa. Para adicionar ainda mais dinamismo e profundidade a este sistema de batalha, existem certas personagens que possuem melhor sinergia umas com as outras, criando combos mais eficientes e duradouros, e técnicas avançadas de defesa que recompensam o jogador se este decidir tomar alguns riscos. Se no momento dos ataques dos inimigos que atuam também com base nos botões do nosso comando, defendermos apenas no seu impacto, não só o dano será menor, como a nossa barra de ataques especiais será enchida mais rapidamente. Cada personagem tem movimentos exclusivos como curar, penetrar defesas ou realizar um ataque especial. Numa fase muito prematura o jogo pune a quem não seguir algumas destas regras, esperem também alguns picos de dificuldade especialmente em bosses, e mobs com três ou mais inimigos. É certo que Valkyrie Profile popularizou este sistema de combate, mas penso que Indivisible revolucionou-o adicionando leves camadas de mecânicas de jogos de combate.

Visualmente o mundo de Indivisible deixou-me um pouco divido e até um pouco desiludido. De um lado temos personagens com centenas de fantásticas animações e muito detalhe, do outro, localizações povoadas de corredores muito despidos e repetidos com um ou dois inimigos. A mistura de lindos sprites e detalhadíssimos 2D juntamente com cenários 3D por vezes transmitiu um efeito artificial. Também e como já vai sendo habitual a maioria de mobs são recolors uns dos outros. Para avançar na narrativa Indivisible contou com still shots e algumas cenas animadas pelo Studio Trigger, que como já vai sendo habitual não desiludem e assentam como uma luva em algumas das cenas mais importantes do jogo. Partindo de todos estes elementos, o jogo é modesto no hardware dos nossos PC, podendo ser jogado a resoluções avançadas na cifra dos 60fps, em qualquer PC moderno.

No cômputo sonoro Indivisible cumpre bem os seus objetivos com uma banda-sonora composta por Hiroki Kikuta, o compositor de Koudelka e Secret of Mana, transporta-nos imediatamente para na sua maioria para melodias asiáticas. De salientar além do fantástico elenco que interpreta as nossas personagens, que o jogo está localizado em português brasileiro nos textos para que estiver interessado.

Indivisible é uma obra cheia de criatividade identidade e sempre atenta ao detalhe. Um feito muito pouco comum se consideráramos que a mesma parte de um projeto Kickstarter, mas que ao contrário de outros foi modelada atribuindo o melhor de si para nós. Muito possivelmente estamos perante um dos, senão mesmo o titulo indie de 2019!