Análise por Diogo Arez.

‘’MediEvil’’ é o remake do jogo de ação-aventura lançado em 1998, tendo-se tornado um jogo de culto ao longo dos anos juntamente com a sua sequela e remake para a PSP de 2000 e 2005, respetivamente.

Este jogo foi produzido pela Other Ocean Interactive e publicado pela Sony Interactive Entertainment, a quem agradecemos a cedência do código para o jogo.

‘’MediEvil’’ conta a história do lendário e (pouco) heroico cavaleiro Sir Daniel Fortesque, que morreu de forma hilariante numa guerra contra as forças maléficas do feiticeiro Zarok. 100 anos passados, Zarok regressa e coloca o reino de Gallowmere num feitiço onde as pessoas enlouquecem e os mortos se erguem das sepulturas, um desses defuntos ‘’sortudos’’ é o próprio Sir Daniel, e assim que ressuscita é alvo de chacota de muitas das personagens com quem interage por ser uma ‘’fraude’’ mas ao mesmo tempo a única esperança do reino, ele começa então uma jornada para travar Zarok de uma vez por todas e cumprir todas as lendas com o seu nome.

Falando do jogo em si, a Other Ocean não tentou algo de novo para revolucionar a franquia, muito pelo contrário, este jogo é um Remake extremamente fiel do jogo de 98, tanto que se usarmos um guia desse jogo praticamente tudo se aplica a este.

De certa forma pode-se considerar este remake como sendo o equivalente da Sony ao que foi feito pela Nintendo no recente ‘’The Legend of Zelda Link’s Awakening’’, são ambos remakes que não tentam inovar mas sim renovar clássicos já algo envelhecidos com o passar do tempo (MediEvil especialmente precisava deste tratamento dada a era em que foi lançado).

Tudo o que existia no original existe neste remake apenas com um aspeto atualizado para a geração atual, correndo a 1080p tanto na PS4 Base (versão analisada) como na PS4 Pro, tal como texturas atualizadas de forma a acomodar melhor estes sistemas.

No entanto, apesar de ser um remake praticamente idêntico ao original, as mudanças que tem não são apenas a nível visual pois a Other Ocean introduziu uns quantos ‘’Quality of Life Updates’’ de forma a melhorar a experiência, nomeadamente a nivel de gameplay (da qual falarei mais adiante) e até mesmo em termos de lore e expansão do universo através do novo ‘’Livro de Gallowmere’’, no qual temos acesso a textos e narrações que descrevem as diferentes coisas importantes com as quais nos deparamos na nossa jornada, tudo isto com o tradicional humor de MediEvil.

Humor esse que é um dos pontos fulcrais do jogo e uma das razões pelas quais se destacou há 21 anos atrás, o jogo não se tenta levar a sério e o humor é uma constante durante os cerca de 20 níveis que compõem a viagem de Sir Daniel por Gallowmere. A componente humorística está presente não só nos diálogos como também nos loading screens, nos menus, tal como no já mencionado ‘’Livro de Gallowmere’’.
‘’MediEvil’’ tem uma história simples que parece saída de um desenho animado da época mas este humor fá-lo sobressair e dá-lhe um tom único mesmo característico da franquia.

Tal como já tem vindo a ser costume nos exclusivos Sony, o jogo está totalmente localizado em Português e está um trabalho bem conseguido no geral apesar de tudo, não tendo sentido que perdi alguma coisa em jogar esta versão, especialmente quando na versão original as vozes e diálogos são reciclados do original logo ia ser mais do mesmo para mim então decidi optar pela versão Portuguesa. Contem com alguns nomes de peso da área como José Raposo, Ana Vieira, Rui Paulo, entre outros.

A jornada de Sir Daniel contra Zarok decorre ao longo de aproximadamente 20 níveis, muitos destes níveis são na sua maior parte lineares, no entanto praticamente todos têm coisas para descobrir e apanhar, esta sensação de descoberta e exploração é bastante gratificante e diverti-me imenso a descobrir o máximo possível em cada um destes níveis, seja simples desvios do terreno ou buracos em paredes há sempre algo num caminho alternativo, nomeadamente ouro para comprarmos munições para as armas como também fontes que carregam a vida do jogador e Cálices.

Os cálices são o principal colecionável neste jogo e obtêm-se matando inimigos com almas que possam carregar os cálices, assim que a percentagem chegar a 100% podemos apanhar esse mesmo cálice, de seguida terminando o nível temos acesso ao Salão dos Heróis, local onde obtemos todas as armas novas do jogo e mais uns quantos bónus que nos ajudarão a derrotar Zarok. Colecionando todos os 20 cálices do jogo somos presenteados com um ‘’True Ending’’, logo se forem pessoas que gostam desse tipo de coisas é algo a ter em conta.

No departamento dos colecionáveis temos também a adição inédita das ‘’Almas Perdidas, estes pequenos itens aparecem em niveis anteriores já terminados e consistem em pequenas missões secundárias que podemos fazer, não adicionam muito ao jogo mas são uma ideia engraçada para manter as pessoas a jogar e algumas foram francamente divertidas. De salientar que o bónus recebido pela obtenção de todas as almas é simplesmente incrível e recomendo imenso a todos os fãs que o tentem fazer.

Cada nível apresenta uma atmosfera e temática diferente consoando a temática da região de Gallowmere em que se enquadram. A atmosfera do original era bastante sombria e por vezes roçava o aterrorizador muito por culpa das limitações de hardware da PS1, tínhamos a constante presença de um céu completamente escuro e um nevoeiro que adicionavam uma componente de terror ao jogo o que se adequava sendo este um jogo associado à época do Halloween.

No Remake todas estas limitações, obviamente, desapareceram mas o que aqui temos, embora esteja uns furos abaixo do que o que o original fez em 98 está muito bem conseguido no entanto por vezes achei um ou outro nível algo colorido demais ao ponto de me deixar um pouco desiludido.

Ainda assim o jogo tem uma atmosfera bastante competente e o design visual do jogo no geral é de excelência, é incrível o aspeto destes cenários no motor usado pela Other Ocean. Os visuais podem não ser dos melhores que já vimos na geração mas dão uma nova vida a estes níveis que antes estavam confinados a uma PS1, tudo o que antes conhecíamos tem aqui um aspeto melhorado como já disse e em certos níveis dei comigo a parar para vislumbrar os visuais do jogo.

Este design visual é ainda auxiliado pela excecional Banda Sonora do jogo, contando com inúmeros remixes das músicas do original , composta por Andrew Barnabas e Paul Arnold.
Praticamente todas as músicas desta OST emanam Danny Elfman e o seu trabalho nos mundos de Tim Burton, nomeadamente ‘’The Nightmare Before Christmas’’, pelo que só têm a contribuir a toda a estética e atmosfera do jogo e lhe dá uma vertente verdadeiramente intemporal.

Falando da parte sonora, o áudio deste jogo é uma faca de dois gumes pois isolado é bastante competente e os sons dos inimigos e armas estão semelhantes ao original, mas ao fazermos comparação lado a lado entre as 2 versões notamos que há diferenças suaves  no entanto algo impactantes para quem está habituado ao antigo. Diferenças dessas são por exemplo os sons que Daniel fazia ao recarregar a sua vida em fontes de forma a assinalar a completa recuperação como também a remoção dos barulhos de morte de certos inimigos o que em alguns torna difícil a perceção do seu desaparecimento. Apesar de tudo não achei mau e a maioria dos sons estão cá de uma forma ou de outra, apenas lamento mesmo estas pequenas situações facilmente evitáveis.

Bem, e agora está na hora de falar da parte mais importante de todo o jogo, o gameplay.
É no gameplay que se nota que ‘’Medievil’’ é muito um produto do seu tempo e um remake que tenta ser o mais fiel que consegue ao mesmo tempo que muda algumas coisas, a premissa do jogo consiste num Hack and Slash rudimentar navegando por niveis algo lineares eliminando os inimigos que nos vão aparecendo pela frente.

É nesta secção que MediEvil mais falha, sendo um jogo de PS1 o movimento e o controlo geral da personagem é bastante clunky, há melhorias em relação ao original, onde muitas vezes os controlos faziam alguma impressão por ser dos primeiros jogos 3D, no entanto a essência deste mantém-se bastante presente nos alicerces do jogo e não é o movimento ligeiramente mais fluido da personagem que muda isso e essa mesma base por vezes torna platforming mais exigente e preciso algo complicado de se fazer.

O combate é do mais básico possível, temos uma arma de curto alcance e outra de longo alcance que podemos ir trocando à vontade quando mais precisarmos, as lutas são basicamente clicar Quadrado até o inimigo morrer e evitar o máximo de dano possível, mais uma vez evidenciando as origens da 5ª geração que o jogo tem. É aqui que se encontra a mudança mais infame que a Other Ocean fez, no original ao atingirmos um inimigo ele recuava para trás e interrompia o seu ataque de forma a realçar o peso dos golpes, já neste enquanto muitos inimigos recuam há muitos que continuam os seus ataques tornando o dano algo inevitável e em certos casos irritante, espero que corrijam eventualmente através de atualizações graduais que possam vir a fazer pois é algo que altera o feel geral do combate e por vezes prejudica o jogador.

Por falar em prejudicar o jogador, o maior ponto fraco do jogo é sem dúvida a sua câmara que no original era bastante má e aqui embora melhore ligeiramente para se adequar aos padrões atuais continua bastante fraca e por vezes estraga a experiência ao obstruir a ação, nomeadamente em zonas que por alguma razão têm as típicas trocas de ângulos usadas na era da PS1 pois a câmara começa a entrar em conflito com o jogador e não o avisa desta mudança súbita, dei por mim muitas vezes a cair em fossos e a levar com ataques repentinos devido a estas mudanças que aliadas a um movimento com problemas tornam a experiência em certas sequências desagradável.

De notar que encontrei alguns bugs pequenos que embora não tenham afetado muito a minha experiência não deixam de ser coisas a ter em conta, a maioria dos mesmos consiste em problemas na deteção de colisão e com a câmara do jogo que já mencionei.
O jogo tem também batalhas contra bosses mas por serem originárias de um jogo de 98 são bastante simples e agarram-se a um truque especifico para serem derrotadas.

Outro aspeto onde o jogo cede um pouco é na framerate, o jogo corre a 60fps tanto na PS4 Pro como na PS4 Base, mas na PS4 base o jogo corre mais vezes a 30-40 que a 60 propriamente ditos, cheguei a apanhar uma sequência em que a minha framerate desceu abaixo dos 15fps e destruiu por completo o que estava a acontecer no ecrã, felizmente mais adiante estabilizou e não tive problemas a registar, embora tivesse preferido uma cap de 30 no jogo de forma a evitar estas descidas súbitas.

Tendo dito isto tudo, ‘’MediEvil’’ continua a ser um jogo bastante competente e um remake que embora não inove adiciona certas coisas que melhoram a experiência do jogador, tem problemas nomeadamente por ser muito um produto da sua era mas no geral os positivos não são abafados o suficiente pelos negativos para tornar este jogo numa má experiência.
‘’MediEvil’’ não tenta apelar a novas gerações mas sim renovar esta experiência adorada por muitos e trazê-la para os dias de hoje de forma a que essas pessoas ‘’matem’’ saudades de uma franquia que lhes é querida, e é por essa razão que recomendo bastante o jogo a fãs mas não tanto a pessoas que queiram jogar isto pela primeira vez pois não é um jogo para essas pessoas nem o tenta ser, é puramente uma viagem nostálgica para tempos mais simples da indústria e agradeço à Other Ocean por ter arriscado e feito o remake de um jogo que me é muito querido e despertou imensas memórias de infância, especialmente ao ser lançado ao preço reduzido de €29.99

Nota Final: 7/10