
Vinte e cinco anos depois do lançamento da primeira Xbox, Ed Fries, que foi vice-presidente de publicação de jogos da Microsoft e uma das figuras centrais na criação da consola, está a falar abertamente sobre os bastidores daquela época. Numa entrevista ao The Expansion Pass, Fries revelou algo que poucos suspeitavam na altura, vários estúdios japoneses queriam ver a Sony a ter concorrência, mas tinham demasiado a perder se mostrassem esse apoio de forma demasiado explícita.
As visitas ao Japão e as conversas difíceis
Fries descreve reuniões regulares com algumas das maiores produtoras japonesas da altura, Konami, Capcom, Square e Sega, numa altura em que a Xbox era uma plataforma completamente nova e ainda sem qualquer garantia de sucesso. O mercado tinha acabado de ver a Sega sair da corrida das consolas, e a memória de fracassos como o 3DO e o Philips CDi ainda estava fresca. Não havia nada que garantisse que a Microsoft conseguiria onde outros tinham falhado.
Ainda assim, havia interesse. Segundo Fries, alguns negócios foram fechados, mas outros nunca avançaram, especialmente com a Square, que sempre foi uma conversa complicada. A questão não era falta de interesse, era o receio das consequências. Como ele explicou no podcast, a Square “queria que a Sony tivesse concorrência, mas não podia ser demasiado explícita no seu apoio à Xbox. Não podiam deixar muito claro que estavam a apoiar a Xbox”.
Uma das revelações mais interessantes da entrevista tem a ver com Final Fantasy. Fries admitiu que a série da Square foi uma das maiores oportunidades que a Xbox deixou escapar, chegando mesmo a tentar torná-la exclusiva da plataforma Microsoft. A negociação nunca avançou, a Square teria de abdicar de demasiado dinheiro, e o mercado PlayStation era simplesmente grande demais para ignorar. A Xbox acabaria por conseguir alguns títulos da editora mais tarde, já depois da saída de Fries em 2004, incluindo exclusivos como Infinite Undiscovery e The Last Remnant.
A Tecmo e os Dead or Alive como mensagem silenciosa
Mas foi a Tecmo que, segundo Fries, encontrou uma forma de enviar uma mensagem sem correr demasiados riscos. A série Dead or Alive foi lançada na Xbox, e, de acordo com o ex-executivo, essa decisão não foi puramente comercial. Nas suas palavras: “Fizeram-no, de certa forma, para provocar a Sony, porque queriam que a Sony tivesse concorrentes, caso contrário, é um monopólio e os monopólios, bem, fazem o que querem”.
A lógica era clara, apoiar a Xbox de forma discreta era uma forma de manter o equilíbrio de poder, sem nunca expor diretamente o estúdio a retaliações. A Tecmo podia dizer que estava simplesmente a expandir a sua presença numa nova plataforma. A mensagem, porém, era outra.
O contraste com a realidade atual é notável. A Xbox, que durante anos tentou conquistar as editoras japonesas com acordos e exclusividades, publica hoje os seus próprios jogos na PlayStation, uma inversão que teria parecido impensável em 2001. Ao mesmo tempo, a Bungie, que Fries ajudou a trazer para a Microsoft com Halo, pertence agora à Sony Interactive Entertainment. É o tipo de reviravolta que só a indústria dos videojogos consegue produzir.
A entrevista de Fries ao The Expansion Pass é mais uma peça de um retrato que tem vindo a ganhar detalhe ao longo do aniversário dos 25 anos da Xbox, um projeto que, como ele próprio já admitiu noutras ocasiões, quase foi cancelado antes de sequer chegar às lojas.









