
Partilhar conteúdo não publicado de Genshin Impact ou Honkai: Star Rail saiu muito caro a muita gente em 2025. A miHoYo publicou recentemente na sua conta oficial do WeChat um relatório detalhado sobre as medidas tomadas pelo seu departamento jurídico ao longo do ano para proteger a sua propriedade intelectual e os números são de tal forma expressivos que acabaram por circular além das fronteiras chinesas.
Durante 2025, a empresa recebeu mais de 100 mil denúncias submetidas por jogadores sobre violações diversas, desde a divulgação de rumores falsos, passando por leaks de conteúdo não lançado, até à venda de ferramentas de batota e à operação de servidores privados. Para lidar com o volume, a miHoYo colaborou com as autoridades em 22 investigações criminais e instaurou processos civis contra 2.388 indivíduos. A empresa contabiliza ainda um dado pouco habitual em relatórios deste tipo: um total de 1.240 infratores emitiram pedidos de desculpa públicos. O montante total recuperado através de sentenças judiciais e acordos extrajudiciais ultrapassou os 37 milhões de yuan, cerca de 5,38 milhões de dólares.
A HomDGCat Wiki e o caso que chegou a dois países
Um dos episódios mais mediáticos do ano foi o encerramento da HomDGCat Wiki, um dos recursos mais populares entre quem acompanhava os leaks de Genshin Impact e Honkai: Star Rail. A HoYoverse (a marca internacional da miHoYo) processou o operador da wiki, Jianuo Zhou, num tribunal norte-americano, alegando que Zhou solicitava ativamente a beta testers que violassem os seus acordos de confidencialidade para lhe fornecer ficheiros de teste.
A Cognosphere (entidade legal da HoYoverse) enviou uma carta de cessação e desistência em dezembro de 2025, à qual Zhou respondeu apenas para dizer que discordava das alegações e que apenas cumpriria “algumas” das exigências. O litígio americano acabaria por ser apenas o prelúdio do que se seguiu na China. A polícia de Xangai deteve três indivíduos ligados ao grupo HomDGCat, incluindo o próprio Zhou, por violação de direitos de autor. O caso tornou-se o primeiro do género na indústria de videojogos chinesa.
Curiosamente, mesmo após o anúncio das detenções, a conta da HomDGCat no Bilibili continuou a publicar materiais de bastidores.
Além do caso HomDGCat, a miHoYo processou um blogger por aproximadamente 70 mil dólares por “disseminar continuamente informação não publicada” sobre os mesmos jogos. Um utilizador identificado como LiuVanXXX foi detido pela polícia por lucrar ilegalmente com informação proveniente de leaks.
Cheats, contas à venda e 10 milhões de dados comprometidos
A guerra da miHoYo não se ficou pelas fugas de informação. No campo das ferramentas de batota e serviços proxy, uma das maiores dores de cabeça dos jogos gacha online, a empresa diz ter encerrado 503 revendedores. Um dos casos mais graves envolveu a loja online Raindrop Studio, condenada a pagar cerca de 380 mil dólares em indemnizações após uma decisão judicial desfavorável.
O episódio mais grave do ano em termos de impacto direto nos jogadores foi desmantelado em parceria com a polícia local, um grupo de crime organizado sediado em Yangzhou, na China, vendia e alugava contas de jogo e, no processo, roubou os dados pessoais de 10 milhões de utilizadores. A operação resultou na detenção de 25 suspeitos.
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Uma mudança legal que facilitou a perseguição criminal
O contexto legal na China também mudou de forma relevante em 2025. Em abril, o Supremo Tribunal Popular e a Suprema Procuradoria Popular emitiram uma interpretação judicial que clarificou a aplicação da lei penal em casos de propriedade intelectual, baixando os limiares para responsabilidade criminal em violações de direitos de autor no ambiente digital. Sob as regras anteriores, abrir um processo criminal exigia normalmente ganhos ilícitos superiores a 50 mil yuan. Com a nova interpretação, o limiar passou a assentar em critérios como o número de visualizações ou downloads, o que alargou consideravelmente o âmbito da perseguição penal a quem partilha conteúdo não autorizado online.
Luo Xi, diretor jurídico da miHoYo, explicou no contexto das detenções ligadas à HomDGCat que as leaks “prejudicam severamente a experiência do jogador ao retirar o elemento de surpresa”, e acrescentou que os materiais fragmentados ou mal interpretados “criam controvérsia, desinformação e toxicidade entre os utilizadores”, com consequências diretas para a reputação da marca e para as perdas financeiras da empresa.









