
O Crimson Desert chegou às lojas a 19 de março de 2026 com uma receção assinalável, mais de 2 milhões de cópias vendidas nas primeiras 24 horas, mas o entusiasmo durou pouco. Ainda no próprio dia de lançamento, jogadores começaram a partilhar screenshots com pinturas e murais in-game de aspeto perturbador: rostos desfigurados, cavalos com membros a mais, arquitetura sem coerência visual. Os sinais eram familiares a quem conhece os artefactos típicos da geração de imagens por inteligência artificial.
A comunidade rapidamente inundou o subreddit do jogo com acusações, enquanto alguns utilizadores defenderam que a questão não merecia tanta atenção. O debate escalou quando se tornou evidente que a Pearl Abyss não tinha feito qualquer declaração sobre o uso de IA generativa na página do jogo no Steam, o que representa uma possível violação das regras da Valve sobre transparência em conteúdos gerados por IA.
Hoje, 22 de março, a Pearl Abyss quebrou o silêncio com um comunicado publicado na conta oficial do Crimson Desert no X. A explicação segue um padrão que já foi visto noutros casos semelhantes, os assets em causa teriam sido criados como material temporário durante fases iniciais de produção, com a intenção de serem substituídos antes do lançamento. Não foram.
Nas palavras da empresa: “Durante o desenvolvimento, alguns adereços visuais 2D foram criados como parte da iteração em fase inicial utilizando ferramentas experimentais de IA generativa. Estes assets ajudaram-nos a explorar rapidamente o tom e a atmosfera nas fases iniciais da produção. No entanto, a nossa intenção foi sempre que esses assets fossem substituídos, após trabalho final e revisão pelas nossas equipas de arte e desenvolvimento…”.
E mais à frente: “Na sequência de relatos da nossa comunidade, identificámos que alguns desses assets foram incluídos involuntariamente na versão final. Isto não está em linha com os nossos padrões internos, e assumimos total responsabilidade por isso. Reconhecemos também que deveríamos ter divulgado claramente o nosso uso de IA. Embora estas ferramentas tenham sido utilizadas principalmente durante a produção inicial, com a expectativa de que estes assets seriam substituídos antes do lançamento, reconhecemos que isso não justifica a falta de transparência. Pedimos sinceramente desculpa por estas falhas”.
Alguns analistas notaram que os assets identificados parecem ter sido gerados com ferramentas de IA mais antigas, o que corrobora a versão da Pearl Abyss de que o material é de fases recuadas do desenvolvimento, e não de uma tentativa deliberada de poupar recursos com recurso a IA no produto final. Ainda assim, isso não dissipa as críticas, especialmente quanto à ausência de qualquer aviso na plataforma.
O caso não é inédito. Em 2025, o Clair Obscur: Expedition 33 enfrentou uma situação idêntica, quando se descobriu que assets criados por IA tinham sido incluídos como texturas de preenchimento temporárias. A Sandfall Interactive explicou que alguns desses elementos escaparam ao processo de controlo de qualidade. A semelhança entre os dois casos não passou despercebida à comunidade.
O que a Pearl Abyss vai fazer
Segundo o comunicado oficial, a empresa está a conduzir uma auditoria completa a todos os assets in-game para identificar e remover qualquer conteúdo de origem generativa. As substituições serão integradas em patches futuros. Em paralelo, a Pearl Abyss anunciou uma revisão dos processos internos que permitiram esta situação, com o objetivo de garantir maior transparência na comunicação com os jogadores.
A polémica em torno da IA generativa na indústria dos videojogos não é nova, mas cada novo caso reacende o debate. Estúdios como a Larian também foram alvo de críticas no passado pelo uso de IA em fases de conceito e prototipagem, ainda que em contextos diferentes. O que parece ser consensual entre os críticos é que a questão não é tanto o uso das ferramentas em si, mas a ausência de divulgação, algo que, neste caso, a própria Pearl Abyss acabou por reconhecer.







